Michel Laub

Fim de semana

Uma revista – Baiacu.

Um filme – O artista do Desastre, James Franco.

Outro – Get Out, Jordan Peele.

Um curta – Nelson Cavaquinho, Leon Hirszman (aqui).

Uma releitura Diário de um Ladrão, Jean Genet (Rio Gráfica, 260 págs.).

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Licor de naufrágio

Spoiler, poema de Marcelo Montenegro em Forte Apache (Companhia das Letras, 116 páginas):

Lembro que você me contou

uma história incrível.

Embora não lembre a história,

sou capaz de soletrar,

inclusive, a brisa que,

por um microssegundo,

inflou a cortina da sala.

(Um pedacinho de uma tarde

dentre as trilhões de tardes

que existiram naquela tarde.)

Lembro as pausas,

a música dos seus braços,

o cabelo tirado do rosto

no momento exato.

(Um bombom de ternura

com licor de naufrágio.)

Fim de semana

Um filme – Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson.

Outro – Lady Bird, Greta Gerwig.

Mais outro – Eu, Tonya, Craig Gillespie.

Um filme ruim – Três Anúncios para um Crime, Martin McDonagh.

Um livro de poesia – Forte Apache, Marcelo Montenegro (Companhia das Letras, 120 págs.).

Invenções diabólicas contra idosos

Junichiro Tanizaki em Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin Companhia, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda):

“A maioria dos equipamentos modernos tende a favorecer os jovens e a produzir gradativamente uma era desumana para idosos. Vejam os leitores os semáforos, por exemplo: a partir do momento que tiverem de depender deles para atravessar cruzamentos, os idosos não poderão mais andar com confiança pelas ruas das cidades. Salvam-se apenas os velhos ricos que podem ser conduzidos de carro, mas eu mesmo fico com os nervos à flor da pele nas ocasiões em que tenho de ir a Osaka e, lá chegando, preciso atravessar uma rua. Para começar, o sinaleiro do tipo “Pare-Siga” é um foco de problemas: os instalados no meio da calçada são relativamente fáceis de ser visualizados, mas existem outros especialmente difíceis de ser detectados que ficam pisca-piscando luzes verdes e vermelhas em cantos inesperados, sem mencionar o perigo de confundi-los com os sinaleiros centrais em cruzamentos especialmente largos. E quando vi guardas ordenando o tráfego nas ruas de Kyoto, imaginei: este é o fim das cidades japonesas (…). Há quem preveja que, com o progresso da civilização, o sistema viário será transferido para o céu ou para baixo da terra, e que então as ruas voltarão a ser tranquilas como no passado. Mas é óbvio que se isso um dia acontecer, outros diabólicos inventos de tortura para idosos terão sido inventados. No final das contas, todos querem que idosos permaneçam quietos em seus lugares, e só nos resta ficar em casa ouvindo rádio, bebericando saquê e beliscando petiscos que nós mesmos preparamos.”

Fim de semana

Uma reportagem – Os russos e a crise no Facebook (aqui).

Um artigo – Shakespeare, plágio e reinvenção (aqui).

Um filme – O Sacrifício do Cedro Sagrado, Yorgos Lanthimos.

Outro – All the Money in the World, Ridley Scott.

Um documentário – O Homem do Jornal: a vida de Ben Bradlee, John Maggio.

Fim de semana

Um livro – O Guia Literário da Bíblia (Unesp, 723 págs.).

Uma releitura – Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki (Penguin Companhia, 72 págs.).

Um filme – Call me by Your Name, Luca Gadagnino.

Outro – O Jovem Karl Marx, Raoul Peck.

Mais outro – The Post, Steven Spielberg.

Fim de semana

Uma exposição – Histórias da Sexualidade, MASP.

Uma montagem – O Rio, Sesc Consolação.

Um filme – O Destino de uma Nação, Joe Wright.

Um documentário – One of Us, Heidi Ewing e Rachel Grady.

