Entulho, fuligem e nuvens na escuridão

por Michel Laub

Ainda Ballard em Milagres da vida, sobre a volta à Inglaterra depois da guerra:

“A cidade de Southampton, que me recebeu quando desci pela prancha de desembarque com minha mala na mão, sofrera pesados bombardeios, e consistia sobretudo de montões de entulho, com poucos sinais de habitação humana. Grandes partes de Londres e da região de Midlands não passavam de vastos terrenos baldios arrasados pelas bombas aéreas, e os poucos edifícios que continuavam em pé estavam arruinados e desmantelados (…). Caía uma garoa incessante, o céu era cinzento como pedra. Uma fuligem negra pairava sobre as ruas, vinda de centenas de milhares de chaminés. Tudo era sujo e encardido, até o interior dos ônibus e dos vagões de trem.

Vendo os ingleses ao meu redor, era impossível acreditar que essas mesmas criaturas tinham ganhado a guerra (…). Estavam exaustos, e pouco esperavam do futuro. Tudo era racionado – a comida, a roupa, a gasolina – ou simplesmente impossível de se obter. As pessoas andavam nas ruas como um rebanho, formando filas para tudo. Os talões de racionamento e os cupons para roupas tinham importância suprema, e todos contavam e recontavam e se preocupavam com eles ininterruptamente, apesar de não haver quase nada nas lojas para se comprar. Sair em busca de algumas lâmpadas era uma caçada que podia levar um dia inteiro. Tudo era extremamente mal projetado – a casa dos meus avós, uma mansão de três andares, tinha apenas um ou dois pequenos aquecedores elétricos e uma lareira a carvão. A maior parte da casa era gelada, e dormíamos embaixo de enormes edredons, como expedicionários perdidos no Ártico enfiados no seu equipamento de sobrevivência, com o ar gélido nos deixando o rosto amortecido, e a respiração formando nuvens bem visíveis na escuridão.”

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