Michel Laub

O jogo do futuro

Numa passagem de O Filho Eterno, romance autobiográfico sobre o pai de um portador da Síndrome de Down (Record, 222 págs.), o narrador de Cristovão Tezza conta como enxergou um ponto de maturidade possível numa criança que parecia viver um presente contínuo e circular. “O menino sente muita dificuldade para aceitar mudanças de rotina”, diz ele, que trata a si mesmo na terceira pessoa. “O pai terá de obrigá-lo a assistir a algo novo (…) até que descubra que a novidade pode ser interessante.”

Nesse universo repetitivo e por vezes árduo, o filho acaba descobrindo um estímulo inusitado no futebol. Torcer pelo Athletico-PR traz vantagens, entre elas a chance de socializar com outros torcedores e um esboço de aprendizado de leitura – ele consegue reconhecer nomes de times, digitá-los para baixar os hinos em mp3. A maior mudança, contudo, vem da relação que o esporte tem com o tempo, uma abstração que para o personagem era inatingível até aquele momento: “As partidas (…) já não são mais eventos avulsos, sem relação entre si; pela noção de torneio, finalmente a ideia de calendário entra na sua cabeça; como na Bíblia, o mundo se divide entre partes que se sucedem até a Batalha Final”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 16/10/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Meu Anjo da Guarda tem Medo do Escuro, Charles Simic (Todavia, 112 págs.).

Um documentário – Professor Polvo, James Reed e Pippa Ehrlich.

Um filme de 2013 – Museum Hours, Jem Cohen.

Uma entrevista – Mayrton Bahia (aqui).

Um disco – Tocar em Flores Pelado, Gabrre.

Algo que não foi feito ainda

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro “Verdade Tropical” (1997). Um de seus capítulos, “Narciso em Férias”, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 13/11/2020. Íntegra aqui.

Ordem à bala

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – The Death of Jesus, JM Coetzee (Vintage, 199 págs.).

Uma releitura – 234, Dalton Trevisan (Record, 128 págs.).

Um artigo – Rebecca Mead sobre Artemisa Gentileschi (aqui)

Um filme – Babenco, Barbara Paz.

Um disco – Vida Amorosa que Segue, Lulina.

Fim de semana

Um livro – A República das Milícias, Bruno Paes Manso (Todavia, 298 págs.).

Uma releitura – Narciso em Férias, Caetano Veloso (Companhia das Letras, 168 págs.).

Um artigo – Casey Cep sobre Faulkner e racismo (aqui).

Uma entrevista – Benjamin Teitelbaum sobre direita e tradicionalismo (aqui).

Um filme datado – On the Rocks, Sofia Coppola.

Fim de semana

Um livro – A Cruzada das Crianças, Marcel Schwob (34, 73 págs.).

Outro – Discurso sobre o Colonialismo, Aimée Césaire (Veneta, 132 págs.).

Uma série média – O Gambito da Rainha.

Uma série divertida – Pretend it’s a City.

Um filme meio ruim – Kung Fu Master, Agnès Varda.

Fim de semana

Um disco – Cleo, Charlotte dos Santos.

Um podcast – Retrato Narrado, Carol Pires.

Um romance – O Avesso da Pele, Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 192 págs.).

Um filme – Mank, David Fischer.

Uma exposição que fechou – Anna Mazzei, Jaqueline Martins.

‘Solução de dois Estados’ – entrevistas, matérias, resenhas

(Atualizado até abril/2021)

– Matéria/entrevista à Folha de S.Paulo, por Walter Porto: http://encurtador.com.br/nzBIR

– Matéria/entrevista ao Valor Econômico, por Cadão Volpato: http://encurtador.com.br/zHIJL

– Entrevista ao Estado de São Paulo, por Guilherme Sabota: http://encurtador.com.br/lmnsX

– Entrevista ao Globo, por Ruan S. Gabriel: http://encurtador.com.br/jpGQT

– Entrevista ao Estado de Minas, por Carlos Marcelo: https://encurtador.com.br/gkwOQ

