Michel Laub

Fim de semana

Uma releitura – O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Companhia das Letras, 158 págs.)

Um filme ruim – The Green Book, Peter Farrelly.

Outro – Velvet Buzzshow, Dan Gilroy.

Um disco – Crushing, Julia Jacklin.

Um podcast de 2018 – João Silvério Trevisan e a história LGBTQ no Brasil (aqui).

Anúncios

Um anel no chão do cinema

Isabela Figueiredo em Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 184 págs.), sobre a infância como filha de um eletricista português em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique:

“A enorme sala do Cine Machava dividia-se em três zonas bem definidas: bancos corridos de pau, à frente: primeira plateia; bancos individuais estofados, até ao fundo: segunda plateia; empoleirados metro e meio acima da última fila da segunda plateia, os camarotes, todos forrados a veludo vermelho, luxo dos luxos, só ocupados quando o filme era mesmo muito popular e a afluência o exigia. Filmes como O fado, A maluquinha de arroios. Cantinflas, Jerry Lewis e Trinitá enchiam camarotes.

Alguns negros iam ao cinema. Calçavam -se e vestiam roupa europeia remendada ou de imitação, costurada no caniço. Sentavam -se na primeira plateia, e, eventualmente, em dias pouco frequentados, na primeira fila da segunda plateia.

Não estava escrito em lado algum que os negros não tinham acesso normal à plateia ou ao balcão, mas raramente os vi ocupar essas zonas. Havia um entendimento tácito, não um acordo: os negros sabiam que lhes cabia sentarem-se à frente, nos bancos de pau: os brancos esperavam que a pretalhada se juntasse aí, a falar aquela língua deles, olhando para trás a cobiçar a mulher do branco, mas devidamente sentados no banco que lhes pertencia.

Para os brancos, um preto, lá da primeira plateia, nunca olhava para trás por bons motivos. Ou lançava o amarelo do olho contranatura às brancas, ou procurava o que roubar, ou destilava ódio. De forma geral, no cinema ou fora dele, o olhar dos negros nunca foi, para os colonos, inocente: olhar um branco, de frente, era provocação; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.

(…)

Ao domingo à tarde íamos ao cinema. Eu levava um anel. Não gostava de anéis.

Os lugares da segunda plateia do Cine Machava assentavam sobre um plano inclinado. Tudo o que caía rolava até à primeira plateia, e ninguém lá iria sem propósito; era o lugar dos pretos.

Eu teria sete anos. Usava aquele anel. Detestava -o. Apertava-me os dedos e eu não gostava de cadeias.

Pensei em ver-me livre da horrível joia, e ocorreu-me uma ideia infalível, que executei na primeira oportunidade. No cinema, na escuridão, a meio do filme, num momento de maior barulho da trama em curso, maior suspense, tirei o anel do dedo e lancei-o, com o possível impulso, por debaixo dos cadeirões, para que rolasse, inapelavelmente, até à primeira plateia, e desaparecesse, para sempre, nas mãos dos negros, que haviam de lhe chamar um figo.

Num domingo, fi-lo, e respirei de alívio. Adeus, anel. Adeus, suplício. Adeus para sempre. Respirei fundo. Ajeitei-me na cadeira. Havia de dizer que o tinha perdido, que me estava largo, que me tinha caído do dedo sem notar. E depois, nada a fazer. Um anel era caro. Realmente. Mas, paciência. Eu era tão distraída! Sempre a mesma. Sem tino algum.

Nesse domingo comi um Quibom no intervalo. Estava contente. Ninguém reparou que já não tinha o anel.

