Michel Laub

Mês: maio, 2021

Fim de semana

Um livro – O Último Processo de Kafka, Benjamin Balint (Arquipélago, 272 págs.).

Um capítulo de livro – Isabel Wilkerson sobre os EUA e o nazismo (aqui).

Um podcast – Lawrence da Arábia no História FM.

Uma exposição em Berlim – Gerhard Richter na Alte Nationalgalerie.

Outra – Gerhard Richter na Max Liebermann Haus.

Egopress

Neste sábado, 29/5, às 11h, participo de uma conversa sobre judaísmo contemporâneo no Zoom da Casa do Povo/SP. Link para entrada: Bit.ly/circulo40

Solução de dois Estados é o livro do mês num dos clubes de leitura da Escrevedeira, coordenados por Luciana Gerbovic e Flavio Cafiero. Informações aqui.

Artigos acadêmicos sobre meus livros que só fui ler agora: Maria Malka, da UFRGS, sobre Solução de Dois Estados (https://cutt.ly/0xSBMe0); Marcio Markendorf e Marthina Baldwin, da UFSC, sobre O Tribunal da Quinta-Feira (https://cutt.ly/RxSVmZ7); Felicio Dias, da Unicamp, sobre A Maçã Envenenada (https://cutt.ly/7xSVZid); Pedro Kalil, da UFU, sobre O Segundo Tempo (https://cutt.ly/Anuj7Kl).

Entrevistas recentes: para a Przekroj Magazine, da Polônia, por Aleksandra Lipczak (https://cutt.ly/xb4di9y), e para o Bemdito, por Jáder Santana (https://cutt.ly/tnukaDf).

Arquitetura, inteligência e desastre

Entrevista que fiz com Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) para a revista Bravo, edição de setembro de 2003:

O que a arquitetura pode fazer diante do caos contemporâneo?

Se você pensar na África e em outros lugares, o problema é muito mais social que arquitetônico, evidentemente. Só que eu digo que a arquitetura pode resolver os problemas como forma de abrir a discussão. Essa questão encerra o conflito básico dos dias de hoje, a inteligência contra a estupidez, contra a “rota do desastre”. Há muito engano quando se diz que a arquitetura pretende fazer isso ou aquilo. Na verdade, ela vem, desde a origem do homem, numa posição de resolver problemas. Ocorre que os “problemas” não existem previamente: eles são criados. O homem acrescenta a ideia de desejo às suas necessidades básicas, e a arquitetura é o sucesso da realização de desejos. O que nós estamos vendo no mundo de hoje é a degenerescência, mas ela só pode surgir a partir do que é bom. Há a especulação imobiliária, que é negativa, mas ela parte do edifício vertical, uma maravilha de êxito humano, do ponto de vista da mecânica dos fluidos, sólidos etc. É maravilhoso você poder abrir uma torneirinha no 15º andar em Copacabana e lavar roupa, enquanto suas crianças tomam banho de mar a um quarteirão de distância.

A existência do caos se deve ao progresso, no bom sentido?

Sim, são os contratempos que o homem sempre enfrentou entre êxito e degenerescência. Claro que pode ser o desastre final, como no caso da energia atômica, coisas assim. Temos de ser cuidadosos. Mas pode -se ainda ter esperança de algum consenso pra corrigir esta rota do desastre. A ideia da ecologia, por exemplo, gera a noção de futuro, porque é uma ideia popular de consciência sobre a natureza. Nós não estamos aqui para nenhuma missão extraordinária que não seja possibilitar a permanência do ser humano no universo.

O conceito de arquitetura como algo que deva resolver os problemas está errado? A arquitetura deve se preocupar em planejar algo novo ou trabalhar sobre o que já existe?