– Entrevista ao Provocações/TV Cultura, por Marcelo Tas: https://encurtador.com.br/BMQUX

– Entrevista ao Arte 1, por Flavia Gondor: https://encurtador.com.br/tvGO4

– Entrevista à Eldorado FM, por Igor Müller: https://encurtador.com.br/rCHS5

– Entrevista ao podcast da Bravo, por Almir de Freitas: http://encurtador.com.br/UWX09

– Entrevista ao podcast da Companhia das letras, por Paulo Júnior: http://encurtador.com.br/FOYZ6

– Entrevista ao podcast Cinco Minutos de Literatura, por Ieda Oliveira: https://encurtador.com.br/gAHNS

– Entrevista à Fundação do Livro de Ribeirão Preto, por João Borda: http://encurtador.com.br/fpDS9

– Entrevista à Livraria da Vila, por Samuel Seibel: http://encurtador.com.br/dhmIU

– Entrevista ao Correio Braziliense, por Nahima Maciel: http://bit.ly/3nLl0cQ

– Entrevista no Headline, por Mario Camera: https://cutt.ly/XkpWG7Y

– Resenha na Quatro Cinco Um, por Leyla Perrone-Moisés: https://encurtador.com.br/jmpw7

– Resenha na Piauí, por Alejandro Chacoff: https://encurtador.com.br/hmzMN

– Resenha na Folha de S. Paulo, por Adriano Schwartz: http://encurtador.com.br/dsxz7

– Resenha no Estado de Minas, por Sérgio de Sá: https://encurtador.com.br/gkwOQ

– Resenha na Zero Hora, por Cintia Moscovich: https://encurtador.com.br/BJUV7

– Resenha no Farofará/Carta Capital, por Zema Ribeiro: https://encurtador.com.br/bfmnI

– Resenha na Dystopia, por Octávio Reis: https://cutt.ly/Cj1uL0n

– Resenha no Resenha de Bolso, por Mateus Baldi: https://shorturl.at/cpHKY

– Resenha na Coluna do Fefito (UOl), por Fernando Oliveira: cutt.ly/mj1wfzr

– Resenha na Subjetiva, por Thais Campolina: https://shorturl.at/hsP48  

– Resenha no Livros que eu Li, por Aguinaldo Severino:  https://t.co/c6dRBTZLqf?amp=1

– Resenha no Estante do Justo, por Luis Justo: https://cutt.ly/zlfYp9n

– Resenha na Brasil – Brazil, por Maria Bonatto Malka: https://cutt.ly/0xSBMe0

– Resenha no Rascunho, por Luiz Paulo Faccioli: cutt.ly/mlz1tVa

– Resenha no Mundo de K, por Alexandre Kovacs: https://:encurtador.com.br/jmswY

– Resenha no Rizzenhas, por Taize Odelli: https://encurtador.com.br/lGIMQ

– Resenha no Escotilha, por Jonatan Silva: https://encurtador.com.br/ouKS5

– Resenha na Folha de Londrina, por Marcos Losak: https://encurtador.com.br/hptzD

– Resenha no Celula Pop, por Debora Consíglio (https://encurtador.com.br/adoBW)

– Resenha no Psicologia dos Psicólogos, por Felipe Stephan Lisboa: https://encurtador.com.br/crFJ5

– Resenha no Jornalismo Júnior, por Guilherme Gama: https://encurtador.com.br/auzEW

– Resenha no Persona, por Isabella Siqueira: https://cutt.ly/jkpQGQe

– Resenha no Mãe Literatura: http://encurtador.com.br/yBMS3

– Resenha no podcast Leituras.org, por André Aguiar: https://cutt.ly/rkjOMCm

– Resenha no Fala pra Camões, por Ju Palermo (vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=kJWQ-2pSpvY

–  Resenha no Seleção Literária, por Darwin de Oliveira (vídeo): https://cutt.ly/ybHllgj

