Michel Laub

Egopress

– Neste sábado, 25/4, às 17h, participo de uma conversa online com a Carol Bensimon no festival Na Janela, da Companhia das Letras. Mais informações e programação completa aqui.

– Na segunda, 4/5, 20h, participo de uma live sobre meus livros no Instagram do Carreira Literária.

Diário da Queda teve os direitos vendidos para a editora Pauza, da Polônia. É o 14o país no qual sai o romance, e o 11o idioma.

Diário… agora também está disponível em audiobook (todas as plataformas). A narração é minha.

– Algumas matérias com palpites meus durante a quarentena: Estadão, sobre escritores em casa, por Fernanda Boldrin (aqui); Correio Brasiliense, sobre dicas de leitura no confinamento, por Nahima Maciel (aqui); Zero Hora, sobre o Gre-Nal do Século, que inspirou O Segundo Tempo, por Rafael Diverio (aqui).

Fim de semana + quarentena (12)

Um artigo – Os experimentos psicológicos e o corona (aqui).

Um vídeo – A publicidade e o corona (aqui).

Um doc cortado – Novos Baianos, 1973 (aqui)

Uma memória – Braulio Tavares sobre Moraes Moreira (aqui).

Uma live sobre e sob o cajado de Deus – Baby Consuelo (aqui).

Fim de semana + quarentena (11)

Um disco – Fetch The Bolt Cutters, Fiona Apple.

Um ensaio – A Imaginação Pornográfica, Susan Sontag.

Um artigo – Os 150 anos do Metropolitan (aqui).

Um filme – Good Time, irmãos Safdie.

Outro – Tangerine, Sean Baker.

Fim de semana + quarentena (10)

Um artigo – Simon Schama sobre pandemia e história (aqui).

Uma resposta – Nick Cave sobre pandemia e arte (aqui)

Uma exposição – Filmes caseiros no Moma (aqui)

Uma série bem-intencionada – Nada Ortodoxa, Maria Schrader.

Um disco – The New Abnormal, Strokes.

Fim de semana + quarentena (9)

Uma entrevista – Ricardo Abramovay sobre o corona e o futuro (aqui).

Outra – Heloísa Starling sobre a gripe espanhola em BH (aqui).

Um livro difícil – Tortura, Henri Alleg (Todavia, 80 págs.).

Um documentário meio difícil – Honeyland, Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov.

Um disco – Gorecki Symphony number 3, Lisa Gerrard.

Fim de semana + quarentena (8)

Um ensaio visual – Fotógrafos durante a quarentena (aqui).

Uma releitura – A Menina sem Estrela, Nelson Rodrigues (Companhia das Letras, 280 págs.).

Um vídeo – O mundo de Nelson Rodrigues (aqui).

Um filme para ver em partes – Satantango, Béla Tarr.

Um documentário – Santiago, Itália, Nanni Moretti.

Fim de semana + quarentena (7)

Um texto – Rob Horning sobre as imagens do corona (aqui).

Outro – Marina Silva sobre sarampo e corona (aqui).

Um filme sobre um mundo novo – Stalker, Andrei Tarkovski.

Um doc sobre um mundo antigo – Uma Outra Cidade, Ugo Giorgetti (aqui).

Um podcast – Eliane Robert Moraes sobre arte e censura (aqui).

Fim de semana + quarentena (6)

Uma reprise – Gandhi, Richard Attenborough.

Outra – O Reverso da fortuna, Barbet Schroeder.

Uma música – Murder Most Foul, Bob Dylan.

Uma série sobre animais – Tiger King, Rebecca Chaiklin e Eric Goode.

Um texto sobre sobreviventes – Ginia Bellafante sobre a gripe e o Holocausto (aqui).

Fim de semana + quarentena (5)

Uma entrevista – Atila Iamarino sobre a pandemia (aqui)

Um artigo – Amanda Hess sobre celebridades e a pandemia (aqui)

Um romance – Esboço, Rachel Cusk (Todavia, 192 págs.).

Uma palestra – Sergio Augusto de Andrade sobre arte e sexo (aqui).