Um romance – Pretérito Imperfeito, Bernardo Kucinski (Companhia das Letras, 152 págs.).

Fim de semana

Uma coletânea – 50 Poemas de Revolta (Companhia das letras, 143 págs.).

Um filme – The Square, Ruben Östlund.

Outro – 120 batimentos por minuto, Robin Campillo.

Um filme bonzinho – Roda Gigante, Woody Allen.

Um ruim – Suburbicon, George Clooney.

Eu, também, não gosto dela

Ben Lerner em Ódio Pela Poesia, no n.25 da Serrote, tradução de Leonardo Fróes:

“Na aula de inglês do nono ano, quando a professora x nos mandou decorar e recitar um poema, fui pedir à bibliotecária da Topeka High Scool que me indicasse o poema mais curto que ela conhecia, e ela então sugeriu ‘Poesia’ [Poetry], de Marianne Moore, que na versão de 1967 diz apenas isto: Eu, também, não gosto dela./ Lendo-a, entretanto, com um perfeito desprezo por ela,/ descobrimos nela, no final de tudo, um lugar para o genuíno. [I, too, dislike it./ Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in/ it, after all, a place for the genuine.].

Lembro de achar que meus colegas eram uns otários por terem decorado sobretudo o ‘Soneto 18’ de Shakespeare, enquanto eu tive de recitar apenas 24 palavras. Não importa que um esquema fixo de rimas e o pentâmetro iâmbico tornem os 14 versos de Shakespeare mais fáceis de decorar que os três de Moore, cada um dos quais sendo interrompido por um advérbio conjuntivo – um paralelismo desgracioso que está basicamente a serviço da forma. Isso, somado aos quatro empregos de it, faz Moore soar como um padre que admite com inveja que o sexo tem sua função, enquanto tenta evitar usar a palavra, um efeito ampliado pelo enjambement deliberadamente canhestro do segundo no terceiro verbo (in/it). Na verdade, ‘Poesia’ é um poema difícil para guardar de memória, como demonstrei por meu fracasso em dizê-lo certo, a cada uma das três chances que me foram dadas pela professora x, de olhos no texto a me seguir, com meus colegas caindo na risada (…).

‘Poesia’: que tipo de arte assume a aversão de sua audiência e que tipo de artista se alinha a essa aversão, até mesmo estimulando-a? (…) Quase todos os anos sai um ensaio num periódico mainstream denunciando a poesia ou proclamando a sua morte, geralmente para culpar os poetas vivos pela relativa marginalização da arte, e então as defesas se iluminam na blogosfera antes de a cultura, se pudermos dizer que é uma cultura, focar sua atenção, se pudermos dizer que isso é atenção, de volta para o futuro. Mas por que não perguntamos: que tipo de arte é definida – tem sido definida há milênios – por um tal ritmo de denúncia e defesa? Muito mais gente concorda que odeia poesia do que é capaz de concordar sobre o que é poesia. Eu, também, não gosto dela, mas em grande parte organizei minha vida ao seu redor (…), e não sinto isso como uma contradição, porque a poesia e o ódio pela poesia são para mim – e talvez para você – inextricáveis (…).

Grandes poetas se confrontam com os limites dos poemas reais, tacitamente vencem ou ao menos detêm essa realidade, parando às vezes de escrever e se tornando célebres por seu silêncio; poetas verdadeiramente horríveis proporcionam, sem o saber, um lampejo de possibilidade virtual pelo cúmulo de seu próprio fracasso; poetas vanguardistas odeiam poemas por permanecerem poemas em vez de se transformarem em bombas; e os saudosistas odeiam poemas por falharem em fazer aquilo que errônea e vagamente eles alegam que outrora a poesia fez. Há variedades de demandas que se interpenetram e estão subordinadas à palavra “poesia” – para vencer o tempo, para belamente acalmá-lo; para expressar uma individualidade irredutível de um modo que possa ser socialmente reconhecido ou, à la Whitman, para alcançar universalidade sendo irredutivelmente social, menos uma pessoa do que uma tecnologia nacional; para derrotar a língua e o valor da sociedade existente; para propor uma escala de valores que esteja além do dinheiro. Mas uma coisa que todas essas demandas partilham é que nunca se pode satisfazê-las com poemas. Odiar poemas reais é, portanto, não raro um modo irônico, e às vezes inconsciente, de expressar a persistência do ideal utópico de Poesia, e as lamúrias a respeito disso são também defesas.”

