2021, 2022

por Michel Laub

Louise Glück em Parábola da Fera (Tradução de Pedro Gonzaga): “O gato anda em círculos na cozinha/ com o passarinho morto,/ sua nova possessão./ Alguém deveria discutir/ ética com o gato enquanto ele/ perscruta o débil passarinho:/ nesta casa/ nós não exercemos/ a força deste jeito./ Diga isso ao animal,/ seus dentes já/ fundos na carne de outro animal.”

Ingeborg Bachmann em Um lugar de Incidências (tradução de Claudia Cavalcanti): “A loucura também pode vir de fora para atingir as pessoas, ou seja, muito antes caminhou de dentro das pessoas para fora, para fazer o caminho de volta em situações para nós corriqueiras, nos legados deste tempo. Pois não esqueço que estou no país de vocês, com suas incidências que (…) comunicam uma visão e um ouvido submetido (…) ao pesadelo e sua consequência.”

Leonardo Fróes em Tambores da Madrugada: “Que teme o coração na hora incerta/ em que o corpo desperta, e é madrugada? (…)// Nada ele sabe, o tolo coração disparado,/ senão que às portas da manhã/ seu horror terminou pausadamente./ Passado o aperto, a brisa, por contraste,/ o acaricia, restaura, consola e fortalece/ para enfrentar novos testes de agonia,/ iguais desabamentos de estrutura/ que outras noites lhe tragam, qualquer dia.”

Charles Simic em Poema (Tradução de Sylvio Fraga Neto): “Toda manhã esqueço como é./ Vejo a fumaça avançar/ a passos largos sobre a cidade./ Não pertenço a ninguém./ / Depois lembro dos meus sapatos,/ Que preciso calçá-los,/ Que ao agachar para amarrá-los/ Irei olhar para dentro da terra.”

Excerto de coluna publicada no Valor Econômico em 17-12-2021, com trechos inspiradores (ou não) para a virada do ano. Íntegra aqui.