Um argumento contra Benjamin Button

por Michel Laub

 

Jean-Luc Godard uma vez resumiu o western, que volta e meia fala de homens tirados da aposentadoria para uma última missão violenta, na frase “só mais uma vez”. Que também serviria, diga-se, para boa parte dos policiais ou filmes de boxe da linha Rocky. Numa vertente semelhante – “esta é sua última chance” –, para aqueles dramas em que o advogado, o jornalista ou o detetive está na sarjeta antes de trabalhar no caso que mudará sua vida.

 

Dá para seguir com exemplos em vários gêneros: metade da graça do terror vem da inutilidade da advertência “não abra esta porta, menina”; metade dos problemas dos filmes envolvendo a CIA e o FBI seriam evitados com a regra “nunca confie em chefes burocratas”; e, parafraseando o New York Times, uma definição para as centenas de produções anuais de Bollywood não seria muito diferente de “príncipe encontra princesa, há elefantes, and let’s dance”.

 

Embora O curioso caso de Benjamin Button seja um filme sobre o tempo, e esse é o rótulo que o legitima para concorrer ao Oscar, sua essência é um pouco menos solene. Ela também pode ser resumida numa frase: “Vamos ver como funciona”. Ou seja: cria-se um argumento esperto – um homem que nasce velho e morre bebê –, e a partir daí roteiro e direção se divertem imaginando situações que se adaptem a ele. Algumas funcionam, algumas não.

 

O problema desse tipo de filme é que, para o bem e para o mal, sua estrutura sempre estará engessada por um truque. Como a premissa é suficientemente interessante, nunca se poderá dizer que o resultado final seja um fracasso; por outro lado, é muito difícil que a premissa não seja maior que as cenas que a ilustram. Uma semana depois de ver Benjamin Button, pouquíssimas delas – talvez só a da batalha em alto mar – ainda estão na memória. E nenhuma tem metade do vigor que David Fincher mostrou em Zodíaco ou Clube da luta (ver post anterior).

 

O conto que deu origem a Benjamin Button é de Scott Fitzgerald. De alguma forma seu tema faz sentido na obra do escritor, que gostava de falar da melancolia inerente à perda da juventude. O texto evoca um pouco desse sentimento por uma via cronológica oposta, o que não chega a salvá-lo de certa banalidade, mas ao menos é uma tentativa de se justificar literariamente para além da mera curiosidade com a trama. No filme não há nem isso: em seus episódios sem ligação orgânica entre si, que servem apenas para acompanharmos as mudanças na maquiagem de Brad Pitt, a reflexão possível sobre o tempo diz respeito à duração excessiva da história. São 166 minutos para girar em torno de algo, o argumento, que entendemos logo nos primeiros minutos – isso na hipótese rara de já não o conhecermos muito antes de entrar no cinema.