– Resenha no Livrada!, por Yuri Al’Hanati (vídeo): https://encurtador.com.br/csDS0

– Resenha no Literatura Fora de Caixa (vídeo): https://encurtador.com.br/ajnNY

– Resenha no Livrada!, por Yuri Al’Hanati (vídeo): https://encurtador.com.br/csDS0

– Resenha no Acrópole Visitada, por Luigi Ricciardi (vídeo): http://shorturl.at/cmCJ9

– Resenha no Admirável Mundo Livro, por Carlos André Moreira (vídeo): http://encurtador.com.br/fmVX9

– Resenha no Acontece nos Livros, por Whishner Fraga (vídeo): http://encurtador.com.br/HKNUY

– Resenha no Abstração Coletiva, por Luana Werb (vídeo): http://encurtador.com.br/pxMPR

– Resenha na CBN Recife, por Ney Anderson: http://encurtador.com.br/kyBRY

– Listas de fim de ano na Revista Bula (http://encurtador.com.br/zAHR7), Scream and Yell (https://cutt.ly/1kpEoKI), Época/Mateus Baldi (https://encurtador.com.br/bcgT9) Escotilha/Jonatan Silva (https:// encurtador.com.br/distu), Plural/Cristovão Tezza (https://encurtador.com.br/kG569), Mundo de K/Alexandre Kovacs (http://encurtador.com.br/bdS37) Jardim Bizarro/Santiago Nazarian (https://encurtador.com.br/npSZ0), BuzzFeed/Gaía Passarelli (http://encurtador.com.br/hLMN8), Zero Hora/Alexandre Lucchese (https://encurtador.com.br/uENU6), Livrada!/Yuri Al’Hanati (https://encurtador.com.br/cwKQX), Steel the Look/Giulia Coronato (https://encurtador.com.br/bjv17), São Paulo Review (https://encurtador.com.br/bejqH), CBN Recife/Ney Anderson (https://encurtador.com.br/hrCHR), Julia Stallone/Medium (https://encurtador.com.br/dlDK0)

– Textos nas redes (Instagram, Facebook, Twitter): Rafa Gurgel (https://encurtador.com.br/elBGK), Rosa Amanda Strausz (https://encurtador.com.br/eRT06), Manuela Dávila (https://encurtador.com.br/uzQRU), Literatura Fora da Caixa (https://encurtador.com.br/tY279), Livia Piccolo (https://encurtador.com.br/hlQ12), Celso Rocha de Barros (https://twitter.com/NPTO/status/1377801389682921477), Pedro Pacífico/Bookster (https://encurtador.com.br/ntv01), Alilendounslivros/Aline Teixeira (http://shorturl.at/hsP48), Lucas Verzola (https://encurtador.com.br/gksD2), Daniel Mitidiero (https://encurtador.com.br/oBPQ3), Bruno Seixas (https://encurtador.com.br/jFHY6), Centelha Literária (https://encurtador.com.br/erwzR), Canal Palavrão (https://encurtador.com.br/nuFV8), Vinicius Rangel/Vinil23 (https://encurtador.com.br/nuQZ2), Leitor Um (https://encurtador.com.br/gknpQ), Marcos de Queiroz (https://encurtador.com.br/guKX1), revista Poder (https://encurtador.com.br/pzNQT), Laura Folgueira (https://encurtador.com.br/wFQ25), literatice (https://encurtador.com.br/ituW1), Roger Rocha (https://encurtador.com.br/tuGKR), Ricardo Buso (https://www.instagram.com/p/CJmG9LPB2sG/), Miguel Del Castilho (https://encurtador.com.br/aoBL6), Marcelo da Silva Antunes (https://www.instagram.com/p/CJtNTm7HxPh/), William Dahmer (https://www.instagram.com/p/CJ1e1nalTcN/), Vinicius Rodrigues (http://encurtador.com.br/flpsG), Literatura Prosa Verso (http://encurtador.com.br/giMY2), Livro Bordado (https://www.instagram.com/p/CKZyxvbDZAx/), Minimalivro (https://www.instagram.com/p/CKXF6JUjPHm/), Obibliofago (https://www.instagram.com/p/CKulOkdDgBW/), leiturasorg (https://www.instagram.com/p/CK2RSdJjc4f/), Sommelierliterario (https://www.instagram.com/p/CK5GlshDJ5R/), Cicero Robson (https://www.instagram.com/p/CLaQepFluOy/), Livros a dois (https://www.instagram.com/p/CMF_ASnBI9v/), Leticia Ribeiro Paiva (https://www.instagram.com/p/CJMFoa8h34Q/), Ingrid Leal (https://www.instagram.com/p/CMQQ0ZppXio/), Júlia de Aquino (https://www.instagram.com/p/CMQQ0ZppXio/), Prosa e Proust (https://www.instagram.com/p/CMzXX0RBFaB/), Juliane Durão (https://www.instagram.com/p/CM8F12UMoUI/), Camila Marim (https://www.instagram.com/p/CMXFpB7AbSi/), Aline T.K.M. (https://www.instagram.com/p/CNAmz9WjM_E/), Thais Porto (https://twitter.com/gdpthais/status/1363925043034660871), Leandro Godinho (https://twitter.com/petitgodin/status/1362099184841748480),