Nesse dia, já terminava o intervalo, quando uma cena deveras invulgar prendeu a atenção da segunda plateia: um negro tinha saído do seu lugar, lá à frente, e avançava pelo corredor lateral esquerdo, perguntando algo, de fila em fila. O que queria o gajo? Andava a pedir dinheiro, de certeza. E, quando chegasse à nossa fila, ninguém lhe ia dar nada, já se sabia. Que trabalhasse. Não se dava dinheiro a negros, a menos que trabalhassem, e o que se desse seria pouco, para não se acostumarem mal. Quando chegou à nossa fila, pudemos distinguir -lhe, entre o polegar e o indicador direitos, um minúsculo anel dourado com uma pedra vermelha, enquanto perguntava, ‘Este anel é daqui?’.

Olharam para mim sem compreender, enquanto me esforçava por me enterrar na cadeira, desaparecer.

A minha mãe ainda guarda esse anel, em casa, na caixa dos ouros.”

Com o chicote da linguagem

Numa passagem de À Sombra dos Viadutos em Flor, seu livro de memórias recém-publicado (Sesi–SP, 143 págs.), o escritor, jornalista e músico Cadão Volpato narra uma conversa com um colega de trabalho que estava lendo A Menina Morta, de Cornélio Pena. “É um romance moderno”, o colega diz. “Nada acontece”. No que Cadão complementa, sem aspas, talvez se referindo à vida naquele início dos anos 1980, agora para o leitor de hoje: “E nada acontecia”.

A princípio, parece haver algo de errado na frase. Não dá para dizer que “nada acontecia” no período que mais ou menos coincide com a fundação do Fellini, uma banda independente e cultuada de São Paulo que tinha, além do próprio Cadão nos vocais, o baixista Ricardo Salvagni e os guitarristas Jair Marcos e Thomas Pappon. Era o início da redemocratização, com sua efervescência cultural e política tanto nos fatos públicos – da bomba no Riocentro à campanha das Diretas Já, do ocaso da censura ao boom da nova geração do rock – quanto nas expectativas, na imagem que o Brasil projetava para o próprio futuro social e institucional.

Mas essa estranheza é uma das qualidades do livro. Cadão não está falando apenas de um período histórico, nem apenas de uma banda de rock, nem apenas de um país. Toda boa autobiografia preserva a individualidade possível diante do que é mero contexto, ou mero clichê: o espírito do tempo sempre pronto para deformar a memória com imposições temáticas, ideológicas ou morais. Numa época em que o factual básico do passado está disponível online – há conteúdo interminável sobre a cultura brasileira dos 1980 no You Tube, por exemplo –, é preciso superar o pleonasmo de evocar um imaginário já bastante comum.

Trata-se de uma lição proustiana, a seu modo, que Cadão aproveita desde o título (uma brincadeira com À Sombra das Raparigas em Flor). Se a linguagem é naturalmente restrita ao evocar lembranças sensoriais e abstratas, que seja capaz de criar um objeto novo, cuja beleza também é nova. Sob as normas dessa reinvenção dá para dizer, sim, que o início da chamada década perdida foi tedioso – porque importa é a inquietude do autor diante do tédio, algo de sua personalidade e temperamento que não passa apenas por gatilhos externos. À diferença do que costumamos ver em histórias de roqueiros, nas quais o passado é sempre cheio de aventura e excessos, gerando anedotas divertidas sobre protagonistas e coadjuvantes então ou posteriormente famosos, o material de Cadão é menos direto, mais difícil de classificar.

Trecho inicial da minha coluna de estreia no Valor Econômico. Escreverei mensalmente sobre livros no caderno Eu&, que circula aos fins de semana. Íntegra do texto aqui, para quem é assinante ou fizer o cadastro.

Fim de semana

Um livro – Ricardo e Vânia, Chico Felitti (Todavia, 191 págs.).

Um filme – Brexit: the Uncivil War, Toby Haynes.

Um disco – Besta Fera, Jards Macalé.

Um disco de 2007 – The Glenn Gould Trilogy: a Life.

Um podcast – Wanderley Mendonça e João Varella no Tutano.

Fim de semana

Um filme – Leave no Trace, Debra Granik.

