Sade, algoritmos e publicidade

por Michel Laub

Trechos da palestra de um publicitário em Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 202 págs.), citando o livro Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade:

“O que gostaria que vocês enxergassem nesse texto é a maneira como ele discrimina os diversos elementos de suas fantasias sexuais, cada ínfima unidade de tudo aquilo que excita sua imaginação, para depois organizar, combinar e recombinar tudo à exaustão. Ele concebeu nada menos que seiscentas dessas cenas. Teve tempo de desenvolver apenas cento e cinquenta, mas imaginou seiscentas variações de intensidade crescente, trabalhando com um conjunto de elementos recorrentes. Não se trata de uma estratégia narrativa comum. Nem tentem encontrar aqui alguma jornada do herói, arquétipos, realismo psicológico. Sade escreveu uma narrativa algorítmica (…). O que potencializa as ideias de Sade é um procedimento semelhante a uma análise combinatória. Sendo mais preciso, o que a forma do romance Saló evoca em nossa época é o processamento de informação realizado pelo computador. Todos estamos, hoje, familiarizados com essa lógica, a ponto de não repararmos nela. A pornografia que formata o imaginário sexual da minha geração e de todas que vieram depois é produzida e distribuída com base em gigantescos bancos de dados de hábitos de navegação e consumo online. Quando consumimos pornografia online, como todos aqui fazem de uma maneira ou outra, observamos e alimentamos essa lógica na produção do erotismo, mas ela se estende a todos os campos da experiência humana. É o que fazemos com o nosso próprio material genético, com a sucessão de dietas da moda, com o nosso comportamento enquanto espectadores e leitores, com o sono, com nossas rotinas de trabalho, com nossos ideais de felicidade, com a pesquisa científica, com aplicativos de dating ou que contam os passos e batimentos cardíacos do usuário. Estamos falando da quantificação total da existência. Estamos falando de converter para o formato digital todas as manifestações culturais imagináveis. O tratamento que Sade deu a seus desejos, confinado entre as paredes de pedra de uma cela no interior de um castelo, é o tratamento que damos aos nossos desejos no mundo livre”.

“Nossos clientes não são exatamente libertinos confinados numa torre. São hiper-consumidores condenados à liberdade no capitalismo cada vez mais acelerado. Mas a tecnologia digital os condiciona a converter seus desejos em informação recombinável, resultando nessa medição de tudo, nessa busca do esgotamento das possibilidades. Nenhuma experiência humana, nem mesmo a arte, escapa das mandíbulas desse processo. Essa profanação de tudo que antes era indistinto, inatingível e elevado é um procedimento sádico, não no sentido da crueldade que o senso comum atribui ao termo, mas no sentido do sonhar com o esgotamento metódico do desejo por meio de estratégias de processamento de informação (…). Sai a intensidade, entra a quantidade. Sai o sublime, entram os padrões. Como Sade nos ensina, isso não elimina o êxtase ou mesmo a beleza, mas certamente os transfigura em algo distinto. A beleza que surge é a beleza dos padrões, das formas de arquivamento, dos algoritmos, das montagens e dos contrastes extraídos do excesso de informação. Nesse novo mundo não existe a menor possibilidade de transcendência e transgressão. Não existe nenhuma verdade adormecida sob a superfície. As flores que podem nascer em tanto excesso morrem de um dia pro outro.”