– Live de lançamento do livro, no canal da Companhia das Letras, com Luiz Schwarcz e Emilio Fraia: http://encurtador.com.br/arLV8

– Páginas do livro + resenhas na Amazon (https://encurtador.com.br/HOPS4), Goodreads (https://encurtador.com.br/jKV15), Skoob (https://encurtador.com.br/byO03)

Solução de dois Estados – orelha, trecho, pré-venda

Uma cineasta alemã marcada por um trauma prepara um documentário sobre a violência brasileira. Os principais entrevistados são dois irmãos: Raquel, artista de cento e trinta quilos cujo trabalho se baseia em episódios que a levaram a detestar o próprio corpo, e Alexandre, empresário que atua no ramo fitness na periferia de São Paulo. Ambos foram escolhidos por causa da repercussão mundial de uma agressão que Raquel sofreu, no início de 2018, durante um debate sobre arte e política num hotel da capital paulista.

Diante das câmeras, os segredos dessa história íntima que envolve bullying de adolescência, uma disputa por herança e diferentes visões sobre temas como sexo, religião e responsabilidade individual são pontuadas por flashes da história recente do país – do Plano Collor, que iniciou a ruína da família dos protagonistas, às vésperas de uma eleição que mobilizou o ódio de uma sociedade profundamente dividida.

Confrontadas por uma entrevistadora próxima e distante do ressentimento exposto, as versões dos irmãos reproduzem a linguagem e a dinâmica de um impasse moral do nosso tempo – aquele causado pelo fim das fronteiras entre público e privado, aparência e essência. É a partir daí que surge a pergunta central do livro, elaborada no tom provocativo da obra recente de Michel Laub: a ideia de conciliação – ou de perdão – é inimiga ou aliada da barbárie em que nos metemos?

Trecho de Solução de dois Estados.

Links para pré-venda: Amazon, Livraria da Vila, Livrarias Curitiba, Americanas. Em breve o romance estará também nas livrarias de bairro (prestigie).

Fim de semana + quarentena (36)

Uma série – História da Alimentação no Brasil, Eugênio Puppo.

Um podcast – Praia dos Ossos, Branca Vianna e Flora Thomson-Deveaux.

Um disco – Every Bad, Porridge Radio.

Um texto – Paulo Scott sobre André Penteado e a Revolução Farroupilha (aqui).

Um posfácio – Thomas Pynchon na nova edição de 1984 (Companhia das Letras, 408 págs.).

Fim de semana + quarentena (35)

Uma reprise – Heat, Michael Mann.

Outra – Wag the dog, Barry Levinson.