Outro – Vice, Adam McKay.

Um artigo – Ian Parker sobre as mentiras de Dan Mallory (aqui).

Um podcast – Maria Rita Kehl sobre Flaubert e Machado (aqui).

Um livro – O Espírito da Prosa, Cristovao Tezza (Record, 224 págs.).

Egopress

– No próximo dia 12, 20h, na FAAP/SP, participo de uma mesa sobre narradores de literatura e cinema com Joca Terron, Fernando Bonassi e Julia Priolli.

– Prova de literatura da UFRGS/2019, com uma questão sobre o Diário da Queda: https://tinyurl.com/ycjqszqw

– Artigo meu sobre oficinas literárias no Candido: https://tinyurl.com/yca6ekx3

– Artigo meu sobre a morte de Amós Oz no Globo: https://tinyurl.com/y9g7abdv

Telhados, névoa marrom, um sorriso

Manhã à Janela, de T.S.Eliot, em Prufrock e Outras Observações, que está na edição Poemas (Companhia das Letras, 438 págs, tradução de Caetano W.Galindo):

Eles batem pires nas cozinhas fundas,

Junto às bordas calcadas da rua

Percebo as almas úmidas das empregadas

Que brotam amuadas dos portões.

 

As vagas da névoa marrom me arremessam

Rostos contorcidos do fundo da rua

E arrancam da passante de saia enlameada

Um sorriso sem destino que flutua pelo ar

E some junto à linha dos telhados.

Fim de semana

Um filme – A Favorita, Yorgos Lanthimos.

Uma série meio TV Record – Trotsky.

Um artigo – Karen Weise sobre a nova publicidade da Amazon (aqui).

Uma novela – Enquanto os Dentes, Carlos Eduardo Pereira (Todavia, 96 págs.).

Uma memória – À Sombra dos Viadutos em Flor, Cadão Volpato (Sesi-SP, 143 págs.).

Jerusalém, guerra, Auschwitz

Poemas de Yehuda Amichai em Terra e Paz (Bazar do Tempo, 184 págs., tradução de Moacir Amâncio):

JERUSALÉM ESTÁ CHEIA DE JUDEUS USADOS – Jerusalém está cheia de judeus usados pela história,/ judeus de segunda mão, com leves defeitos, mais baratos./ O olho olha todo o tempo para Sion. Todos os olhos/ dos vivos e dos mortos são quebrados como ovos/ na beira da bacia para fazer uma/ cidade gorda e crescente// Jerusalém está cheia de judeus cansados,/ eles sempre são chicoteados nos memoriais e nas festas/ como ursos que dançam de dor nas patas.// Do que Jerusalém precisa? Ela não precisa de prefeito,/ ela precisa de um domador de circo, com o chicote na mão,/ para treinar profecias e ensinar profetas a galopar/ ao seu redor e ensinar as pedras a montar/ uma estrutura ousada e perigosa no último número.// Depois elas saltam para baixo, na terra,/ ao som de palmas e guerras./ O olho volta-se para Sion e chora.

O DIÂMETRO DA BOMBA – O diâmetro da bomba media trinta centímetros/ e o diâmetro da destruição, cerca de sete metros,/ nele, quatro mortos e onze feridos./ Ao redor, num círculo mais largo/ de dor e tempo há dois hospitais/ e um cemitério. Mas a jovem mulher,/ enterrada no local de onde viera/ à distância de mais de cem quilômetros,/ aumentou muito o círculo/ e o homem solitário que chora pela morte da moça/ no litoral de um país distante/ inclui o mundo inteiro no círculo./ Não direi nada sobre o grito dos órfãos/ que chega ao trono divino,/ e de lá abre o círculo/ até o infinito e o nada de Deus.

