Sobre decoro e loucura

por Michel Laub

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”

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