O conceito está certo. É tudo o que temos. A arquitetura navega no âmbito da política. A ideia de uma justa urbanização, de organização dos homens nesse desejo da cidade contemporânea, não pode ser concretizada se não for planejando, experimentando, acertando e errando para fazer algo que possa ser exitoso. O que já existe deve ser tomado como experiência. É o caso dessa história de “reviver” os centros. Mas por que eles devem ser “revividos”, se ali está a matriz, a base? O centro deveria ser a suprema experiência do êxito. E de fato é, porque ali estão concentradas as melhores instalações de água, esgoto, telefonia, transporte etc. O centro é abandonado por uma rejeição da própria cidade — que, ao surgir, é democrática. Se você deitar numa calçada do centro por 15 minutos, ninguém vai importuná-lo. Tente fazer isso num bairro rico, e um jagunço logo estará no seu encalço. A cidade é um desenho que existe na cabeça do homem antes de sua concretização. Portanto, ela pode ser justamente projetada. Essa expectativa de êxito da técnica, da ciência e das artes a um tempo só, e isso é arquitetura, é perfeitamente plausível. Tanto que há exemplos banais de mais ou menos êxito. Para ficarmos em São Paulo, na avenida Paulista a melhor quadra é a do (centro comercial) Conjunto Nacional. É a única em que você não encontra automóvel saindo na calçada — eles saem pela rua secundária. É bastante simples, uma questão de disposição espacial. O Conjunto Nacional é misto, ficaram escritórios e habitações, e ali há comércio e metrô. Então, é possível. Mas é preciso um grande consenso. O urbanismo é menos coisa feita do que associação de homens.

Quem está pensando a arquitetura hoje?

O mundo inteiro. A ideia de revitalização das áreas centrais é mundial, e também pode se degenerar por causa da visão ideológica de certos valores de nossa existência. Por exemplo, a cultura. Fazendo uma caricatura, a cultura ficou como uma ideia de vaguidão específica. Fazem- se centros culturais, e ninguém sabe o que eles são. E ao mesmo tempo é uma batalha conseguir uma sede adequada para um corpo de baile da cidade, para a orquestra sinfônica. Esses centros não são genéricos, são especificamente dirigidos a uma parte da população. Pegar a sede de um banco, por exemplo, e transformar em centro cultural é absurdo. Era melhor que o banco continuasse banco, e que você construísse o adequado centro cultural. Você deixa de inventar para construir de forma indevida. Não dá pra generalizar tudo: antigos armazéns industriais podem virar ótimos pavilhões artísticos etc. Só que também não se deve generalizar para o outro lado, no sentido de que esses projetos sejam sempre “bons”.

Você fala de motivação ideológica. Existem a esquerda e a direita na arquitetura?

O que talvez mais caracterize essa separação é a exclusão: alimentar a ideia de bairros exclusivamente assim ou assado; você desenvolver de modo exacerbado, como elemento de exclusão, a ideia da insegurança ou da violência, como se ela pudesse ser resolvida apenas pela repressão. A cidade é feita com casas. Só a exclusão da moradia simples, popular, das áreas centrais já é um absurdo. O prédio Copan, em São Paulo, é um exemplo lindo de uma perspectiva de novos espaços realizados no centro da cidade. Há apartamentos de 50 m2, de 100 m2. Não é o pequeno que caracteriza a pobreza: você pode ser sozinho e viver muito bem num apartamento de 50 m2. Pode ser o primeiro violoncelista da Orquestra Sinfônica e ir a pé para o trabalho. Ter a coragem de ver na pobreza aspectos invejáveis de liberdade, por exemplo, de independência em relação à propriedade. A propriedade pode ser, hoje, um grande absurdo. A ideia de comprar um pedaço do território do planeta é um pouco absurda. Você vive na cidade. A parte pública deveria ser muito mais a sua casa do que esse espaçozinho, cuja imagem querem vender ao pobre como algo ideal, um índice de felicidade que deve ser perseguido.

Quais são os inimigos dessa vida pública? O que impede as pessoas de aproveitar mais a vida fora de casa?

Tenho impressão de que é a falta de curiosidade para saber como funcionam as coisas do mundo. A conversa, o bar, o botequim, o cinema, o teatro, o jornalismo são as principais riquezas que a cidade tem a oferecer — ela mesma como a grande universidade do conhecimento.

Como a arquitetura entra aí?