DEPOIS DE AUSCHWITZ – Depois de Auschwitz não há teologia;/ das chaminés do Vaticano sai fumaça branca,/ sinal de que os cardeais elegeram o seu papa./ Dos crematórios de Auschwitz sobe uma fumaça negra,/ sinal de que Deus ainda não decidiu sobre a escolha/ do povo eleito. Depois de Auschwitz não há teologia:/ os números nos antebraços dos prisioneiros do extermínio/ são os números do telefone de Deus,/ números dos quais não há resposta,/ agora eles estão cortados, um por um.// Depois de Auschwitz há uma nova teologia:/ os judeus que morreram na Shoá/ tornaram-se semelhantes ao seu Deus/ que não tem forma nem corpo./ Eles não têm imagem nem corpo.

(Outras versões e traduções de Amichai, por Millôr Fernandes: https://tinyurl.com/y7mvqayx)

Fim de semana

Uma edição – Poemas, T.S. Eliot (Companhia das Letras, 438 págs.).

Outra – Terra e Paz, Yehuda Amichai (Bazar do Tempo, 184 págs.).

Um disco de 1981 – La Folie, Stranglers.

Um filme – A Ilha dos Cachorros, Wes Anderson.

Outro – Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, Fernanda Pessoa.

Fim de semana

Uma releitura – Minha Razão de Viver, Samuel Wainer (Record, 282 págs.).

Um ensaio – Daniel Galera sobre literatura, filhos e o fim do mundo (aqui).

Uma série – Manhunt: Unabomber.

Uma série simpática – O Método Kominsky.

Um filme ruim – The Wife, Bjorn Rünge.

O ideólogo

Ruy Fausto sobre Olavo de Carvalho na Piauí de janeiro:

O exemplo que introduzo é o da utilização que [Olavo] faz do conceito de “ideologia” e em particular da sua tese, que circula por todo lado, de que “Bolsonaro não é ideólogo” (ele teria apenas “opiniões”) (…). Na realidade, temos aí um raciocínio vicioso, o que os lógicos chamam de “sofisma”, raciocínio que não visa a ensinar a verdade, mas sim a enganar o interlocutor (…).

De fato, “ideólogo” pode significar, entre outras coisas: 1) um sujeito que aceita grandes sistemas de pensamento, como o liberalismo, o socialismo, o comunismo etc.; 2) alguém que, sem ser cultor bastante coerente de um grande sistema como os citados, tem projetos políticos bem precisos e, mais do que isso, se engaja com muito entusiasmo na sua realização (claro que esses projetos têm a “aura” de ideias políticas, éticas ou religiosas, só que não se fundamentam num “grande sistema”).

É fácil mostrar que Bolsonaro não entra na categoria (1), pois ele não tem nada de teorizante, menos que isso, não tem coerência teórica necessária para que o consideremos como cultor de um grande sistema. Em compensação, encaixa-se bem na categoria (2): é alguém que tem projetos políticos precisos e se engaja com entusiasmo e até com fanatismo na realização deles (projetos que remetem, claro, a um certo número de ideias políticas, éticas ou religiosas, mas não propriamente a um “grande sistema”).

Essa é a situação. Bolsonaro é ideólogo no segundo sentido, mas não no primeiro. Ora, explicitamente, Olavo trabalha com o primeiro sentido, não com o segundo. Explica, por exemplo, que as ideologias são grandes sistemas, e a figura de Bolsonaro não se encaixa como alguém que os cultua. Só que, por baixo do pano, ele trabalha também com o segundo. De fato, o sentido “secreto” da insistência em dizer que “Bolsonaro não tem ideologia” não é o de que ele está alheio às grandes ideologias, mas o de que não seria um sujeito fanatizado por projetos políticos, éticos ou religiosos.

Ora, se a afirmação explícita é verdadeira (“Bolsonaro não é ideólogo”, no sentido de que não cultua grandes sistemas), a segunda afirmação, que fica implícita, mas representa a essência da sua intervenção (“Bolsonaro não é um ideólogo”, no sentido de que não tem um projeto político inspirado por preconceitos morais e religiosos etc.), é evidentemente falsa. Bolsonaro é, sim, um ideólogo, nesse segundo sentido. Ele tem um projeto político, iluminado por preconceitos morais e religiosos, e se engaja com empenho (e até com fanatismo) na sua realização.