Uma conversa antiga dando uns descontos – Jorge Mautner e Julio Bressane (aqui).

Fim de semana + quarentena (4)

Um artigo – Como a pandemia pode terminar, por Ed Young (aqui)

Outro – As epidemias e a história brasileira, por Ian Read (aqui).

Uma releitura – Aids e suas Metáforas, Susan Sontag (Companhia das Letras, 112 págs.).

Um documentário sobre Miles Davis – The Birth of Cool, Stanley Nelson.

Um (médio) sobre Lil Peep – Everybody’s Everything, Sebastian Jones e Ramez Silyan.

Fim de semana + quarentena (3)

Um ensaio fotográfico – Cidades vazias, New York Times (aqui).

Um curso rápido e grátis – Nietzsche por Maria Lúcia Cacciola (app Casa do Saber).

Um disco de 2019 – All About Eve, PJ Harvey.

Um filme de 2019 – 1917, Sam Mendes.

Um de 1993 – And the Band Played On, Roger Spottiswoode.

Silêncio e crime

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”

Fim de semana + quarentena (2)

Uma entrevista – Richard J. Evans sobre doenças e cultura (aqui).

Outra – Raull Santiago sobre o coronavírus nas favelas (aqui).

Um filme inevitável – Contágio, Steven Soderbergh.

Um livro sobre mais ou menos esse tema – Dez Drogas, Thomas Hager (Todavia, 336 págs.)

Uma releitura idem – Morte em Veneza/Tonio Kröger, Thomas Mann (Nova Fronteira, 162 págs.).

Fim de semana + quarentena (1)

Uma peça – Praça dos Heróis, Thomas Bernhard (Temporal, 121 págs.)

Uma piada – What did Jack do?, David Lynch.

Um filme melhor do que parece – Um lindo dia na Vizinhança, Marielle Heller.

Um pior do que parece – Motherless Brooklyn, Edward Norton.

Um documentário – Get me Roger Stone, Daniel DiMauro, Moran Pehme, Dylan Bank.

Delicadeza contra o horror

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.

Pobreza, wi-fi, água limpa

Numa das boas cenas de Fome de Poder (2016), filme de resto médio sobre a trajetória do empresário americano Ray Crock (Michael Keaton), o protagonista sintetiza o conceito que faria sua então pequena rede de lanchonetes se tornar um império tão culturalmente simbólico quanto a Ford e a Disney: “McDonald’s é família”. Folheando Dignity, livro de textos e fotos de Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.), é difícil não pensar no quanto a frase tem de profético, a partir de sua ambiguidade involuntária, em relação ao modo como se vive hoje nos Estados Unidos.

Arnade percorreu bairros degradados de cidades como Nova York, Bakersfield (Califórnia) e Gary (Indiana) para documentar o dia-a-dia de viciados, prostitutas, gente que foi para a pobreza por variados motivos pessoais e públicos, da mudança estrutural do mercado de trabalho à crise dos opióides. Boa parte das entrevistas ocorreu, justamente, no McDonald’s. O local que Crock imaginou como uma espécie de templo do otimismo do pós-guerra, onde a classe média celebraria os valores do consumo e da eficiência como motores de prosperidade e inclusão, no Século XXI virou cenário de outro tipo de acolhimento: trata-se de um dos poucos espaços públicos americanos que não se constrange em abraçar quem ficou para trás no rali capitalista.

Ao preço de uma das comidas mais baratas do país, é ali que relatos sobre abandono, abuso e crime convergem para um arremedo de vida comunitária. No estacionamento há carros com os pertences de quem não consegue mais pagar o aluguel. Cada loja oferece wi fi grátis, aquecimento, mesas onde grupos de desempregados passam horas conversando. Mães dão banho nos filhos usando a água limpa nos banheiros. À diferença de albergues e instalações religiosas ou bancadas por governos, ninguém incomoda os frequentadores com normas e discursos morais.

