Cinema brasileiro: competência e proximidade

por Michel Laub

Há uma cena em Fale com ela, de Pedro Almodóvar, em que um personagem ouve Caetano Veloso cantando Cucurrucucu Paloma e diz: “Este Caetano me ha puesto los pelos de punta”. Vi o filme há muitos anos, lembro que a sala inteira riu do comentário, assim como imagino que qualquer espectador brasileiro faria. Minha dúvida é se a graça se deve ao trabalho do ator, como se ele conscientemente pusesse um acento irônico nas palavras, num ponto entre o melodrama e o escracho, ou se é por causa da língua espanhola mesmo – se ela não traz em si um sinal duplo, pelo menos aos ouvidos de quem espera e está acostumado a associá-la a esse registro, ou a esse clichê.

Um amigo costuma dizer que, mesmo com a melhora óbvia dos últimos anos, ainda falta ao cinema brasileiro competência para o básico, que é fazer o espectador acreditar nas cenas. Um dos exemplos citados por ele é o delegado de Meu nome não é Johnny, filme de resto ok, que seria um típico “delegado de cinema brasileiro”. Entendo o que ele quer dizer – em relação ao vocabulário do personagem, sua roupa, sua barba –, mas fico em dúvida se esse tipo de reserva não tem mais a ver com nossa proximidade do objeto que com critérios supostamente universais de análise.

Quer dizer, o que no cinema estrangeiro em geral parece verossímil não seria, na verdade, fruto da nossa menor familiaridade com os elementos em cena – a língua, os cenários, as referências, mesmo os valores? Afinal, a maioria de nós só sabe o que é um “delegado americano” por meio das imagens de delegados do cinema americano, então é muito mais fácil acreditar em algo que simplesmente siga essa galeria prévia de tipos – forjada mais pela indústria, com seus próprios modelos de diálogo, ritmo e mise-en-scène, que pela habilidade do diretor em questão.

Isso tudo é apenas uma das obviedades a levar em conta quando falamos da tese, muito em voga por causa do Oscar para O segredo dos seus olhos, de que não há um único filme brasileiro no nível dos argentinos. Ou dos orientais. Ou seja lá de que país. A outra é quantitativa mesmo: o cinema de fora que chega aqui é uma seleção do melhor entre um número bem maior – e bem menos relevante – de produções. Quando falamos de “cinema brasileiro” num tempo determinado – uma década, digamos –, o ideal seria pensarmos nos dez ou quinze filmes que, com qualidades e defeitos diversos, marcaram alguma presença no período. Essa é, de fato, a produção de uma cinematografia. Talentos isolados e gosto à parte, o vexame nacional é tão grande assim na comparação?