Michel Laub

Mês: agosto, 2009

Resumo de uma vida

William Faulkner, no apêndice de O som e a fúria, descrevendo a biografia do personagem citado no post anterior:

“Quando por fim até mesmo a mãe se deu conta de que ele era o que era e insistiu aos prantos que era preciso mudar seu nome, foi renomeado Benjamin pelo irmão Quentin (Benjamin, o último a nascer, vendido no Egito). O qual amava três coisas: o pasto que foi vendido para custear o casamento de Candace e os estudos de Quentin em Harvard, a irmã Candace, a luz do fogo. O qual não perdeu nenhum dos três porque na verdade não conseguia se lembrar da irmã e sim apenas de sua perda, e a luz do fogo era a mesma forma luminosa do adormecer, e o pasto era até melhor depois de vendido do que antes porque agora ele e T.P. podiam não apenas seguir atemporalmente ao longo da cerca o movimentos que para ele não importava que fossem de sereshumanos com tacosdegolfe, mas também T.P. agora ia com ele a tufos de grama ou mato onde de repente apareciam na mão de T.P. pequenas esferas brancas que enfrentavam e até mesmo derrotavam o que ele nem mesmo sabia ser a gravidade e todas as leis imutáveis quando a mão a lançava contra o chão de tábuas corridas ou a parede do defumadouro ou na calçada de concreto. Castrado em 1913. Internado no Asilo Estadual, Jackson, em 1933. Também nesta ocasião não perdeu nada porque, tal como no caso da irmã, não se lembrava do pasto e sim da perda do pasto, e a luz do fogo continuava sendo a mesma forma luminosa do sono.”

Dois trechos sobre nomes

1) Um dos narradores de William Faulkner em O som e a fúria (Cosac Naify, 331 págs.), sobre um personagem que foi rebatizado depois de descoberta sua deficiência mental:

“Ele sente o cheiro das coisa que a gente diz pra ele quando ele quer. Não precisa escutar nem falar não. Será que ele sente o cheiro do nome novo que deram para ele? O cheiro do azar?”

2) João Gilberto Noll em A fúria do corpo (Record, 272 págs):

“O meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita (…). Não me pergunte pois idade, estado civil, local de nascimento, filiação, pegadas do passado, nada, passado não, nome também: não. Sexo, o meu sexo sim: o meu sexo está livre de qualquer ofensa, e é com ele-só-ele que abrirei caminho entre eu e tu, aqui.”

Fim de semana

Uma exposição – Otto Stupakoff no IMS/SP.

Um discoThree fact fader, Engineers.

Um livro pior do que andam falandoIndignação, de Philip Roth (Companhia das Letras, 176 págs.).

Um filme muito pior do que andam falando, se é que andamA onda, de Dennis Gansel.

Um bar e restaurante – Squat, na Itu.

Egopress

1) Aqui, meu perfil no facebook, com fotos, posts, mágicas e distribuição de brindes.

2) Dia 2/9, às 19h, estarei no stand da Fnac da Bienal do Livro de Curitiba para uma conversa + sessão de autógrafos.

Dancinha do dia

‘O imitador de vozes’, de Thomas Bernhard

No post de ontem falei de uma característica da prosa de Thomas Bernhard, que ignora um preceito caro à literatura americana de meados do Século 20 – show, don’t tell – para extrair um humor muito particular da ênfase e da reiteração. Curiosamente acaba de sair no Brasil uma coletânea sua, O imitador de vozes (Companhia das Letras, 159 págs.), que faz o contrário: em algo como cem histórias curtas, poucas com mais de uma página, ele quase sempre prefere manter um registro mais descritivo que analítico, deixando que os fatos narrados – crimes, suicídios, desastres, episódios de violência e loucura muitas vezes tirados de notícias de jornal – falem por si.

