Michel Laub

Mês: abril, 2021

Fim de semana

Um debate – Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Eduardo Escorel sobre Shoah (aqui).

Outro – Ariella Azoulay e Lilia Schwarcz sobre fotografia (aqui).

Um disco ­– As the Love Continues, Mogwai

Um filme – Nomadland, Chloé Zaho.

Um filme legalzinho – Father, Florian Zeller.

Fim de semana

Um texto – Adam Grant sobre a pré-depressão da pandemia (aqui)

Um vídeo – Triple Chaser, Forensic Architecture (aqui).

Um documentário – Alvorada, Anna Muylaert e Lô Politi

Um livro – Cinema e Política, Paulo Emilio Salles Gomes (Penguin, 152 págs.).

Uma série em podcast – Escritores/as e personagens, Itaú Cultural.

Fim de semana

Um disco – G_d’s Pee AT STATE’S END!, God Speed You! Black Emperor.

Outro – Kids, Noga Erez.

Um documentário ok – Marginal Alado, Felipe Novaes.

Um podcast – Caminhando com Leonardo Fróes, 451.

Um livro – O Ar que me Falta, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras, 200 págs.).

Brasileiros em Berlim

 “Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos jogos Olímpicos não deve viajar (…) no que as companhias aéreas chamam de ‘classe econômica’”. Assim começa Um Brasileiro em Berlim, reunião de crônicas que João Ubaldo Ribeiro publicou em 1990 no jornal Frankfurter Rundschau (Frankfurt/M, 164 págs., edição bilíngue). A frase soa carinhosamente anacrônica: mesmo que os voos internacionais tenham até piorado de lá para cá, reclamar desse tipo de coisa hoje seria um luxo, quase um alento em meio a pandemia, recessão e crise moral sem fim.

O tema do livro é a temporada que o escritor baiano passou como bolsista da DAAD, órgão governamental alemão de apoio às artes, na capital de um país recém unificado depois da queda do Muro. Ubaldo fala de praças, padarias, ciclistas. Do idioma impenetrável que os filhos aprendem sem esforço na escola, dos canibais da Amazônia no estereótipo do Brasil de então. O tom geral é o da frase de abertura, uma ironia hiperbólica e ao mesmo tempo leve, condizente com o “rés-do-chão” que Antonio Candido disse definir o gênero crônica – e que, acrescento eu, sempre paga algum tributo ao anti-intelectualismo. “Gostaria de ser profundo”, escreve João Ubaldo, um autor de formação bastante erudita. “Ou chato, que muitas vezes é sinônimo de profundo. Mas não sou profundo e aspiro a não ser chato.”

É curioso pensar em como um livro com a temática de Um Brasileiro… seria escrito hoje. A par da fluidez e sabor do texto, o que torna a leitura prazerosa no fim das contas, o imaginário de país que emerge dessas páginas –  a cada frase, na comparação constante com a vida da Alemanha – soa ainda mais datado do que se esperaria num conjunto de crônicas. A comédia das contradições da classe média brasileira, tom ao qual Ubaldo acena usando o microcosmo da própria família, foi substituída pela tragédia do ódio entre irmãos, amigos, vizinhos. A bagunça simpática do nosso suposto modo de ser virou uma nada suposta boçalidade. E os estereótipos, bem, esses dão até saudade do tempo dos canibais: a forma como o mundo passou a nos ver – um agrupamento suicida governado por um defensor da morte – é a descrição exata do nosso presente e futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9-4-21, sobre a experiência de morar em Berlim segundo João Ubaldo, Bernardo Carvalho e eu mesmo. Íntegra aqui.

Dor e dinamite

Em 1985, a escritora e cartunista norte-americana Alison Bechdel publicou uma tira célebre em sua série Dykes to Watch Out For. Nela, uma personagem diz que só vê filmes que 1) têm pelo menos duas mulheres; 2) elas conversam uma com a outra; 3) sobre alguma coisa que não seja um homem. O que era um pouco piada, um pouco discurso a sério, virou referência em discussões de Internet sobre preconceito de gênero no imaginário contemporâneo. Afinal, a imensa maioria das histórias ficcionais de hoje – e não só as criadas por homens – acabaria reprovada em um dos três requisitos.

Mas há algo de simplificador, claro, nesse tipo de critério. Na arte existe ironia, contraste, incômodo proposital e tantos outros recursos que põem nuances no valor de face de uma narrativa. A denúncia de uma situação opressiva, por exemplo, pode ocorrer quando o opressor é uma figura totalizante, que assombra cada palavra dita ou pensada por sua vítima. É o caso de Vista Chinesa, novo romance de Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.), e do modo mais radical possível em se tratando da temática de gênero: o livro reproduz a elaboração de um estupro – e, logo, a presença irrecorrível do estuprador – na sensibilidade de uma arquiteta carioca.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26-3-21, sobre os novos livros de Tatiana Levy e Natércia Pontes. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Kathryn Schulz sobre animais e orientação (aqui).

Outro – Alvaro Costa e Silva sobre Asfalto Selvagem (aqui).

Um livro curioso – Of Walking in Ice, Werner Herzog (Penguin, 67 págs.).

Uma graphic novel – Guarda Lunar, Tom Gauld (Todavia, 96 págs.).

Uma reprise – Mephisto, István Szabó.

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