Assim, Olavo vende gato por lebre. O leitor desavisado só se dá conta da frase explícita, mas é empurrado sem querer, pelo jogo dos significados, a aceitar a ideia implícita: “Bolsonaro não é perigoso, é um candidato no qual se pode confiar” etc.

Eis aí um bom exemplo, talvez o exemplo-chave, do discurso de Olavo de Carvalho, utilizado também por seus partidários. Uma deputada eleita o empregou para justificar uma eventual “renovação” da equipe de juízes do Supremo Tribunal Federal. Os atuais juízes, segundo ela, eram movidos por motivos “ideológicos”, por isso seria preciso substituí-los (…).

A prosa de Olavo de Carvalho é uma colagem de sofismas, do tipo citado ou de outro. Que um discurso assim possa servir a objetivos políticos é coisa tão velha como o mundo. Já ocorreu na época da sofística grega, embora nesse caso seja preciso levar em conta outros elementos (há variações importantes, de sofista a sofista, e o sofista não era apenas um ilusionista). Mas pode-se dizer que, se considerados como tipos ideais, há uma oposição entre os filósofos, os quais visam a verdade, e os sofistas, que pretendem iludir. Carvalho pertence essencialmente à categoria dos ilusionistas. E tem-se a impressão de que praticou tanto essa arte que, mesmo quando parece querer dizer a verdade, ele não consegue.

Ao analisar discursos neototalitários de esquerda, encontrei neles sofismas do mesmo tipo (ver sobre isso meus artigos na revista eletrônica Fevereiro). Isso não é casual. Tanto nesse caso como no de Olavo, há um afã de inverdade, um esforço por impingir ao interlocutor teses – de extrema direita ou de extrema esquerda totalitária – que são falsas. E, nos dois casos, é pela mídia que a enganação se propaga (…). Às vezes, no caso de Olavo, pelo menos, ela vem recoberta por uma camada de impropérios, o que, paradoxalmente, a torna mais atraente e mais deglutível para o grande público.

Fim de semana

Um livro – Como funciona o Fascismo, Jason Stanley (L&PM, 206 págs.).

Um disco – Piano & A Microfone, Prince.

Um filme – Roma, Alfonso Cuarón.

Uma exposição no IMS – Claudia Andujar.

Outra – Millôr.

Fim de semana

Um livro – Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo (Todavia, 184 págs.).

Outro – O Sonâmbulo Canta no Topo do Edifício em Chamas, Joca Terron (Pedra papel tesoura, 120 págs.).

Uma exposição em Fortaleza – Terra em Transe, Dragão do Mar.

Um filme médio – Bohemian Rhapsody, Bryan Singer.

Um documentário – Rolling Stones: Crossfire Hurricane, Brett Morgen.

Egopress

– Nesta sexta, 7/12, 18h, estarei no Fotofestival Solar, em Fortaleza, numa mesa com Joca Terron + lançamento do Anuário Todavia. Programação completa: https://goo.gl/HBHE8C

– A edição inglesa do Maçã Envenenada está na longlist do International Dublin Literary Award. https://goo.gl/14Hvnq

– Vídeo do evento que participei na Fundação Passa Porta, em Bruxelas, em novembro: https://goo.gl/zDFLbW

– Entrevista que dei para a Vice: https://goo.gl/FYPMzX

Mentiras de Médio Porte

Anne Applebaum na Piauí de novembro (tradução de Alexandre Morales):

“De George Orwell a Arthur Koestler, os escritores europeus do século XX ficaram obcecados com a ideia da Grande Mentira. Os vastos construtos ideológicos que eram o comunismo e o fascismo, os cartazes a conclamar fidelidade ao Partido ou ao Líder, os camisas-pardas e os camisas-negras marchando em formação, as passeatas à luz de tochas, o terror policial – essas Grandes Mentiras tão absurdas e desumanas requeriam que se impusesse violência prolongada e se mantivesse a ameaça de violência. Requeriam doutrinação, controle absoluto da cultura, politização do jornalismo, dos esportes, da literatura e das artes.

