Bolaño, Bellatin e o horror

por Michel Laub

Há uma passagem marcante no conto O olho Silva, de Roberto Bolaño, que está no livro Putas Assassinas (Companhia das Letras, 224 págs.): a história de meninos indianos que, com expressa permissão dos pais, são vistos como a incorporação de uma divindade durante um ritual proibido que se estende por cerca de um mês. Ao final das celebrações, eles são castrados, renegados e vendidos para um bordel.

Num mundo tão repleto de narrativas, boa parte feita justamente para chocar o público, não é fácil manejar linguagem e fabulação para sugerir tamanho grau de horror. Guardadas as proporções, é algo que encontramos num Dostoiévski ou num Conrad. Ou em outro livro latino, Flores, de Mario Bellatin (Cosac Naify, 80 págs.), que chega a esse efeito de forma engenhosa: em pelo menos duas das histórias contadas – a de um médico que avalia pedidos de indenização de antigas vítimas de Talidomida e a de um enfermeiro que contamina o próprio filho com o vírus HIV –, o autor aposta em cortes abruptos, surgidos de uma frase para outra, em meio a um parágrafo e depois de uma informação inusitada, um respiro durante o qual o leitor cria uma expectativa em relação ao que já desconfia que enfrentará algumas páginas adiante.

É uma espécie peculiar de suspense, já que o desfecho é anunciado desde sempre e não há concessões a recursos como crescendos dramáticos, clímax e catarse. Mas quando o horror finalmente surge, na naturalidade monocórdia de uma prosa aparentemente distante (“o próprio iceberg”, diz Joca Terron no ótimo posfácio), somos surpreendidos por uma nota de emoção que parecia perdida em meio ao rigor cerebral do livro.

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