Um vídeo – Sordid Scandal, Amalia Ulman (aqui).

Um texto – JP Cuenca sobre a nostalgia dos blogs (aqui).

Um livro – Canções de Atormentar, Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.).

Fim de semana + quarentena (34)

Uma coletânea – [para o meu coração num domingo], Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 338 págs.).

Um texto de 1906 – Mario de Lima Barbosa sobre Machado de Assis (aqui).

Uma entrevista – Newton Bignotto sobre ideias, facções e o Brasil (aqui).

Um filme – Dark Waters, Todd Haynes.

Um documentário com uns problemas – O Dilema das Redes, Jeff Orlowski.

Fim de semana + quarentena (33)

Um documentário – Narciso em férias, Ricardo Calil e Renato Terra.

Um filme – Estou pensando em acabar com tudo, Charlie Kaufman.

Uma página de poesia – Arcas de Babel (aqui)

Uma série de imagens – Quem te fala é uma morta, Juliana Bernardino (aqui).

Um video – Pedro França sobre gifs (aqui).

Egopress

– Meu novo romance, Solução de dois Estados, sai em outubro pela Companhia das Letras. Nas próximas semanas postarei capa, orelha, trechos e links de pré-venda.

– Depois dos vestibulares da UFRGS e da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), Diário da Queda agora é leitura indicada do vestibular da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Aqui, participação minha no Festival de Finos Filmes do MIS, numa mesa sobre arte e memória com Christiane Jatahy, Silvana Bahia e Rita Mattar.

Aqui, conversa minha com Iarema Soares numa live da TAG sobre literatura e autoritarismo.

Aqui, texto que escrevi a partir de uma fotografia na série Primeira Vista, do Instituto Moreira Salles.

Fim de semana + quarentena (32)

Uma reprise – O Sétimo Selo, Bergman.

Outra – The Mosquito Coast, Peter Weir.

Uma releitura – Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 336 págs.).

Um artigo – Os truques dos romances de ideias, por Sianne Ngai (aqui).

Outro – Como o sensacionalismo influenciou a religião, por Fabio Marton (aqui).

Fim de semana + quarentena (31)

Uma história – Israel x Emirados Árabes no The Daily.

Um artigo – Henry Kissinger por Thomas Meaney (aqui).

Um doc a favor – Axé, Chico Kertész.

Um disco de 2018 – Record, Tracey Thorn.

Uma nova edição – Herdando uma Biblioteca, Miguel Sanches Neto (Ateliê, 192 págs.).

‘Por que você está chorando?’

Toda vez que surge um tabu na arte, surge também uma transgressão. Sempre penso nisso quando ouço críticos implicando com o uso do off (ou do voice over) no cinema. Segundo a teoria, a voz acima ou fora da cena é uma espécie de muleta, um atalho vulgar para roteiristas/diretores que deveriam preferir a sofisticação dos recursos visuais – ou então a dramaturgia das falas dos atores, que só funcionaria acompanhada pela expressividade dos seus gestos.

Uma das minhas graphic novels preferidas, Fun Home, da americana Alison Bechdel (Todavia, 234 págs, tradução de André Conti), pode ser lida como uma resposta a esse clichê. A trama, sobre a relação tumultuada da autora com o pai e a própria sexualidade, é dividida entre os desenhos e longas e frequentes legendas externas aos balões de diálogo, o que no universo dos quadrinhos equivaleria ao off/voice over de um filme.

Bechdel sabe, no entanto, que a questão não é o uso do recurso xis ou ípsilon em si. Uma legenda pode ser apenas reiteração ou oferecer ao leitor uma nova camada de sentido. Em Fun Home há uma variação constante entre gravidade e leveza, muitas vezes na mesma cena. Quando o desenho flagra a banalidade do cotidiano, por exemplo, o texto a colore com citações de alta literatura. Quando o texto descreve momentos trágicos, o traço sugere uma ironia carinhosa em cima de personagens doces.

