Eu, também, não gosto dela

por Michel Laub

Ben Lerner em Ódio Pela Poesia, no n.25 da Serrote, tradução de Leonardo Fróes:

“Na aula de inglês do nono ano, quando a professora x nos mandou decorar e recitar um poema, fui pedir à bibliotecária da Topeka High Scool que me indicasse o poema mais curto que ela conhecia, e ela então sugeriu ‘Poesia’ [Poetry], de Marianne Moore, que na versão de 1967 diz apenas isto: Eu, também, não gosto dela./ Lendo-a, entretanto, com um perfeito desprezo por ela,/ descobrimos nela, no final de tudo, um lugar para o genuíno. [I, too, dislike it./ Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in/ it, after all, a place for the genuine.].

Lembro de achar que meus colegas eram uns otários por terem decorado sobretudo o ‘Soneto 18’ de Shakespeare, enquanto eu tive de recitar apenas 24 palavras. Não importa que um esquema fixo de rimas e o pentâmetro iâmbico tornem os 14 versos de Shakespeare mais fáceis de decorar que os três de Moore, cada um dos quais sendo interrompido por um advérbio conjuntivo – um paralelismo desgracioso que está basicamente a serviço da forma. Isso, somado aos quatro empregos de it, faz Moore soar como um padre que admite com inveja que o sexo tem sua função, enquanto tenta evitar usar a palavra, um efeito ampliado pelo enjambement deliberadamente canhestro do segundo no terceiro verbo (in/it). Na verdade, ‘Poesia’ é um poema difícil para guardar de memória, como demonstrei por meu fracasso em dizê-lo certo, a cada uma das três chances que me foram dadas pela professora x, de olhos no texto a me seguir, com meus colegas caindo na risada (…).

‘Poesia’: que tipo de arte assume a aversão de sua audiência e que tipo de artista se alinha a essa aversão, até mesmo estimulando-a? (…) Quase todos os anos sai um ensaio num periódico mainstream denunciando a poesia ou proclamando a sua morte, geralmente para culpar os poetas vivos pela relativa marginalização da arte, e então as defesas se iluminam na blogosfera antes de a cultura, se pudermos dizer que é uma cultura, focar sua atenção, se pudermos dizer que isso é atenção, de volta para o futuro. Mas por que não perguntamos: que tipo de arte é definida – tem sido definida há milênios – por um tal ritmo de denúncia e defesa? Muito mais gente concorda que odeia poesia do que é capaz de concordar sobre o que é poesia. Eu, também, não gosto dela, mas em grande parte organizei minha vida ao seu redor (…), e não sinto isso como uma contradição, porque a poesia e o ódio pela poesia são para mim – e talvez para você – inextricáveis (…).

Grandes poetas se confrontam com os limites dos poemas reais, tacitamente vencem ou ao menos detêm essa realidade, parando às vezes de escrever e se tornando célebres por seu silêncio; poetas verdadeiramente horríveis proporcionam, sem o saber, um lampejo de possibilidade virtual pelo cúmulo de seu próprio fracasso; poetas vanguardistas odeiam poemas por permanecerem poemas em vez de se transformarem em bombas; e os saudosistas odeiam poemas por falharem em fazer aquilo que errônea e vagamente eles alegam que outrora a poesia fez. Há variedades de demandas que se interpenetram e estão subordinadas à palavra “poesia” – para vencer o tempo, para belamente acalmá-lo; para expressar uma individualidade irredutível de um modo que possa ser socialmente reconhecido ou, à la Whitman, para alcançar universalidade sendo irredutivelmente social, menos uma pessoa do que uma tecnologia nacional; para derrotar a língua e o valor da sociedade existente; para propor uma escala de valores que esteja além do dinheiro. Mas uma coisa que todas essas demandas partilham é que nunca se pode satisfazê-las com poemas. Odiar poemas reais é, portanto, não raro um modo irônico, e às vezes inconsciente, de expressar a persistência do ideal utópico de Poesia, e as lamúrias a respeito disso são também defesas.”

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