Apesar disso, o impacto no leitor acaba sendo semelhante ao de livros como Árvores abatidas, O náufrago e Velhos mestres: não a reação a uma passagem isolada, mas a submersão pelo acúmulo de recursos como os itálicos – que destilam ironia em tom alto e rabugento –, as interposições entre vírgulas, as palavras repetidas e o encadeamento narrativo em espiral. Imaginem a história a seguir multiplicada por cem:

“Na Alsácia, descobrimos que um homem de Seledstadt foi levado para o asilo de velhos de Colmar porque sua família afirmava ter ele oitenta anos, segundo se depreendia, aliás, de seus documentos, ao passo que o próprio homem afirmava sem parar ter apenas sessenta, o que a família não suportava mais ouvir e lhe dera a idéia de tentar interná-lo no asilo de Colmar. De fato, diz-se que o homem afirmava aquilo dia e noite e que também em outros aspectos teria transformado a vida da família num horror. Além disso, consta que deixara de se lavar fazia um ano, só caminhava descalço e, de vez em quando, aparecia completamente nu no meio da rua, motivos suficientes, portanto, para interna-lo num manicômio, o que, contudo, a família não queria fazer. Assim foi que tiveram a idéia de manda-lo para Colmar. A muito custo conseguiram leva-lo para lá, mas, uma vez em Colmar, o homem fugiu das irmãs de caridade que o conduziam ao asilo e só foi reencontrado horas mais tarde. As irmãs teriam, então, conseguido convencê-lo a entrar no asilo sem oferecer resistência. No meio da noite, o homem, cujo nome seria Shluemberger, pôs fogo no asilo de velhos de Colmar, matando a todos os quatrocentos e setenta e oito internos. Inclusive a si próprio.”

Sebald e Thomas Bernhard

Um dos melhores romances que saíram no Brasil ano passado foi Austerlitz, de W.G.Sebald (Companha das Letras, 287 págs.). Pouco a acrescentar ao que a crítica disse na época sobre a construção do livro, sua mescla de ficção e ensaio e o efeito ao mesmo tempo irônico e melancólico das fotografias intercaladas à história – ainda mais agudo do que no agora relançado Os emigrantes (Companhia das Letras, 240 págs.).

Apenas um adendo sobre comparação que tem sido feita entre Sebald e Thomas Bernhard: é fato que 1) ambos usam narradores meio ausentes da cena, que quase se limitam a reproduzir o pensamento de terceiros, o que gera aquele efeito bizarro e cômico da sobreposição do “disse fulano” com o “disse beltrano”; 2) há em ambos a ambição de nomear exaustivamente as coisas num tempo em que a história européia parecia ter esgotado sua capacidade de produzir catástrofes, o que os coloca na mesma linhagem temática, vamos dizer assim.

Mas também é fato que existe uma diferença de tom entre essas vozes. A de Sebald é para fora, generosa, nunca deixando de oferecer ao leitor o deleite de suas imagens, metáforas e  multiplicidade vocabular, trazendo uma espécie de beleza para passagens que no fundo estão tratando de algo terrível:

“Onde antes havia sido chão firme, onde passavam estradas, onde pessoas haviam morado, raposas haviam corrido pelo campo e pássaros de toda espécie haviam voado de arbusto em arbusto, agora não havia nada mais que espaço vazio, e no fundo dele pedras e cascalho e água estagnada, intocada até mesmo pelo movimento do ar. As silhuetas das centrais elétricas nas quais ardia o linhito flutuavam como navios na escuridão, prédios cor de cal com a forma de paralelepípedos, torres de resfriamento com coroas dentadas, chaminés vertiginosas, sobre as quais plumas de fumaça imóveis pairavam brancas contra as cores malsãs que estriavam o céu ocidental. Apenas no pálido lado noturno do firmamento apareceram algumas estrelas, luzes fuliginosas e fumarentas que se extinguiam uma após a outra, deixando atrás de si escaras nas órbitas que sempre trilharam. Ao sul, em um vasto semicírculo, erguiam-se os cones dos vulcões extintos da boêmia, que no meu pesadelo eu desejava que entrassem em erupção e cobrissem tudo ao redor com poeira preta.”