Em comparação, os movimentos políticos polarizados da Europa do século XXI demandam bem menos de seus adeptos. Não requerem crença numa ideologia amadurecida, de maneira que não requerem uso de violência ou terror policial. Não forçam pessoas a acreditar que preto seja branco, que guerra seja paz e que estabelecimentos agrícolas estatais atingiram 1.000% da produção planejada. A maioria deles não se vale de propaganda conflitante com a realidade cotidiana. Ainda assim, todos dependem, senão de uma Grande Mentira, daquilo que o historiador Timothy Snyder certa vez me disse que caberia denominar Mentira de Médio Porte, ou talvez de um punhado de Mentiras de Médio Porte. Em outras palavras, todos esses movimentos incitam seus seguidores a se ocupar, pelo menos em parte, de uma realidade alternativa. Por vezes essa realidade alternativa se desenvolve de forma orgânica; no mais das vezes é formulada meticulosamente, recorrendo a modernas técnicas de marketing, segmentação de audiência e campanhas na mídia social.

Os norte-americanos estão decerto familiarizados com os meandros pelos quais uma mentira pode intensificar uma polarização e inflamar a xenofobia: Donald Trump ingressou na política americana graças à falsa suposição de que o presidente Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos – uma teoria conspiratória cuja força foi gravemente subestimada na ocasião e que abriu caminho para outras mentiras, desde a dos “estupradores mexicanos” até a do “Pizzagate”. Só que na Polônia, bem como na Hungria, agora temos exemplos do que acontece quando uma Mentira de Médio Porte – uma teoria conspiratória – é propagada por um partido político inicialmente como o principal item de sua campanha eleitoral e, depois, na gestão do governo, com toda a força de um aparato estatal moderno e centralizado a sustentá-la.

(…)

A divisão que tem despedaçado a Polônia guarda uma semelhança impressionante com a divisão que cindiu a França na esteira do caso Dreyfus. O linguajar empregado pela direita radical europeia – o chamado à “revolução” contra as “elites”, as fantasias de violência “purificante” e de um conflito cultural apocalíptico – é sinistramente semelhante ao linguajar outrora empregado pela esquerda radical europeia. A presença de intelectuais descontentes – gente para quem as regras não são justas e as pessoas erradas são influentes – nem é exclusivamente europeia. O escritor venezuelano Moisés Naím visitou Varsóvia poucos meses depois que o Lei e Justiça chegou ao poder. Pediu-me que descrevesse os novos dirigentes polacos: Pessoalmente, como eram? Enumerei alguns adjetivos: “raivosos”, “vingativos”, “rancorosos”. “Parecem”, ele disse, “ser iguaizinhos aos chavistas.”

Na verdade, a discussão sobre quem deve governar nunca termina, sobretudo numa era em que se rejeitou a aristocracia e deixou-se de supor que a liderança seja herdada do berço ou que a classe dominante seja endossada por Deus. Alguns de nós, na Europa e na América do Norte, temos optado pela ideia de que variadas formas de competição democrática e econômica sejam a alternativa mais correta ao poder legado ou imposto.

Contudo, não deveríamos nos assombrar – eu não deveria me assombrar – quando os princípios da meritocracia e da competitividade são contestados. Afinal de contas, regimes democráticos e livres mercados podem gerar resultados insatisfatórios, especialmente quando mal regulados, ou se ninguém confia nos reguladores, ou ainda quando agentes ingressam na disputa a partir de pontos de partida muito distintos. Mais cedo ou mais tarde os perdedores contestarão o mérito da competição em si.

