‘O imitador de vozes’, de Thomas Bernhard

por Michel Laub

No post de ontem falei de uma característica da prosa de Thomas Bernhard, que ignora um preceito caro à literatura americana de meados do Século 20 – show, don’t tell – para extrair um humor muito particular da ênfase e da reiteração. Curiosamente acaba de sair no Brasil uma coletânea sua, O imitador de vozes (Companhia das Letras, 159 págs.), que faz o contrário: em algo como cem histórias curtas, poucas com mais de uma página, ele quase sempre prefere manter um registro mais descritivo que analítico, deixando que os fatos narrados – crimes, suicídios, desastres, episódios de violência e loucura muitas vezes tirados de notícias de jornal – falem por si.

Apesar disso, o impacto no leitor acaba sendo semelhante ao de livros como Árvores abatidas, O náufrago e Velhos mestres: não a reação a uma passagem isolada, mas a submersão pelo acúmulo de recursos como os itálicos – que destilam ironia em tom alto e rabugento –, as interposições entre vírgulas, as palavras repetidas e o encadeamento narrativo em espiral. Imaginem a história a seguir multiplicada por cem:

“Na Alsácia, descobrimos que um homem de Seledstadt foi levado para o asilo de velhos de Colmar porque sua família afirmava ter ele oitenta anos, segundo se depreendia, aliás, de seus documentos, ao passo que o próprio homem afirmava sem parar ter apenas sessenta, o que a família não suportava mais ouvir e lhe dera a idéia de tentar interná-lo no asilo de Colmar. De fato, diz-se que o homem afirmava aquilo dia e noite e que também em outros aspectos teria transformado a vida da família num horror. Além disso, consta que deixara de se lavar fazia um ano, só caminhava descalço e, de vez em quando, aparecia completamente nu no meio da rua, motivos suficientes, portanto, para interna-lo num manicômio, o que, contudo, a família não queria fazer. Assim foi que tiveram a idéia de manda-lo para Colmar. A muito custo conseguiram leva-lo para lá, mas, uma vez em Colmar, o homem fugiu das irmãs de caridade que o conduziam ao asilo e só foi reencontrado horas mais tarde. As irmãs teriam, então, conseguido convencê-lo a entrar no asilo sem oferecer resistência. No meio da noite, o homem, cujo nome seria Shluemberger, pôs fogo no asilo de velhos de Colmar, matando a todos os quatrocentos e setenta e oito internos. Inclusive a si próprio.”