Uma definição de romantismo

por Michel Laub

Teixeira Coelho no posfácio de A obra-prima ignorada, de Balzac (Comunique, 141 págs.):

“Dedicação a um ideal pelo qual vale a pena sacrificar o que se tem ou é; decisão de não negociar com o que se opuser a essa busca; desinteresse pela felicidade: o anseio é por outra coisa; indiferença diante dos padrões formatadores da sociedade e dos códigos todos; independência frente ao poder, desprezo pelo senso comum; decisão de lutar incessantemente pelo que importa, capacidade de suportar o martírio; opção pela minoria não pela maioria, idealismo em seu sentido mais comum; uma convicção interna que não cede aos argumentos banais, nem aos mais fortes (…), mesmo diante da acusação mais terrível: a de que essa convicção é loucura; uma das hastes leves do frágil tripé romantismo-revolta-revolução; desejo de romper os limites estreitos da individualidade e do aqui-agora e expandir-se infinitamente e o contrário disso também: esgotar-se no aqui-agora, em si mesmo ou no grupo; a inexprimível delícia de brincar com a própria alma; ou de esquecê-la totalmente; energia vital mas também auto-aniquilamento, suicídio, dandismo, exibicionismo, excentricidade, tédio, a morte na alma, o sursis, visões diabólicas, visões divinas, fidelidade ao detalhe tanto quanto a busca do oceânico indiferenciado; opacidade e obscurecimento como também deslumbramento; esquerda e direita; não aceitação do conhecimento como virtude, a criação de valores no lugar do estudo dos valores, a criação a partir do nada; operar sabendo que não existe o objeto, apenas o sujeito; o marginal, o exilado, o super-homem, a autenticidade existencialista, a certeza de que nada existe no mundo que possa amparar você e que você é responsável por tudo o que é ou possa ser e fazer; a recusa de uma estrutura metafísica para o universo, e o inverso; o mergulho no místico; o vazio como o grande dado, portanto a valoração do aqui-agora; a certeza de que os valores são muitos e incompatíveis; a noção de pluralidade e diversidade; o liberalismo; a recusa das teorias explicativas perfeitas e incontestáveis, recusa do determinismo, da razão da história; a certeza de imprevisibilidade do comportamento humano, tudo isso e muito do que contraria tudo isso cabe na forma do romantismo, ao lado e por cima dos valores românticos banalmente descritos nos manuais de arte e literatura. Na opção por um resumo da essência do romantismo avançada por Isaiah Berlin, (…) é a vontade de fazer e a afirmação de que não existe uma estrutura imutável das coisas, e que portanto é possível com elas fazer o que se decidir, quase; no mínimo, a certeza de que vale a pena tentar. A vontade e o homem como atividade (Lenz: é preciso agir, agir sempre), isso é o romantismo (…). Numa outra versão (…), é o reconhecimento e a convocação da vontade (as teorias formatadoras, unitaristas e integradoras convergentes, quase todas fundamentalistas, chamam a isso voluntarismo). Desdobrando desempacotando cultivando a vontade (que nos termos de hoje se poderia traduzir por exercer a escolha), romantismo é o homem como atividade continuamente se criando e recriando e não tão preocupado assim com a identidade, com sua identidade, ao contrário do que aparece descrito nas versões rudimentares do romantismo ou como aparece nos romantismos rudimentares e nas versões rudimentares das interpretações do romantismo. Homem não preocupado com isso porque sabe que a única coisa que existe e a única coisa que conta é o movimento. Essa é a sua autenticidade – que custa alcançar, custa enormemente a alcançar, num esforço diante do qual habitualmente se costuma considerar que é melhor entrar num compromisso: acertar um compromisso com a própria vontade, com a própria vida, com o costume; e ceder. O romantismo como atitude não simbólica, quer dizer não normativa, não generalizante e não abstrata; e atitude tampouco baseada no pragmatismo embora atitude que possa ter o pragmatismo como fim; o romantismo, antes, como atitude abdutiva diante da vida e do mundo, uma atitude tipo pode ser, atitude icônica. Atitude mágica, no limite, caso se prefira que a palavra seja pronunciada – porque essa é a atitude da arte.”

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