A arquitetura deseja construir essa cidade que é tecnicamente rigorosa, para que o prédio não caia e o sistema de transporte funcione, mas que não quer subordinar a vida de ninguém a nenhuma disciplina. Muito pelo contrário. Essa excelência técnica é para possibilitar uma espacialidade que torne possível a imprevisibilidade da vida, da liberdade de cada um.

A relação entre arquitetura e Estado tem funcionado?

Em geral, muito pouco.

E com a iniciativa privada?

Não gosto de dividir as coisas entre Estado e iniciativa privada. Esses cortes são esquizofrênicos, porque é impossível abolir o privado, e improvável que o mundo ande apenas pelas iniciativas privadas. Essa iniciativa surge por sedução de projetos que não são dessa esfera — na telefonia, na comunicação etc. Ninguém “privado” inventou o transporte; a ideia é pública. Essa divisão, do modo como é explorada hoje, para cristalizar ideologicamente, é tola.

Da época em que você começou a dar aula até hoje, como a ideia do que seria bom para a cidade evoluiu na universidade?

Houve até uma sadia atualização, e no mundo inteiro. Essa questão é muito interessante para nós, da América. Na Europa, de modo geral, passou-se por um processo de reconsideração urgente da questão porque eles estavam reconstruindo cidades bombardeadas. E nós, que não tivemos guerra, tivemos e temos que construir cidades na natureza, que não existiam e não existem. É um contraponto que nos dá uma importância muito grande no plano do conhecimento universal. O prestígio que a arquitetura brasileira tem no mundo talvez venha muito daí, da manifestação que expusemos da consciência de fundar cidades na natureza. E não é só Brasília: há Maringá, Londrina, Belo Horizonte. Elas não são maravilhas por si só, mas, como tentativas, são. Porque são experimentações, e são melhores que as outras, mesmo que já estejam ficando degeneradas. A visão de que tínhamos e teremos como fundar cidades, da maneira como queremos, fora das construções coloniais, é belíssima. E também a de São Paulo como algo que tem de ser feito e refeito sobre si mesma é interessante.

E como deveria ser a cidade do futuro?

É impossível saber, mas, como exercício, eu diria que o parâmetro seria a tranquilidade das pessoas. A aflição liquida com a liberdade e a capacidade criativa do homem. Por que se põe a população pobre na periferia? Para que ela não tenha tempo para nada. O tempo livre ela gasta em transporte, no cuidado com a saúde dos filhos etc. A cidade feliz apaziguaria esses problemas, que são frutos de uma mecânica. O transporte público, por exemplo, é fundamental. O automóvel teria de ser abolido como transporte principal. Você pode imaginar um pronto-socorro sobre rodas, mas não o transporte de cada um. Ele é uma estupidez. E o homem que assiste à própria estupidez é um homem que tende rapidamente à degenerescência. O transporte público será um prazer para o homem, que poderá ler o seu jornal, que poderá até perder o próximo trem, porque haverá vários em intervalos pequenos, poderá tomar uma cerveja com um amigo. Isso faz um novo cidadão. Um homem senhor de seus tempos de vida, de seus minutos. Não será mais questão de perguntar “o que você fez nos últimos dez anos”, e sim “o que você fez nos últimos dez minutos”.

Fim de semana

            Uma visita guiada – Alice Neel no Met (aqui)

            Um romance – O som do Rugido da Onça, Micheliny Verunschk (Companhia das Letras, 168 págs.).

            Uma releitura – Meu Tio o Iauretê, Guimarães Rosa.

            Um artigo – Marcos Nogueira sobre os cozinheiros dos ditadores, na Piauí.

            Um podcast – Michel Gherman sobre antissemitismo, no Afinidades Eletivas.

Fim de semana

Um texto – Arthur Nestrovski sobre a OSESP na Pandemia (aqui).

Uma reportagem – O Humboldt Forum e a arte colonial (aqui).

Um artigo que se desmente – Por que aprender alemão não é tão difícil (aqui)

Um filme médio – Suprema, Mimi Leder.

Uma reprise – Fausto, Alexandr Sokurov.

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