Michel Laub

Mês: julho, 2019

Salinger e a pureza americana

Entre 1945 e 1946, o nova-iorquino J.D. Salinger publicou fragmentos do que em 1951 ganharia forma ampliada e final no romance “O Apanhador no Campo de Centeio”. É um período historicamente simbólico: foi a partir do fim da Segunda Guerra, na esteira de um imenso triunfo geopolítico e econômico, que os Estados Unidos consolidaram sua posição de principal referência cultural no imaginário do Ocidente.

A coincidência é indissociável da maneira como foi e é lido esse clássico, que acaba de ser relançado em nova tradução de Caetano W. Galindo (Todavia, 256 págs). Se em boa parte a hegemonia dos valores americanos se fundou na ideia de ordem, em alicerces de uma sociedade rica e no geral estável – a família, a empresa, a religião –, por outro seu culto à liberdade e ao voluntarismo foi um estímulo inevitável à rebeldia.

Trata-se de uma ambivalência característica, bastante presente – por exemplo – no cinema de Hollywood. “O Apanhador” talvez seja a obra literária do Século XX que resumiu melhor esse espírito tendo como parâmetro o conflito de gerações. Uma novidade em 1945-1951, quando a figura do adolescente recém começava a ser vista como sujeito social autônomo: a voz que Salinger deu ao lendário narrador Holden Caulfield, de dezesseis/dezessete anos, com sua rapidez e oralidade irresistíveis, algo por si só contrário à formalidade engessada de qualquer poder em qualquer tempo, fixa premonitoriamente um tipo – aquele que mudaria o mundo (ou um determinado mundo) uma geração depois, durante as revoltas da década de 1960.

Dada a inconfiabilidade desse narrador, porém, é inevitável ver em seu discurso um caráter também ambíguo. No valor de face, as célebres expressões usadas por Caulfield denunciam uma sociedade baseada na opressão e na hipocrisia. Num longo feriado posterior à sua expulsão da escola, entre peripécias para se esconder dos pais, conversas desastradas com ex-professores e encontros amorosos frustrados, ele discorre sobre gente “fajuta” (“phony”) e “cafona” (“corny”), coisas que são “porcaria” (“lousy”) ou “cascata” (“the old bull”).

Já num nível menos imediato, Salinger joga com o que o leitor enxerga por trás do que vai sendo dito. O comovente em Caulfield é quase sempre sua certeza de estar correto, não sua correção real. Uma voz que talvez fale menos dos outros do que da própria inocência, de equívocos embalados em sentimentos de um momento instável – a raiva pela saída da escola, o ciúme de um estudante que atrai a moça em quem ele está interessado, a tristeza pela morte de um irmão.

(Início de texto publicado no Valor Econômico, 5/7/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui)

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Fim de semana

Um podcast – Canudos e Euclides da Cunha (aqui).

Um ensaio – Jean-Claude Bernardet e o câncer (aqui).

Um depoimento – Ian Patterson e a bibliofilia (aqui).

Um artigo – Shannon Palus e os avisos de gatilho (aqui).

Um filme – Nico, 1988, Susanna Nicchiarelli.

Fim de semana

Uma nova edição – Coração das Trevas, Joseph Conrad (Ubu, 224 págs.).

Uma fala/leitura – Susan Sontag sobre expressão pessoal e dor (aqui).

Um documentário – DeFalla – Sobre Amanhã, Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento (aqui).

Um filme ok – Rocket Man, Dexter Fletcher

Um disco de covers – California Son, Morrissey.

Egopress

– Fiz a curadoria de junho da TAG livros e escrevi um prefácio do livro escolhido, O Sentido de um Fim, de Julian Barnes. Entrevista minha a respeito: https://bit.ly/30hXDMy.

– Entrevistas recentes para o Jonatan Silva, da Escotilha (bit.ly/2wIZNI9), e o Carlos André Moreira, da Zero Hora (https://bit.ly/2XvAS6a).

– Estarei nesta quarta, 10/7, 11h25, na semana literária do colégio Leonardo Da Vinci, em Porto Alegre. Na sexta 12, às 10h, converso com alunos do colégio Murialdo, em Caxias/RS.

Fim de semana

Um ensaio – David Wallace-Wells e o fim do mundo (aqui).

Uma reportagem – William Langewiesche e o fim de um voo (aqui).

Um disco – Father of the Bride, Vampire Weekend.

Um documentário simpático – Alceu Valença na Embolada do Tempo, Paola Vieira.

Um filme médio – Us, Jordan Peele.