Arnade trabalhou duas décadas no Citibank, em Wall Street, e sua própria história de mobilidade expõe os requisitos para quem quer sentar no que ele chama de “primeira fila” da sociedade: um lar estruturado, uma educação de alto nível, a inteligência emocional para fazer escolhas certas durante os anos de aprendizado que o tiraram de San Antonio, pequena cidade operária da Flórida, para o sucesso num dos setores mais competitivos da economia. A partir de 2011, no entanto, e na esteira do que viu acontecer ao seu redor depois da quebradeira de 2008, um desconforto pessoal e ideológico o fez entrar em contato com a realidade do “fundão”.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 6/3/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Uma Vida Oculta, Terrence Malick.

Um documentário – Miss Americana, Lana Wilson.

Um disco estranho – Mummer Love, Patti Smith.

Uma entrevista de 1989 – Décio Pignatari (aqui).

Um livro – Uma História da Tatuagem no Brasil, Silvana Jeha (Veneta, 354 págs.).

Olhos fechados, olhos abertos

Dormir pode ser um ato de resistência?  Essa é uma das conclusões que se pode tirar de 24/7, livro que o professor e ensaísta americano Jonathan Crary publicou em 2013. Lançado no Brasil pela Cosac Naify (144 págs, tradução de Joaquim Toledo Jr.), trata-se de um estudo erudito, apocalíptico e, sob alguns aspectos, premonitório daquilo que era menos possível enxergar na época do que é hoje, ao menos para o leigo: um mundo onde a tecnologia se tornou capaz de mapear cada um de nossos atos e emoções. O que, por sua vez, permite a quem domina tais meios uniformizar a vida social em níveis nunca antes pensados.

Crary identifica nas horas que passamos de olhos fechados um tempo alheio a esse controle. Conforme ele mostra em exemplos sinistros, incluindo tentativas de criar um soldado eficaz na vigília ou cidades com luz solar eterna, é lógico que o “escândalo do sono” – sua falta de valor sob uma perspectiva produtivista – seja combatido por empresas, indústria farmacêutica, indústria militar e similares. A ideia de um sistema em que trabalhadores/consumidores funcionem durante todas as horas do dia, todos os dias da semana (daí o título do livro), tem parentesco óbvio com distopias que se tornaram populares na literatura e no cinema do Século XX.

(…)

É curioso pensar em 24/7 ao ler Sonhos no Terceiro Reich (1966), da jornalista alemã Charlotte Beradt, que só agora sai no Brasil (Três Estrelas, 182 págs., tradução de Silvia Bittencourt). Resultado de uma pesquisa secreta conduzida entre 1933 e 1939, esse ensaio/reportagem analisa relatos oníricos que, em sua aparência fragmentária e ilógica, registram a consolidação do nazismo na subjetividade de cidadãos comuns alemães.

Assim, um médico sonha com um decreto que extingue as paredes nos apartamentos. Um funcionário público, com uma “voz suave” que o acorda no meio da noite dizendo ser do “Serviço de Controle de Telefonemas”. Uma mulher, com a proibição das palavras “lord” (“por precaução, devo ter sonhado em inglês”) e “eu”.

Na luta para encontrar uma “forma de expressão para o inexprimível”, os narradores também são premonitórios à sua maneira. A distopia presente em suas histórias, a partir das quais “o eco do dia ressoa de forma terrivelmente alta, terrivelmente baixa, radicalmente simplificada ou exagerada”, viraria realidade quase literal em poucos anos: na lição de Hannah Arendt, influência clara do livro junto com a psicanálise, uma das diferenças entre o totalitarismo do Século XX e tiranias anteriores – por mais sangrentas que elas fossem – foi, justamente, o apagamento das fronteiras entre experiência íntima e pública.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 24/11/2019. Íntegra aqui.

Música tardia

Em 1937, num ensaio sobre os anos derradeiros da carreira de Beethoven, Theodor Adorno fez considerações sobre o que chamou de “estilo tardio”. Mais tarde retomada numa coletânea homônima de Edward Said, que a aplicou a nomes como Wagner e Jean Genet, a expressão designa uma guinada formal radical que alguns artistas promovem diante da proximidade da morte – um tipo de maturidade estética que não passa pela harmonia, pela doçura serena que a técnica e a experiência poderiam oferecer. Diferentemente, tais obras se tornam “amargas”, “espinhosas”, uma espécie de procura pela “catástrofe” de quem não está mais interessado no “mero deleite” do público.