Egopress

– Nesta quinta, 14/12, às 19h, estarei no Espaço Cult/SP com André Sant’Anna e Ronaldo Bressane num debate promovido pelo Prêmio Oceanos.

A Maçã Envenenada está entre os melhores do ano do Financial Times: https://goo.gl/qjk42x

Fim de semana

Um livro – Confissões, Santo Agostinho (Penguin Companhia, 416 págs.).

Um romance – I Love Dick, Chris Kraus (Semiotext(e)/Native Agents, 280 págs.) .

Um conto – The Dog, J.M.Coetzee (aqui).

Um documentário – The Act of Killing, Joshua Oppenheimer.

Um podcast – R.E.M. sobre os 25 anos de Automatic for the People (aqui).

Ouvido e cultura

Sidarta Ribeiro sobre A Vida Secreta da Mente, de Mariano Sigman (Objetiva, 288 págs.), na edição de novembro da Quatro Cinco Um:

“O exame da evidência empírica mais robusta quase sempre resulta na quebra dos preconceitos e das expectativas construídas pelo senso comum. Sigman desconstrói, por exemplo, a noção de talento como dom inato que pode até ser desperdiçado, mas jamais é conquistado com doses adequadas de esforço. O ouvido absoluto (capacidade de identificar notas musicais sem ter um tom de referência) é uma valiosa raridade no Ocidente, mas chega a ser comum em chineses e vietnamitas. Pesquisas da neurocientista inglesa Diana Deutsch mostram que a origem dessa diferença é cultural. A maior parte das crianças pequenas tem ouvido quase absoluto, mas nas populações ocidentais essa capacidade se atrofia por falta de uso, exceto em crianças expostas à música desde muito cedo. Em vários povos orientais, as línguas codificam significados também de acordo com a prosódia, ou seja, mudam de sentido conforme o tom. Mesmo crianças chinesas e vietnamitas não expostas à música tendem a manter a capacidade de distinguir tons pela prática da linguagem, facilitando enormemente o trabalho dos caçadores de talento nos conservatórios.”

Fim de semana

Um filme – The Meyerowitz Stories, Noah Baumbach.

Um documentário meio egóico – Jim & Andy: The Great Beyond, Chris Smith.

Um ensaio de 1975 – Susan Sontag sobre Leni Riefenstahl (aqui).

Uma novela – Glaxo, Hernán Ronsino (Ed 34, 77 págs.).

Um livro de poemas – A Orca no Avião, Sofia Mariutti (Patuá, 71 págs.).

Um judeu vê filmes nazistas

Em suas memórias sobre a Fatwa, decreto religioso que o condenou à morte por ter escrito um romance supostamente blasfemo contra o Islã, Salman Rushdie chamou os dez anos em que precisou viver escondido de “batalha entre a mente literal e a mente irônica”. É uma boa definição: o contrário das certezas do fanatismo seria um recurso cuja essência – dizer algo diferente do que parece estar sendo dito – é um convite à nuance, à dúvida que faz avançarem inteligência e sensibilidade.

Seria tentador usar esse exemplo para ridicularizar quem se indignou com a programação recente de instituições culturais no país – evangélicos, um ex-ator pornô e Senhoras de Santana disfarçadas de liberais. Afinal, ver estímulo à pedofilia num quadro que traz a frase “criança viada” (Santander Cultural/Porto Alegre), ou um ato sexual numa menina acompanhada da mãe que toca o braço de um homem nu cercado de outras pessoas num museu (MAM/SP), entre tantos outros exemplos, é só entender as coisas por um valor de face adaptado à estupidez do observador.

