Evanildo Bechara na floresta virgem

por Michel Laub

  

Não tenho opinião sobre a reforma ortográfica. Na verdade, o assunto me interessa pouco. Ortografia é convenção  e, se dizem que a mudança vai trazer benefícios, acredito. Só não me peçam para ler o acordo e endossar frases como “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Prestígio internacional se ganha quando um país enriquece. A literatura de língua inglesa é a mais lida porque os Estados Unidos são a primeira economia do mundo, e não consta que alguém tenha sentido necessidade de uniformizar a maneira como se escreve center ou theater nos cinco continentes. 

 

Nessa discussão que logo será esquecida, apenas duas coisas a lamentar. A primeira é a volta dos termos gramaticais a esta altura da vida, eu que cheguei até aqui sem saber (ou tendo esquecido, tanto faz) o que é um ditongo, um advérbio, um vocativo. A segunda é abrir o Estadão todos os domingos e dar de cara com a coluna de Evanildo Bechara. Espécie de representante oficial do Brasil no acordo, responsável por determinar o que é válido ou não na língua, o que está de acordo ou não com a forma como se fala contemporaneamente, ele escreve com a seguinte clareza e modéstia: “Isso é o mesmo que dizer que, pela regra geral, bem sempre se separa do hífen do segundo elemento, qualquer que seja o seu inicial, o que o aproxima dos integrantes do grupo 5º da Base XV, justificando nossa decisão didática de reuni-lo ao grupo 5º da Base XV nos dois livrinhos que escrevemos sobre a reforma para a editora Nova Fronteira”.

 

Além do plural majestático, há termos como “utentes” e metáforas como “floresta virgem na investigação acadêmica” para definir e esclarecer itens assim: “O cuidado na redação de ‘certos compostos’ e ‘em certa medida’ revela a falta de estudos preliminares na área da lexicologia diacrônica e sincrônica do português para determinar o afastamento da ‘noção de composição’ dos termos listados, em oposição a outros tranqüila e confiantemente arrolados como evidentes compostos”.

 

Este blog ainda não adotou a nova ortografia. Quando o fizer, prometo que será sem muito alarde. Assim fica tudo ok com as prescrições democráticas do professor Bechara, incluindo a democrática vírgula entre sujeito e verbo da primeira frase de sua primeira coluna, no dia 25/1: “Qualquer discussão, crítica ou indagação que envolva as novas normas de escrita propostas pelo acordo ortográfico aprovado no ano passado pelas esferas governamentais para entrar em vigor a 1º de janeiro deste 2009, exige conhecimento mais largo do assunto”.