Ausência de bons modos

por Michel Laub

 

Ano passado publiquei esta resenha sobre Viagem ao fundo da sala, de Tibor Fischer (Rocco, 255 págs.). É um romance cujo humor dificilmente pode ser resumido em um trecho ou outro, já que seu efeito se apóia mais no acúmulo do que em piadas isoladas. Página a página, parágrafo a parágrafo se sucedem histórias narradas por personagens que se deliciam em pisar na cabeça dos outros e depois rir muito a respeito. Guardadas as diferenças de temas e linguagem, o texto de Fischer lembra a anarquia e a crueldade dos romances de Martin Amis dos anos 1980, especialmente Money e London Fields. Mais que uma tentativa de choque barato, e sem que obviamente se endosse o que está sendo dito, tal ausência de bons modos tem seu valor por ir contra as inesgotáveis suscetibilidades étnicas, sociais, religiosas e sexuais que dão o tom da crítica literária hoje: 

 

“Ele havia sido criado num orfanato e seduzido pelo técnico de natação aos doze anos.

– Que coisa horrível – eu disse, solidária.

– Não – corrigiu Sergio. – Foi fantástico. Ele me amava e deu muitos presentes.”

 

Ou:

 

“Depois Rutger aparecia como um tratador de porcos, enquanto uma mulher idosa, que evidentemente desconhecia os benefícios da ginástica, de uma boa dieta ou da cirurgia plástica, transava com o porco. O bicho tinha uma expressão de decepção com a vida”.

 

Ou, ainda sobre Rutger e sua passagem pela indústria pornô: 

 

“A primeira parte, de mais ou menos três minutos, tinha só duas cenas com ele. Rutger interpretava o namorado de uma esteticista que observava, escandalizado, ela ser estuprada pelo entregador de pizza. Esse primeiro clipe ilustrava amplamente por que Rutger estava tentando uma carreira nesse ramo do cinema. Ele tinha um antitalento para representar. Ele sugava o talento dos demais atores. Sua tarefa ali era olhar, mas ele parecia exatamente o que era, alguém tentando parecer um namorado escandalizado. Mais tarde, Janos explicou que Rutger só conseguiu aquele papel porque pagou ao diretor e comprou a pizza.”

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