Num texto recente para a revista The New Yorker, o crítico Max Norman voltou ao tema comentando um livro do historiador Carel Blotkamp, que propõe uma hipótese interessante:  o conceito de estilo tardio não corresponderia, também, a projeções de nós leitores, ouvintes e espectadores? Isto é, não usamos supostos sentidos desses trabalhos finais para saciar nossa “fome por narrativas fechadas”, inclusive as que relacionam vida e obra, porque isso é mais fácil que aceitar o acaso – comum na arte, afinal – ou razões menos visíveis/previsíveis daquilo que queremos entender?

Se há algo que não costuma ser citado quando se fala de João Gilberto Noll, morto em 2017, são as teses de Adorno e Said. Não porque a obra de maturidade do ficcionista gaúcho seja pacífica/harmônica, pelo contrário, mas porque ela nunca se desviou de um caminho que parecia dado desde o início. Da estreia com os contos de O Cego e a Dançarina (1980) ao seu último romance publicado, Solidão Continental (2012), e a par do alto nível mantido em quase todos esses trabalhos, é possível ver no autor o mesmo tema se repetindo com pequenas variações de registro.

E, no entanto, não é absurdo falar numa mudança em nossa visão dessa obra, algo que se intensificou ao longo dos anos. Porque ler Noll em 2000-2010 não era mais como lê-lo em 1980-1990.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/2/2020. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um perfil – Jeff Bezos por Franklin Foer na Piauí.

Um artigo – O recomeço de Louis C.K. por Hilton Hals (aqui).

Um filme hollywoodiano meio bobo – Jojo Rabbit, Taika Waititi.

Um podcast – Gilberto Nascimento sobre Edir Macedo (aqui).

Um livro – Dignity, Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.).

As sombras de Tanizaki

É possível que a visão de mundo que impulsiona o melhor da obra do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) possa ser resumida numa imagem de seu ensaio Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda): “Da mesma forma que uma gema fosforescente brilha no escuro, mas perde o encanto quando exposta à luz solar, creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

Escrito numa época de grande choque entre o nacionalismo japonês e a modernidade ocidental, por um autor que parecia renunciar ao traço vanguardista/europeizante do início da carreira, Em Louvor… exalta o mistério que seria típico da cultura do país – ou daquilo que, segundo seus próprios termos, não seria óbvio, prático, útil de forma consumista e filistina. “[Talvez] não tivéssemos feito grandes progressos materiais se fôssemos deixados à mercê da nossa sorte nos últimos quinhentos anos”, diz um trecho. “Mas ao menos estaríamos seguindo um rumo que nos agrada. E um dia – impossível não seria – talvez viéssemos a descobrir, em lento e cuidadoso progresso, substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações”.

Ao longo das décadas desde a sua publicação, Em Louvor… gerou discussões sobre uma possível ambiguidade no conservadorismo que o inspirou. No posfácio da edição brasileira, o crítico e professor Pedro Erber retoma dessa hipótese, sugerindo que pode haver ironia no texto – e que sua suposta celebração da tradição seria, na verdade, uma alfinetada no tom laudatório do militarismo de sua época.

É uma hipótese generosa com o autor, que numa análise moral e política atualizada – e dando desconto para os aspectos anacrônicos do juízo – ficaria numa posição incômoda caso o texto fosse reduzido ao seu valor de face. Tanizaki fala de um arco vasto de temas, de pintura a arquitetura, da pele dos atores do teatro Nô ao material de tigelas de sopa, passando por vestidos, panos, vasos sanitários, arranjos de flores e toda sorte de objetos e fenômenos da cultura ameaçados pelo que considera imperdoável na vulgaridade moderna, tanto quanto parece lamentar alguns dos princípios democráticos que essa modernidade (às vezes) traz no pacote – como a busca por igualdade de classe, etnia e gênero.