Mais interessante, porém, é levar o caso a sério em seus próprios termos. Um dos subtextos dos protestos reafirma uma verdade que andava esquecida: a de que algumas das batalhas centrais na determinação da mentalidade de uma época estão, sim, no campo simbólico da representação estética. Se a arte voltou a ser perigosa, é porque voltou a ser relevante.

Trecho inicial de texto que publiquei na Folha de S.Paulo, 19/11/2017. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Borg Vs McEnroe, Janus Metz Pedersen.

Outro – Gabriel e a Montanha, Fellipe Barbosa.

Um livro – O Palácio da Memória, Nate DiMeo (Todavia, 253 págs.).

Outro – A Glória e seu Cortejo de Horrores, Fernanda Torres (Companhia das Letras, 216 págs.).

Um texto – Marcel Cohen sobre coincidências na Piauí.

Egopress

– No dia 26/11, às 16h30, estarei em uma das mesas do Fórum das Letras de Ouro Preto, com Amilcar Bettega Barbosa, Olivier Bourdeaut e Sebastien Lapaque. A curadoria é de Guiomar de Grammont.

– Na edição deste mês da Quatro Cinco Um, há uma resenha minha sobre os novos livros de Sérgio Branco e Francisco Bosco.

– Entrevista que dei a Roberta Carmona, do Literatórios: https://goo.gl/mhX88r

Fim de semana

Um artigo – Hermano Vianna sobre inteligência artificial (aqui).

Outro – Joan Acocella sobre Lutero (aqui).

Um filme – Churchill, Jonathan Teplitzky.

Um filme ok – O Formidável, Michel Hazanavicius.

Um livro – A vítima tem sempre razão?, Francisco Bosco (Todavia, 208 págs.).

Um campo aparado cercado por bosques

Trechos de Imunidade, de Eula Biss (Todavia, 206 págs., tradução de Pedro Maia Soares):

“‘Toxicologia intuitiva’ é o termo que [Paul] Slovic usa para a forma como a maioria das pessoas avalia o risco dos produtos químicos. Sua pesquisa revela que essa abordagem é distinta dos métodos utilizados pelos toxicologistas, e tende a produzir resultados diferentes. Para os toxicologistas, ‘a dose faz o veneno’. Qualquer substância em excesso pode ser tóxica. A água, por exemplo, em doses muito elevadas é letal para os seres humanos, e o excesso de hidratação matou um corredor na maratona de Boston de 2002. Mas a maioria prefere pensar nas substâncias químicas como seguras ou perigosas, independentemente da dose. E expandimos essa ideia, na medida em que consideramos prejudicial qualquer exposição a produtos químicos, por mais breve ou limitada que seja.”

“Ao explorar essa ideia, Slovic sugere que pessoas que não são toxicologistas podem aplicar uma ‘lei do contágio’ à toxidade. Assim como a breve exposição a um vírus microscópico pode resultar em doença para o resto da vida, supomos que a exposição a qualquer quantidade de um produto químico nocivo contaminará nossos corpos para sempre. ‘Ser contaminado tem claramente um caráter de tudo ou nada, como estar vivo ou grávida.’”

“Um dos apelos da medicina alternativa é que ela oferece não apenas uma filosofia ou tratamento alternativo, mas também uma linguagem alternativa (…). Por mais verdadeira que seja, a ideia de que nosso remédio é tão defeituoso quanto nós não é reconfortante. E quando conforto é o que queremos, um dos mais poderosos tônicos que a medicina alternativa oferece é a palavra ‘natural’. Ela implica um remédio não perturbado pelas limitações humanas (…), que passou a significar para nós (…) ‘puro’, ‘seguro’ e ‘benigno’. Mas o uso de natural como sinônimo de ‘bom’ é quase certamente um produto de nossa profunda alienação do mundo natural.”