Fun Home é uma das referências que me vieram à cabeça ao ler Bezimena, de Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs., tradução de Claudio R. Martini). À semelhança do livro de Bechdel, a história parte de um componente biográfico sombrio, exposto pela autora num posfácio. Em 1988, aos 15 anos, na cidade sérvia de Aleksinac, durante a ascensão do nacionalismo que desaguaria na Guerra da Bósnia (1992-1995), ela sofreu uma tentativa de estupro com a conivência (ou o auxílio ativo) de uma colega de escola.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (30)

Um perfil – Lorenzo Mammì por Rafael Cariello, na Piauí.

Um podcast – Agora, agora e mais agora, no Público.

Um vídeo – Lygia Clark por vários artistas (aqui).

Uma reprise de 2016 – Hypernormalisation, Adam Curtis (aqui).

Um livro de 1994 – Afirma Pereira, Antonio Tabucchi (Cosac Naify, 160 págs.).

A terra e os ossos

A palavra exata sempre foi uma arma política. Uma batalha de opinião pública começa a ser vencida quando definimos alguém como militante ou terrorista. O mesmo se dá com a memória coletiva: existem disputas sobre como chamar o processo industrial de extermínio dos judeus na Segunda Guerra (Holocausto ou Shoá), sobre o nome do horror na Ruanda de 1994 (o equivalente local para “massacre” ou “massacre absoluto”), sobre a aplicação do termo “genocídio” ao que ocorreu com os armênios em 1915 ou segue ocorrendo com os povos indígenas brasileiros.

É claro que só esse debate não previne a violência. Mas sua pertinência reafirma o poder da linguagem – e, logo, da ficção – no diálogo entre verdade histórica e sensibilidade individual, condição para um futuro que aprenda com os crimes políticos do passado. Dá para ler Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia, 264 págs.), sob essa chave: o impacto do romance, que expõe as feridas da herança escravocrata na trajetória de duas irmãs no sertão baiano, num enredo que inclui um trauma de infância, misticismo afro-brasileiro, disputa de terras e luta sindical, é antes de mais nada um feito narrativo, estético.

O livro saiu no ano passado, depois de ganhar o prêmio Leya de literatura (que contempla textos inéditos) e ser publicado com sucesso em Portugal. Nascido em Salvador, em 1979, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, Itamar foi apresentado na imprensa brasileira como a raridade sociológica que de fato representa: um autor negro em meio a uma literatura majoritariamente produzida por nomes da classe média branca, que falam de temas ligados ao seu entorno – ou que, quando se propõem a sair dele, com frequência o fazem com um olhar próximo do exotismo e/ou paternalismo.

O triunfo de Torto Arado, porém, não existiria sem um manejo formal do tema para além do que já se sabe via noticiário ou militância. Esse é sempre um ponto delicado quando se faz ficção a quente, sobre algo que está no centro do debate do dia-a-dia. Enquanto algumas frases poderiam estar num post genérico sobre a situação dos quilombolas no Brasil (“passaram a entender por que ainda sofriam preconceito no posto de saúde, no mercado”), em outras a especificidade faz o livro ganhar força: “Morreu depois de comer uma sariema no desespero da fome; a ave tinha comido uma cascavel e sua carne estava impregnada do veneno.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (29)

Um livro – A Fonte da Autoestima, Toni Morrison (Companhia das Letras, 456 págs.).

Um podcast – James Baldwin no Open Source.

Uma série de fotos – A infância de J.M. Coetzee (aqui).

Uma entrevista – Emicida (aqui).

Outra – Deise Ventura sobre Bolsonaro e genocídio (aqui).

Fim de semana + quarentena (28)

Uma antologia – Poesia +, Edimilson de Almeida Ferreira (Ed 34, 382 págs.).

Um artigo – Trótski no meio das árvores (aqui).

Uma reprise – Arca Russa, Alexandr Sokurov.

Uma conversa sobre Internet – Fernanda Bruno e Sergio Amadeu no Tecnopolítica.

