Silêncio e crime

por Michel Laub

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”