“Permitir que as crianças desenvolvam ‘naturalmente’ a imunidade a doenças contagiosas, sem vacinação, é uma ideia bastante atraente para alguns de nós. Grande parte dessa atração depende da crença de que as vacinas são inerentemente antinaturais. Mas as vacinas pertencem àquele lugar de transição entre os seres humanos e a natureza – um campo aparado (…) cercado por bosques. A vacinação é uma espécie de domesticação de uma coisa selvagem, na medida em que envolve nossa capacidade de atrelar um vírus e domá-lo como um cavalo, mas sua ação depende da resposta natural do corpo (…). O aspecto mais antinatural da vacinação é que, quando tudo corre bem, ela não provoca doença nem produz um mal.”

Fim de semana

Um livro – Imunidade, Eula Biss (Todavia, 206 págs.).

Uma exposição de madrugada – The Clock, IMS.

Um filme ok – Blade Runner 2049.

Um filme melhor – Blade Runner 1.

Um disco – Campos Neutrais, Vitor Ramil.

Faulkner e os caipiras de São Paulo e Minas

Paulo Henriques Britto sobre as dificuldades da tradução que fez de O Som e a Fúria, no posfácio da nova edição do romance (Companhia das Letras, 373 págs.):

“Como todas as personagens negras são também pessoas de pouca ou nenhuma instrução formal, seu dialeto pode ser diferenciado do falar das personagens brancas através do uso de marcas que caracterizem o português subpadrão. Em muitos casos, bastou o artifício de marcar o plural apenas no primeiro elemento de um sintagma, uma característica da fala dos brasileiros desprovidos de escolaridade que atravessa todas as fronteiras dialetais: ‘eles vai dizer’, ‘me meter na vida dos branco’ etc. Outros recursos foram empregados, como o uso de indicativo em lugar de subjuntivo (‘quer que eu levanto a persiana um pouquinho?’). Foram evitadas, porém, as marcas fonéticas, tão comuns no inglês, por vários motivos. O primeiro é que, no Brasil, as distorções de pronúncia são tradicionalmente usadas para criar efeito burlesco, com intenção cômica – e na figura digna de Disley [personagem negra do livro] nada há que justifique tal coisa. Outro problema associado (…) é que, em muitos casos, não se pode assinalar uma pronúncia de uma palavra desviante da norma culta brasileira sem ao mesmo tempo criar uma associação com um determinado dialeto geográfico. Não há um modelo de pronúncia subpadrão genericamente brasileiro, que não evoque nenhuma região em particular; e muitos leitores se sentiriam incomodados se Disley e seus descendentes falassem como caipiras de São Paulo ou de Minas Gerais, ou como a gente simples do interior da Bahia ou de Pernambuco. Por fim, se marcássemos fortemente todas as falas em black english, seriamos obrigados, por uma questão de coerência, a fazer o mesmo com muitas das dicções de personagens brancas – afinal, a de Jason também contém marcas fonéticas. Mas nesse caso estaríamos frustrando nosso propósito original, que era distinguir as falas dos negros dos brancos (…).

Por definição, o sabor específico do inglês sulista, branco ou negro, que constitui a matéria-prima da prosa de Faulkner, é algo que não pode existir fora do inglês – mais ainda, fora do inglês norte-americano. As associações que se fazem entre uma determinada expressão, forma sintática ou pronúncia, de um lado, e uma região geográfica e um momento histórico, de outro, são restritas ao universo mental dos falantes daquele idioma, e seria tão inviável reproduzi-as numa língua estrangeira quanto seria recriar os efeitos de instrumentação de uma peça sinfônica numa transcrição para piano (…). Mas se a obra conseguiu o reconhecimento internacional que hoje tem, e se ela fascinou tantos leitores em versões traduzidas para os mais variados idiomas, é porque há nela muito além de uma utilização brilhante de variantes dialetais.”