Já Bernhard, ao contrário, mais diz do que mostra, mais declara do que sugere. Aparentemente mais pobre, essa concentração de repertório é que acaba sendo seu grande triunfo, porque é na repetição exaustiva que sua prosa acha um humor azedo e exuberante, talvez único na literatura da segunda metade do Século 20 (trecho de O náufrago):

“Vai para a Suíça, onde tudo é podre; a Suíça é o país mais sem caráter da Europa, disse: lá, sempre tive a impressão de estar num bordel, disse. Um puteiro só, seja no campo ou nas cidades, disse. Sankt Moritz, Saas Fee, Gstaad – todas casas de tolerância, e isso para não falar em Zurique, Basiléia, bordéis internacionais, disse ele várias vezes, bordéis internacionais.”

Fim de semana

Um livroO imitador de vozes, de Thomas Bernhard (Companhia das Letras, 159 págs.).

Um discoHumbug, Arctic Monkeys.

Um filme que anda apanhando injustamenteÀ deriva, de Heitor Dhalia.

Uma peça de teatroAqui quase longe, no Teatro coletivo (Consolação).

Um lugar para jogar Zarza e Vortex – Rabo de peixe, na Wizard.

Sacha Baron Cohen e o discurso diluído

Até a estréia de Brüno, dava para dizer que havia pelo menos uma coisa em comum entre Sacha Baron Cohen e Michael Moore: o humor baseado no constrangimento. O espectador ria e ao mesmo tempo sentia vergonha pela estupidez e o absurdo do que estava sendo mostrado – a situação, os personagens, os diálogos. Tanto Cohen (de forma meio fictícia) quanto Moore (de forma supostamente real) trabalhavam com o formato do documentário, e o alvo de ambos era algo que vagamente se pode chamar de espírito americano.

Havia uma diferença básica também: enquanto Moore levava a sério sua cruzada política contra alvos relativamente fáceis – Bush, o Iraque, a indústria de armas, as grandes corporações de saúde –, Coen trabalhava com um repertório bem mais rico de ambigüidades, tratando de espinafrar tanto a cultura conservadora quanto o politicamente correto, tanto a intolerância quando o discurso da diversidade. Talvez por isso, mas não só por isso, Borat é um filme mais honesto que Bowling for Columbine ou Farenheit 11/9.

Com Brüno, porém, Cohen amaneirou seu poder de fogo. Primeiro porque não constrange mais ninguém: as figuras reais (ou atores que interpretam figuras reais) em geral dizem e fazem a coisa certa, e a vergonha, que seria exclusiva do protagonista, acaba diluída pelo óbvio exagero das cenas, um registro muito mais próximo da comédia física do que da ironia e do escracho. Depois porque o principal alvo é igualmente fácil: nem a indústria da moda e das celebridades é capaz de defender o que se identifica hoje como o “vazio” e a “futilidade” desse meio.

Está longe de ser um mau filme, e algumas passagens são tão hilariantes quanto as de Borat, mas há algo de sintomático quando um comediante subversivo encerra sua história fazendo uma piada conjunta – que quer soar irônica, mas é só deferência – com Bono e Sting.

Mulheres do cinema com quem não se deve casar

(versão reduzida de texto publicado na revista VIP):

Sharon Stone em Cassino – não porque ela seja uma ex-prostituta junkie apaixonada pelo antigo gigolô, ou agrida você, ou bata seu carro de propósito, ou amarre sua filha na cama enquanto rouba as jóias de casa, mas porque você já tem problemas demais – Joe Pesci, a licença de funcionamento que não sai, o funcionário ladrão protegido do delegado, o cozinheiro que põe quantidades diferentes de recheio em cada muffin para se preocupar.

Heather Graham em Boogie nights – porque não pega bem para uma esposa ficar andando de patins por aí.

Uma Thurman em Kill Bill – porque ela já está casando com outro, e se você tentar impedir, mesmo enterrando-a viva e fazendo-a enfrentar adagas, maças, espadas de samurai, serpentes e oitenta e oito ninjas num restaurante de Tóquio, é bem possível que a coisa não acabe bem.

Naomi Watts em King Kong – porque seus dotes de homem sensível, que trabalha com cinema e gosta de viagens a lugares exóticos, não vão ajudar muito diante desse tipo de concorrência.

Sonia Braga em A dama do lotação – porque não há bilhete único que dê conta.

