Sam Mendes e os alvos fáceis

por Michel Laub

 

Em 1999, Sam Mendes lançou Beleza americana, uma crítica ao modo de vida dos subúrbios dos Estados Unidos. Na época fiquei em dúvida se aqueles clichês todos – a social climber consumista, a chefe de torcida burra, o militar enrustido – eram ironia ou só clichês mesmo. Acabei me conformando com a primeira alternativa, provavelmente influenciado por vários dos outros atrativos do filme: o humor, o personagem de Kevin Spacey, a narrativa circular, a banheira com flores e leite.

 

Dez anos depois, o diretor volta ao mesmo tema em Foi apenas um sonho. Novamente não fica claro se a crítica à classe média alta, desta vez ambientada nos anos 1950, tem algo de irônico ou é só o que aparenta – um ataque meio fácil, que virou lugar-comum no cinema tanto quanto a defesa de valores como a família e o trabalho o era há algumas décadas. Desta vez, porém, os atrativos para ajudar o filme não são tantos assim. Há a boa reconstituição de época, os figurinos, os drinks refrescantes. E há Kate Winslet, uma atriz capaz de dar vida e charme sexual a qualquer papel. Mas há muito pouco humor, e até cinematograficamente Mendes deixa a desejar – na marcação das cenas internas, na ênfase das falas, na atmosfera reconhecível das peças de Tennessee Williams ou Eugene O’Neill, com aquela opressão psicologizante no interior da vida conjugal/familiar, o registro da história é um tanto quanto teatral, protocolar.

 

O maior problema, porém, é o ponto de vista mesmo: a impressão é que em nenhum momento o roteiro, baseado num romance que Richard Yates lançou em 1961, trata criticamente a idealização que o casal de protagonistas tem da vida em Paris, ou do meio artístico, ou da liberdade que estaria impedida de florescer pelo conformismo conservador. Basta comparar a forma como ambos são mostrados e a forma como aparecem os demais personagens, todos idiotas provincianos ou, pior, candidatos a morrer ou ir parar no hospício por enxergar o suposto absurdo da vida com conforto material. É verdade que essa ingenuidade romântica era comum na época em que se passa a história. Mas também é verdade que, meio século depois, e com dezenas de filmes já tendo batido na mesma tecla – incluindo o próprio Beleza americana –, talvez esteja na hora de Sam Mendes escolher outros alvos.