Fim de semana

Uma exposição – Robert Frank no IMS.

Outra – Kohei Nawa na Japan House.

Um posfácio – Paulo Henriques Britto na nova edição de O Som e a Fúria (Companhia das Letras, 376 págs.).

Uma peça – Ala dos Criados, Mauricio Kartum.

Um disco – Pleasure, Feist.

Egopress

– Nesta sexta, 6/10, às 19h, estarei numa das mesas da Jornada de Literatura de Passo Fundo/RS, com Débora Ferraz, Julián Fuks, Mario Corso e Mário Rodrigues.

– Na sequência, em Porto Alegre, visitarei os colégios Farroupilha (9/10, 10h30), Anchieta (9/10, 16h), Rosário (10/10, 10h) e Israelita (11/10, 10h30) para falar do Diário da Queda.

O Tribunal da Quinta-Feira é um dos finalistas do prêmio Jabuti. O livro também é finalista do São Paulo de Literatura e semifinalista do Oceanos.

Fim de semana

Um disco – Hiss Spun, Chelsea Wolfe.

Um documentário – Oasis: Supersonic, Mat Whitecross.

Um filme de 1981 – The Decline of Western Civilization (1), Penelope Spheeris.

Um filme pretensioso – Mãe!, Darren Aronofsky.

Um prédio – IMS Paulista.

Fim de semana

Um livro – Sobre Gatos, Doris Lessing (Autêntica, 192 págs.).

Um ensaio – Antonio Engelke sobre identitarismo, na Piauí.

Um vídeo – Rock Grande do Sul 30 anos depois (aqui).

Um filme médio – Norman, Joseph Cedar.

Um filme ruim – O Círculo, James Ponsoldt.

Egopress

– Na próxima terça, 12/9, às 17h, participo com Ana Paula Maia de uma das mesas da Feira do Livro de Medellin/Colômbia. Programação completa: https://goo.gl/U9hmmH

– Na sequência (16/9, 19h), estarei com Eduardo Sabino, Marcia Denser e Maria Valéria Resende no Festival de Belo Horizonte. Programação: https://goo.gl/jyDdBU

– Um texto meu saiu na revista inglesa Litro, que dedicou um número a autores latinos. A curadoria é da romancista mexicana Chloe Aridjis, e também participam no time brasileiro Antonio Xerxenesky e Fernanda Torres: https://goo.gl/XRZvL3

– Minha participação no Segundas Intenções/2017, na Biblioteca Villa-Lobos, em São Paulo: https://goo.gl/hv8UMn

Fim de semana

Um romance – O Vendido, Paul Beatty (Todavia, 320 págs.).

Um ensaio de provocação – Teoria King Kong, Virginie Despentes (N-1 Edições, 128 págs.).

Um filme simpático – O Filme da Minha Vida, Selton Mello.

Outro – The Invention of Lying, Ricky Gervais.

Um artigo – Fake news na época da invenção do rádio (aqui).

Fim de semana

Um filme – Bingo, o Rei das Manhãs, Daniel Rezende.

Um filme pretensioso – De Canção em Canção, Terrence Malick.

Um livro – As Perguntas, Antonio Xerxenesky (Companhia das Letras, 184 págs.).

Um projeto – Sesc 24 de maio.

Um depoimento – Ruy Castro sobre alcoolismo (aqui).

Relevo e silêncio

Orelha que escrevi para A Cena Interior, de Marcel Cohen (Ed 34, 152 págs.), publicada com pequenas modificações:

Qual era o perfume preferido dos oficiais da Gestapo? Muito provavelmente, escreve Marcel Cohen neste livro breve e perturbador, um certo Couro da Rússia. Originado da Ucrânia, extraído de um galho de bétula que deixava um rastro “violento” e “inebriante”, a fragrância sugeria o contrário das suaves águas de colônia fabricadas à beira do Reno, símbolos da civilização liberal que morreu com a República de Weimar.