Se no ensaio essa é uma discussão pertinente, por se tratar de um gênero que pode ter um traço programático, na ficção as coisas são mais complexas. Ao ser expressa na maioria de seus contos, novelas e romances, a idiossincrasia de Tanizaki ganha um sabor que – como em toda grande literatura, porque esta é sempre parcial, caprichosa – é notável em originalidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 10/1/2020, sobre as novelas A Ponte Flutuante dos Sonhos e Retrato de Shunkin, publicadas no Brasil pela Estação Liberdade. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um filme de 2015 – O Filho de Saul, Lásló Nemes.

Um documentário – Carta Para Além dos Muros, André Canto.

Uma trilha sonora – Joker, Hildur Guðnadóttir.

Uma montagem – Elizabeth Costello, Leonardo Ventura/Lavínia Pannuzio.

Um livro de poemas – O Tempo Adiado, Inbeborg Bachman (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um livro – As Pequenas Virtudes, Natalia Guinzburg (Companhia das Letras, 124 págs.).

Um livro de poesia – Mil Sóis, Primo Levi (Todavia, 160 págs.).

Um filme – Joias Raras, irmãos Safdie.

Um documentário – A Mulher com Cinco Elefantes, Vadim Jendreyko.

Uma entrevista – Roger Machado a Bob Fernandes (aqui).

Egopress

– A revista Bula fez uma enquete com 2 mil leitores sobre os 10 melhores romances brasileiros da última década. O Tribunal da Quinta-Feira está na lista (aqui).

Diário da Queda numa questão do vestibular da UFRGS/2020 (aqui).

– Entrevista que dei para a revista da Livraria da Vila, na qual falo do livro que estou tentando terminar (aqui).

– Tese de doutorado de Gisele Frighetto, da USP, sobre Diário da Queda e O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho (aqui).

Fim de semana

Um livro – Sonhos no Terceiro Reich, Charlotte Beradt (Três Estrelas, 182 págs.).

Um artigo – O cristianismo e o inferno, por David Bentley Hart (aqui).

Outro – Arte e estilo tardio, por Max Norman (aqui).

Uma série ruim – Don’t Fuck With Cats.

Um disco – Caetano & Ivan Sacerdote.

Retrospectiva do futuro

Ricardo Aleixo em Queridos Dias Difíceis, 2014 – “Queridos dias difíceis,/ acho que já deu – embora// eu considere prematuro/ um definitivo adeus.// Querendo, voltem. Minha/ casa é de vocês. Agora,// pensem bem se será mesmo/ saudável nos testarmos em// novos convívios tão longos/ (também não sou fácil) como// foi desta vez. Menos mal se/ vierem em grupos – tantos,// em tais e tais períodos do mês./ Topam correr o risco? Vão resistir// até o fim? Podem vir, eu insisto./ Mas contem primeiro até três.”

Ana Martins Marques em O Livro das Semelhanças, 2015 – “Há estes dias em que pressentimos na casa/ a ruina da casa/ e no corpo/ a morte do corpo/ e no amor/ o fim do amor/ estes dias/ em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo/ e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde/ não são coisas que se expliquem/ apenas são dias em que de repente sabemos/ o que sempre soubemos e todos sabem/ que a madeira é apenas o que vem logo antes/ da cinza”

Bruna Beber em Barragem, 2009 – “deve ser perigoso/ este gosto recorrente/ de incêndio na boca// mas não há saliva pra apagar/ e não há saliva que apague/ por isso falo pouco// não sei o que de fato queima/ fecho a boca e o fogo sai/ pelo nariz// respiro mal, meu ar é qualquer fumaça/ queria um gosto bom, queria pernas/ pra sair correndo.”

Julia de Souza em Aquele Furo, 2019 – “Aquela bandeira/ cravada na esfera/ perfurando o tempo/ ultrapassando antes/ da hora o século/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ aquela tela estrelada/ aquela nação/ o que diria/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ o que diria ela/ sobre a própria sombra/ sobre a duração?”

