‘Verão’, de J.M.Coetzee

por Michel Laub

Deve haver algum tipo de vaidade por trás de um romance que se diz autobiográfico, cujo protagonista tem o mesmo nome, profissão e trajetória do autor, e que se empenha em mostrar este personagem como figura desprovida de qualquer encanto – intelectual, sexual, afetivo. Mas um dos méritos de J.M.Coetzee em Verão (Companhia das Letras, 275 págs.) é não deixar que isso apareça da forma como esperamos – o truque de se autodepreciar para, por meio das entrelinhas do texto, angariar algum tipo de simpatia. Ao contrário: a impressão, reforçada por um desfecho de grande brutalidade psicológica, é que o livro se propõe mesmo a ser uma imolação, uma confissão pública dos erros e do desconforto social que marcaram a história de Coetzee antes de ele se tornar um dos maiores escritores vivos, senão o maior.

A dimensão mais interessante da narrativa, porém, é literária: o fato de que a personalidade deste homem desleixado e desanimado, e contraditoriamente seguro e decidido, com um tipo de teimosia moral que acaba se impondo – primeiro no campo das idéias, depois no dos sentimentos –, é a exata ilustração do estilo de Coetzee. Aquele que, sem se importar em parecer monocórdio, frio e linear à primeira vista, sem perder energia tentando encantar de imediato com imagens, melodia e vocabulário, permite-o se concentrar no imenso arsenal reflexivo que cerca suas preocupações éticas, políticas, históricas e emocionais. O resultado de livros como Desonra, A vida dos animais, Infância, Juventude, Homem lento e o próprio Verão é fruto direto deste ritmo, que convence aos poucos e com segurança, deixando ao final uma sensação quase totalizante de verdade, experiência e sabedoria.

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