Mais precisamente, mesmo quando incentivam o talento e geram mobilidade ascendente, os princípios da competitividade não necessariamente resolvem questões mais profundas sobre identidade nacional ou atendem o desejo humano de integração a uma comunidade moral. O regime autoritário ou mesmo o semi-autoritário – o regime de partido único, antiliberal – propiciam essa esperança: de que a nação será conduzida pelas melhores pessoas, as que merecem mandar, os quadros do partido, os que acreditam na Mentira de Médio Porte. Para tanto pode ser preciso subjugar a democracia, corromper a atividade empresarial ou arrasar o sistema judiciário. Mas nada disso é impossível para quem julga estar entre os que merecem mandar.”

Fim de semana

Um filme – A Balada de Buster Scruggs, irmãos Coen.

Outro – A Casa que Jack Construiu, Lars Von Trier.

Um podcast – Mauricio Stycer e Alexandra Moraes sobre Silvio Santos (aqui).

Um artigo – Saul Bellow e a autobiografia (aqui).

Um livro – Kafkianas, Elvira Vigna (Todavia, 128 págs.).

Fim de semana

Um livro – The Vegetarian, Han Kang (Portobello, 216 págs.).

Um artigo – Anne Applebaum sobre a democracia na Polônia e no mundo (aqui).

Uma exposição em Bruxelas – Beyond Klimt, Bozar

Uma em Londres – Chineses e Mao, Omer Tiroche.

Outra – Bob Dylan, Halcyon.

Egopress

– Nas próximas semanas participo de uma residência da fundação Passa Porta em Bruxelas. Farei leituras e participarei de eventos na Bélgica e em Amsterdã aproveitando o lançamento da edição holandesa do Tribunal da Quinta-Feira (Ambos/Anthos, tradução de Harrie Lemmens).

– As edições francesa de A Maçã Envenenada (Buchet/Chastel) e turca de Diário da Queda (Kafka) estão entre os finalistas da categoria Livro Publicado no Exterior do Prêmio Jabuti.

Diário da Queda, que já era leitura indicada na UFRGS, agora é também na Universidade de Santa Catarina (UCS).

Fim de semana

Uma exposição – Mulheres na Pinacoteca.

Uma primeira temporada – Atlanta.

Um livro de contos – Sebastopol, Emilio Fraia (Alfaguara, 120 págs.).

Um de poemas – Bigorna, Yasmin Nigri (34, 116 págs.)

Uma releitura (sempre) – Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs.).

Fim de semana

Um perfil – Wolfgang Tillmans por Emily Witt (aqui).

Um site – Crônica brasileira no IMS (aqui).

Um best-seller que vale – O Carrasco do Amor, Irwin D.Yalom (Harper Collins Brasil, 336 págs.).

Um documentário – Active Measures, Jack Bryan.

Um filme – O Paciente, Sergio Rezende.

Egopress

– Esta semana chega às livrarias o primeiro Anuário Todavia, que editei junto com o André Conti e a equipe da Todavia Livros. São ficções, reportagens e ensaios de mais de 40 nomes brasileiros e estrangeiros sobre os vários sentidos do termo “apocalipse”. Mais informações e vendas: https://goo.gl/JFDJfL

– Na próxima segunda, 17/9, 11h40, falo para os alunos da escola Villare, em São Caetano do Sul, sobre o Diário da Queda.

– Resenha da edição inglesa do A Maçã Envenenada no Minor Literature[s]: https://goo.gl/P5pU44. E uma do Tribunal da Quinta-Feira no Homo Literatus: https://goo.gl/XdbKWh

– Entrevista minha para a seção Inquérito do jornal Rascunho: https://goo.gl/tH3GVx.

Fim de semana

Um romance A Vida Escolar de Jesus, J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 259 págs.).