Dos perfumes, Cohen parte para digressões sobre roupas, paisagens, comida, fiapos de conversas contadas por testemunhas em cidades e épocas diferentes. São evocações do que a memória só consegue reconstituir – ou reinventar – em fragmentos: a biografia e os traços pessoais dos pais, tios, avós e da irmã ainda bebê que foram mandados a campos de concentração em 1943.

O resgate inclui a breve convivência de todos com o autor, que tinha cinco anos quando foi salvo da prisão e da morte porque havia ido brincar no parque com a babá. Como um espelho feito de ausência e silêncio, o registro de quem sobreviveu por acaso teve repercussões. Não apenas no trauma individual, sobre o qual A Cena Interior fala de modo discreto e enviesado, mas também em questões éticas de quem se propõe a contar por escrito uma história assim. Como ordenar os fatos e atribuir juízos de valor a eles?, Cohen se pergunta na introdução. “Seria inaceitável acrescentar às monstruosidades passadas a injustiça de sugerir que os materiais eram magros demais, que a personalidade dos mortos era pouco distinta ou (…) ‘original’ para justificar um livro.”

O impasse acaba resolvido de forma engenhosa, mesmo que o tom do texto busque uma neutralidade que, sabemos, é utópica em qualquer relato – seja ele de jornalismo, de testemunho ou de autoficção. Por meio do fragmento, do detalhe de aparência insignificante, do gosto por coincidências e associações inusitadas, além de um cuidado quase documental com os trechos mais impactantes da tragédia, a aproximação afetiva entre narrador e objeto se dá evitando na medida do possível a arbitrariedade – ou o autoritarismo – das articulações de ritmo, tom, pathos e demais artifícios – ou “mentiras” – que formam o tecido romanesco tradicional.

Paradoxalmente, é o sabor e a força dessa narrativa cheia de arestas e fios soltos que devolve aos seus personagens aquilo que lhes foi retirado pela brutalidade nazista: o relevo humano. Que não é feito da grandeza das peripécias, e sim dos pequenos hábitos, dos rituais íntimos que não servem para nada, da dignidade que independe dos humores sombrios da história do Século XX. Já definido como “escritor de voz baixa”, Cohen obtém aqui um efeito oposto: faz a vida gritar em sua imperfeição aleatória, seu presente universal garantido pelo registro da convenção literária. Trata-se do melhor antídoto contra a dissolução da experiência na frieza das estatísticas.

 

Fim de semana

Uma HQ – Aqui, Richard McGuire (Companhia das Letras, 304 págs.).

Uma peça – Marte, você está aí?, Silvia Gomez.

Um filme – O Apartamento, Asghar Farhadi.

Outro – Afterimage, Andzrej Wajda.

Um vídeo – Charlottesville na Vice/HBO (aqui).

Egopress

– Neste sábado (12/8, 11h), estarei no projeto Segundas Intenções, na Biblioteca Villa-Lobos, em São Paulo, numa conversa com Manuel da Costa Pinto.

– Na sequência, como parte do programa Viagem Literária/SP, darei palestras em bibliotecas públicas de cinco cidades: Ilha Comprida (21/8, 19h), Itanhaém (22/8, 19h), Praia Grande (23/8, 13h), Cubatão (também em 23/8, 19h) e Diadema (24/8, 19h).

– Ainda em agosto, com mediação de Vivian Schlesinger, participo de uma mesa da Feira Literária do Clube Paulistano/SP (26/8, 19h).

– No novo número da revista Versalete, da UFPR, respondi a perguntas de Sandra M. Stroparo no estilo ‘Questionário Proust’. PDF da edição: https://goo.gl/nkiz7y

– Participação minha no Encontros de Interrogação do Itaú Cultural, em 2014 (o vídeo foi posto no ar este mês), no estilo TED (pediram para eu subir no palco e dizer o que quisesse): https://goo.gl/AtV2Kj