Joyce, Kafka, Faulkner e o Brasil

por Michel Laub

 

Foi Carlos Heitor Cony que disse, se não estou enganado, que o romance do Século 20 podia ser resumido na obra de três autores: o Joyce de Ulisses, que contou uma história linear por meio de uma linguagem revolucionária; o Kafka de A Metamorfose, que contou uma história revolucionária por meio de uma linguagem linear; e o Faulkner de O Som e a Fúria, que fez uma espécie de junção desses opostos, contando uma história revolucionária por meio de uma linguagem também revolucionária. 

 

É uma boutade, claro, até porque O som e a fúria está cheio de ressonâncias bíblicas, e o tom burocrático de Kafka é uma inovação formal universalmente reconhecida. Mas exercícios do gênero são sempre interessantes, e fiquei pensando se poderíamos montar um esquema parecido na literatura brasileira. De início, talvez desse para contrapor Machado de Assis, que usou uma linguagem clássica para explorar de forma inédita a psicologia de seus personagens, ou seja, optou por uma forma tradicional como meio de obter um conteúdo moderno, e Guimarães Rosa, que fez o contrário – contou uma aventura (ou história de formação) típica em Grande Sertão: Veredas, só que usando uma linguagem totalmente fora dos padrões de sua época. Quanto à síntese, o nosso Faulkner de apartamento, sem muita convicção pensei em… Clarice Lispector. 

 

Num debate em que essa história foi citada, um escritor amigo lembrou que o contraponto possível a Machado seria Oswald de Andrade, e que Guimarães é que poderia virar a tal síntese, porque seu romance e seus contos remetem a uma tradição um pouco diversa da então presente na literatura brasileira. Seria verdade se a arquitetura de Serafim Ponte Grande, por exemplo, já não estivesse em Memórias Póstumas (e em antecessores estrangeiros). E, acrescento contra minha própria impressão inicial, se uma das maiores contribuições de Machado não fosse justamente de forma: a concisão na prosa que teve influência numa linhagem que vai de Graciliano Ramos a Dalton Trevisan, culminando na maior parte da ficção contemporânea.