Um ensaio – Contra os Filhos, Lina Meruane (Todavia, 176 págs.).

Um filme – You Were Never Really Here, Lynne Ramsay.

Um clipe – Suspirium, Thom Yorke (aqui).

Uma exposição – Bienal.

Fim de semana

Uma exposição – Irving Penn no IMS.

Um adaptação competente – De amor e Trevas, Natalie Portman.

Um disco de 2016 – Post Pop Depression, Iggy Pop.

Um ensaio – Carol Bensimon sobre o apartamento dos avôs (aqui)

Um relançamento – Fun Home, Alison Bechdel (Todavia, 234 págs.).

Egopress

O Tribunal da Quinta-Feira teve os direitos para o cinema vendidos ao diretor Miguel Faria Jr.

– O livro também acaba de sair na Holanda, pela Ambos/Anthos, com tradução de Harrie Lemmens. Primeira resenha (segundo consta, positiva): https://goo.gl/LFdnci

– A série Viagem de Bolso, da Mira Filmes, sobre cidades que são cenários para livros brasileiros, estreia este mês no CineTVBrasil. Um dos episódios é sobre o meu romance O Segundo Tempo. A apresentação é de Reinaldo Moraes, e a direção de Lia Kulakauskas. Mais informações: https://goo.gl/3WY5fu

Fim de semana

Um livro – A Guerra: a Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil, Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias (Todavia, 344 págs.).

Um ensaio – Zadie Smith sobre Henry Taylor (aqui).

Um documentário ok – Robin Williams: Come Inside My Mind, Marina Zenovich.

Um filme simpático – England is Mine, Mark Gill.

Um disco simpático – Call the Comet, Johnny Marr.

Fim de semana

Um romance – Hoje Estarás Comigo no Paraíso, Bruno Vieira Amaral (Quetzal, 368 págs.).

Um artigo – Lendo David Foster Wallace em 2018 (aqui).

Um documentário – Como Fotografei os Yanomami, Otavio Cury.

Um documentário médio – Bergman – 100 anos, Jane Magnusson.

Uma adaptação bem média – O Som e a Fúria, James Franco.

Fim de semana

Uma releitura – Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq (Sulina, 142 págs.).

Um filme – A Morte de Stalin, Armando Iannucci.

Um filme médio – O Super Lobista, George Hickenlooper.

Um stand-up com ups and downs – Nanette.

Uma exposição – Histórias Afro-Atlânticas.

Fim de semana

Um livro – Garotas Mortas, Selva Almada (Todavia, 128 págs.).

Um conto – Writing Teacher, John Edgar Wideman (aqui).

Uma exposição – Jac Leirner, Fortes D’Aloia & Gabriel.

Outra – Powerpaola, Sala Aberta.

Um disco – Ofertório, Caetano Veloso e filhos.

Egopress

– Nesta quarta, 6/6, 8h30, falarei sobre Diário da Queda para os alunos do Instituto Rio Branco, de São Leopoldo/RS. Na sequência terei encontros nas escolas Província de São Pedro (7/6, a confirmar) e La Salles Dores (8/6), em Porto Alegre.

– Em 5/7, 19h, participo do projeto Meu Filme Preferido, com Roger Lerina, no Instituto Ling, em Porto Alegre. O tema será Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese.

– Em 17/7, 18h, falo no Clube do Livro da Biblioteca da Porto Seguro sobre O Tribunal da Quinta-Feira.

– O UOL encomendou a escritores textos sobre as copas. Fiz sobre 1958 (https://bit.ly/2J9MWaV), 1986 (https://bit.ly/2JrGY4k) e 1990 (https://bit.ly/2LZaLQr).

– Entrevista que dei para a Clarissa Wolff, da Carta Capital: https://bit.ly/2FNKW1c

– Vídeo do meu debate com Ana Paula Maia na Feira de Medellin: https://bit.ly/2Jt0AFs