Areia, arame enferrujado e insetos em torno do arroz

por Michel Laub

J.G. Ballard e a comida de um campo de prisioneiros ingleses nos arredores de Shangai, durante a Segunda Guerra, na autobiografia Milagres da vida (Companhia das Letras, 248 págs.):

“Durante todos os nossos anos de internação, nenhuma só vez vimos leite, manteiga, margarina, ovos ou açúcar. Nossas refeições consistiam de congee (arroz fervido até virar papa), uma sopa de legumes que continha um ou dois cubinhos minúsculos de carne de cavalo com muita cartilagem, um pão preto extremamente duro, que devia ser feito com cereais varridos do chão do depósito, cheio de areia grossa e pedacinhos de arame enferrujado, e batata-doce cinza, uma ração para o gado que eu adorava. Mais tarde passamos a comer trigo quebrado, outra ração para o gado de que passei a gostar muito (…). Nos últimos dezoito meses da guerra nossas rações diminuíram. Um dia, quando nos sentamos à mesa de armar no nosso quarto, empurrando para a beirada do prato o que minha mãe chamava de “gorgulhos”, meu pai decidiu que a partir daquele dia deveríamos comê-los, pois precisávamos de proteína. Eram carunchos brancos, ou larvas, palavra que minha mãe preferia evitar. Meus pais deviam ficar muito irritados quando eu contava os insetos antes de engolir, com satisfação, uma colherada inteira – em geral minha contagem ia até cem, formando um perímetro duplo em volta do prato de arroz.”

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