Daniel Pellizzari em A Fome é uma Coisa Molhada”, 2018 – “Existe alguma dignidade em ser o último, ou pelo menos alguma tristeza, e toda tristeza é digna. Mas não cheguei até aqui pra só chegar até aqui. Nasci cabrita e depois ganhei pênis, mas perdi esse privilégio. Sou fancha e branca, sou pobre e humana, sou negra e rica, sou hétero e cabra. Acho que sou judia também, e assexual, e ambidestra, e cigana e inseto. Eu sou escrota. Meu porão é uma arca morta. Eu sou maravilhosa (…). Ontem a gente vai cruzar o parque. Em frente.”

Trechos de coletânea com trechos inspiradores (dependendo do ponto de vista) para 2020, publicada no Valor. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série – A Segunda Guerra em Cores.

Um documentário – Mystify, Richard Lowenstein.

Um filme dando um desconto – Dois Papas, Fernando Meirelles.

Um texto – Jia Tolentino sobre Instagram e clínicas estéticas (aqui).

Um texto de 1996 – Modesto Carone sobre Thomas Bernhard (aqui).

Diante da barbárie

“O sol é um astro frio. Seu coração, espinhos de gelo. Sua luz, sem perdão. Em fevereiro as árvores estão mortas, o rio petrificado, como se a nascente não vomitasse mais água e o mar não pudesse engolir mais. O tempo congela”.

Assim começa A Ordem do Dia, do francês Éric Vuillard, romance que ganhou o Prêmio Goncourt de 2017 (Tusquets, 140 págs., tradução de Sandra M. Stroparo). O trecho é menos solene e mais irônico do que parece, considerando o que pode haver de ironia numa tragédia histórica. Trata-se da ficcionalização de um encontro real, em 1933, entre dirigentes nazistas e barões alemães da indústria e das finanças.

O propósito era arrecadar fundos para o partido que recém chegara ao poder. Em alguma fresta das conversas, em meio à “neblina de seus ânimos e de seus cálculos”, esses senhores vetustos tiveram a chance de dizer não ao projeto claro que lhes foi apresentado – e não disseram. Premiadas pela adesão, empresas como Bayer, Siemens e Telefunken tiveram grande crescimento durante os anos de preparo e implantação da Segunda Guerra.

Vuillard não está preocupado com as justificativas individuais desse oportunismo. A pergunta central do romance é mais ampla, embora passe pelas pequenas peças que o ego e a consciência de classe pregaram nos envolvidos: em que medida as próprias regras da civilização, incluindo as leis, a linguagem, a etiqueta e o teatro do poder como um todo, não foram corresponsáveis pela vitória da barbárie? Além do encontro de 1933, o romance descreve eventos como um jantar em Londres no dia em que a Alemanha anexou a Áustria, em 1938, entre o ministro alemão das relações exteriores Joachim Von Ribbentrop e o primeiro ministro inglês Neville Chamberlain; e as tratativas sobre detalhes jurídicos e operacionais dessa anexação, em Berchtesgaden, na Baviera, entre o chanceler austríaco Kurt Schuschnigg e o próprio Adolf Hitler.

Trecho de artigo publicado no Valor Esonômico, 6/12/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – Sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk (Todavia, 256 págs.).

Duas novelas – A Ponte Flutuante dos Sonhos/Retrato de Shunkin, Junichiro Tanizaki (Estação Liberdade, 156 págs.).

Um filme obsoleto e bom – História de um Casamento, Noah Baumbach.

Um filme obsoleto e médio/ruim – Um Dia de Chuva em Nova York, Woody Allen.

Um documentário – Diego Maradona, Asif Kapadia.

Fim de semana

Um ensaio – Susan Sontag por A.O. Scott (aqui).

Outro – Ansiedade e remédios por Sasha Frere-Jones (aqui).

Um documentário – Bikram, Eva Orner.

Uma mostra pequena/derivada – William Blake, Casa das Rosas.

Um disco – MTV Unpluged, Courtney Barnett.