Outra – Vera Magalhães, Patrícia Campos Melo, Marlos Ápyus e Pablo Ortellado (aqui)

Fim de semana + quarentena (27)

Um romance – Dept. of Speculation, Jenny Offill (Knopf, 192 págs.).

Uma reprise – O Apocalipse de um Cineasta, Eleanor Coppola.

Um vídeo de 1995 – Why I Never Became a Dancer, Tracey Emin (aqui).

Uma conversa de 2016 – Nick Pileggi, Irwin Winkler and Edward McDonald sobre Goodfellas (aqui).

Um debate – Caetano Galindo e Antônio Xerxenesky sobre Ulisses (aqui).

Sobre oficinas literárias

1.

Há um romance de Agatha Christie, cujo nome não direi para não estragar a surpresa dos interessados, cuja história é contada pelo próprio assassino. Reli-o na quarentena, mais de três décadas depois de sofrer o impacto de seu desfecho pela primeira vez, e foi curioso voltar a algo tão decisivo na minha vida de leitor (e, logo, de escritor): a descoberta do narrador inconfiável.

Claro que Agatha Christie não inventou nada. É provável que ela conhecesse alguns dos mestres modernos no uso do expediente, como Henry James ou Ford Madox Ford (no Brasil, o grande exemplo ainda é o do Machado de “Dom Casmurro”). Mas não importa. Diluído ou não, o achado de reproduzir ficcionalmente o que parece uma obviedade do nosso dia-a-dia – a possibilidade de desconfiarmos de interlocutores – me abriu a porta para uma das riquezas da literatura: a de ampliar os sentidos do discurso, fazendo avançar inteligência e sensibilidade por meio da nuance, da ironia no sentido amplo do termo.

2.

Uma segunda descoberta de adolescência, igualmente óbvia, mas não tanto, surgiu na leitura de “O Cobrador”, de Rubem Fonseca: a força que a ficção ganha ao nos pôr na cabeça de personagens radicalmente diferentes de nós. Uma coisa é nos identificarmos com os tipos edificantes, mesmo em seu eventual anti-heroísmo, dos romances juvenis. Outra é ler uma história contada por um pistoleiro (“Encontro no Amazonas”), um pedófilo (“Pierrô da Caverna”), um estuprador (o conto título do livro).

As ações de criaturas assim nos causam repulsa, sem dúvida, mas existe um efeito ambíguo no modo como elas chegam a nós. O bom uso da primeira pessoa nos faz grudar na perspectiva de quem fala, o que nos obriga a acompanhar ativamente – se essa é a expressão certa – a lógica interna dessa psicologia. A ambivalência é como um teste para os nossos limites éticos, nosso pudor em ter contato com o que preferíamos não saber. Sendo otimista quanto a um possível papel social da ficção, que surge a partir da consciência individual de cada leitor, é como se o jogo de aderência e distância daquilo que é narrado fizesse avançar a compreensão que temos do mundo e de nós mesmos, nos tornando seres mais complexos – e, nos termos desse mesmo otimismo, seres melhores.

3.

A primeira pessoa é apenas um dos exemplos de como a técnica literária pode ser uma questão moral. É ingênuo separar a forma de um texto e os efeitos possíveis de sua recepção, acreditando na inspiração ignorante das ferramentas que a expressam na página. Felizmente, a maioria dos que começam a escrever hoje sabe que não vai a lugar nenhum sem conhecer a carpintaria do ofício. Esse aprendizado pode ser feito em anos de leitura solitária, mas há como apressar o processo.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 24/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (26)

Uma entrevista – Thomas Chatterton Williams sobre cultura do cancelamento (aqui).

Um disco – Folklore, Taylor Swift.

Uma série documental – Em Nome de Deus.

Uma série documental ok – Nova York contra a Máfia.

Um festival online – Penguin 10 anos.