Lucélia Santos em Bonitinha mas ordinária – porque, embora não seja uma questão de transporte público – afinal, o Cadelão tem um Corcel e a leva de carona para aquele ferro velho no meio do mato –, até para a sempre bem-vinda integração racial neste Brasil mestiço há de haver um limite.

Bolaño, Bellatin e o horror

Há uma passagem marcante no conto O olho Silva, de Roberto Bolaño, que está no livro Putas Assassinas (Companhia das Letras, 224 págs.): a história de meninos indianos que, com expressa permissão dos pais, são vistos como a incorporação de uma divindade durante um ritual proibido que se estende por cerca de um mês. Ao final das celebrações, eles são castrados, renegados e vendidos para um bordel.

Num mundo tão repleto de narrativas, boa parte feita justamente para chocar o público, não é fácil manejar linguagem e fabulação para sugerir tamanho grau de horror. Guardadas as proporções, é algo que encontramos num Dostoiévski ou num Conrad. Ou em outro livro latino, Flores, de Mario Bellatin (Cosac Naify, 80 págs.), que chega a esse efeito de forma engenhosa: em pelo menos duas das histórias contadas – a de um médico que avalia pedidos de indenização de antigas vítimas de Talidomida e a de um enfermeiro que contamina o próprio filho com o vírus HIV –, o autor aposta em cortes abruptos, surgidos de uma frase para outra, em meio a um parágrafo e depois de uma informação inusitada, um respiro durante o qual o leitor cria uma expectativa em relação ao que já desconfia que enfrentará algumas páginas adiante.

É uma espécie peculiar de suspense, já que o desfecho é anunciado desde sempre e não há concessões a recursos como crescendos dramáticos, clímax e catarse. Mas quando o horror finalmente surge, na naturalidade monocórdia de uma prosa aparentemente distante (“o próprio iceberg”, diz Joca Terron no ótimo posfácio), somos surpreendidos por uma nota de emoção que parecia perdida em meio ao rigor cerebral do livro.

Fim de semana

Um livroFlores, de Mario Bellatin (Cosac Naify, 80 págs.).

Um discoThe Eternal, Sonic Youth.

Um filme okInimigos públicos, de Michael Mann.

Uma exposição Serge Gainsbourg no Sesc da Paulista.

Um restaurante chinês – Chi fu, na Liberdade.

Dois filmes subestimados com Al Pacino

Carlito’s wayOs melhores lugares-comuns das histórias de “última vez”, aqui recriados pelas falas marrentas de italianos e porto-riquenhos, por Sean Penn em sua fase karatê e pelo sr. Benny Blanco from the bronx. Única produção recente de Brian De Palma em que o show off técnico está minimamente a serviço da trama, cujo espírito é o lamento nostálgico pela brutalização do mundo (a.k.a. falta de ética da nova geração de traficantes).

O articulador –  Abduzido diretamente de Insônia, Pacino vive um homem pálido com roupas pretas que já viu de tudo e está esgotado a ponto de o espectador sentir isso em sua voz, um sussurro que ameaça sumir em meio à própria rouquidão derrotada. Um filme que, para além de suas óbvias qualidades dramáticas, reabilita a frase clássica – e também subestimada – de Raduan Nassar: “Bom mesmo é dormir”.

Música do dia

Coisas boas vistas e lidas nos últimos tempos

Três filmes brasileirosLoki, de Paulo Henrique Fontenelle; Jean Charles, de Henrique Goldman; Apenas o fim, de Matheus Souza.

Quatro lançamentos de autores brasileiros Inverdades, de André Sant’Anna (7 Letras, 68 págs.); Tudo o que fizemos, de Carlos André Moreira (Leitura XXI, 260 págs.) Hotel novo mundo, de Ivana Arruda Leite (34, 122 págs.); Outra vida, de Rodrigo Lacerda (Alfaguara, 184 págs.)

Um programa de TV – Roberto Carlos, Caetano Veloso e Nelson Motta na Globo News.

Seis shows – Kiko Dinucci e convidados no + Soma; Siba no SESC Pompéia; Monique Maion no Syndicat; Saco de Ratos na The Wall; Fellini no Studio SP; Júpiter Maçã no Studio SP.