Assim é se parece

“Nosso mundo (…) simplifica as discussões sobre moralidade, mas dificulta a verdadeira moral.” “O discurso sobre justiça chama muito mais a atenção do público do que os próprios fatos que exigem justiça”. “As eleições de 2016 (…) [mostraram] que as piores coisas da Internet estavam agora moldando, e não mais refletindo, as piores coisas da vida off-line.”

São frases de Falso Espelho, da jornalista e ensaísta Jia Tolentino (Todavia, 368 págs., tradução de Carol Bensimon), coletânea de ensaios que pode ser lida como uma variante híbrida de autobiografia: cada fato pessoal descrito, como participar de um reality show em Porto Rico ou frequentar uma igreja em Houston, diz algo sobre a cultura de nossa época. Assim como os fenômenos culturais analisados – de livros e filmes a hábitos de consumo, padrões estéticos femininos, drogas, linguagem – são transformados pelos filtros bastante particulares da autora.

No conjunto, Jia parece se guiar por uma citação que faz da filósofa italiana Adriana Cavarero, tão óbvia quanto verdadeira: “A identidade não é o que possuímos de forma inata e então revelamos, e sim algo que compreendemos por meio das narrativas que nos são fornecidas por outras pessoas.” Como essas versões alheias refletem um tempo que borrou as fronteiras entre aparência e essência, é lógico que o “eu” tenha se tornado também precário, feito de paradoxos que numa existência ética geram um autoexame constante.

Jia tem 32 anos, nasceu no Canadá e foi criada nos Estados Unidos. Seus pais eram imigrantes filipinos que a matricularam em escolas privadas de qualidade, o que ajudou uma trajetória brilhante em publicações como o site Jezebel e a revista The New Yorker. O autoexame em Falso Espelho se baseia, em parte, nessa questão de origem: a autora com frequência oscila entre a expressão de uma voz de privilégio – afinal, ela encarna o tipo que David Foster Wallace chamava de “obscenamente bem-educado” num contexto de miséria global – e a de quem consegue ver o problema de fora – como mulher, como não-branca, como participante da vida intelectual num período marcado pela barbárie.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 11/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (25)

Um romance – Torto Arado, Itamar Vieira Júnior (Todavia, 264 págs.).

Um podcast – Romance Versus Realism, TLS.

Uma trilha de 1974 – Space is the Place, Sun Ra.

Um artigo – Anne Applebaum sobre homofobia nas eleições polonesas (aqui).

Um documentário médio – Mapplethorpe: Look at the pictures, Fenton Bailey e Randy Barbato.

Fim de semana + quarentena (24)

Uma série – Jeffrey Epstein: Filthy Rich.

Um filme – Mapplethorpe, Ondi Timoner.

Um documentário – Andy Irons: Kissed by God, Steve Jones e Todd Jones.

Uma palestra – Jorge Coli sobre pintura e realismo no Brasil (aqui).

Uma graphic novel – Bezimena, Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs.).

Fim de semana + quarentena (23)

Um perfil de 2019 – Alan Dershowitz por Connie Bruck (aqui)

Um ensaio fotográfico – Glastonbury por Martin Parr (aqui).

Um livrinho – As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla (Planeta, 96 págs.)

Um curta – Luis Humberto: o Olhar Possível, Mariana Costa e Rafael Lobo.

Um documentário – Nomad, Werner Herzog.

Egopress

– Nesta sexta, 3/7, às 18h, participo de uma das mesas do Festival de Finos Filmes, no FB do MIS/SP, com Christiane Jatahy, Silvana Bahia e Rita Mattar. Programação completa: www.shorturl.at/qzJUX

– Vídeo do debate que participei no fórum sobre imagem digital e memória no site do IMS: www.shorturl.at/benGN

– Texto que publiquei sobre a quarentena, o Brasil atual e a literatura no site da Fundação Passa Porta, de Bruxelas. Ao final, em vídeo, um debate do qual participei durante uma residência na Fundação, em outubro/novembro de 2018.  www.shorturl.at/qtAU9