Michel Laub

Fim de semana

            Uma visita guiada – Alice Neel no Met (aqui)

            Um romance – O som do Rugido da Onça, Micheliny Verunschk (Companhia das Letras, 168 págs.).

            Uma releitura – Meu Tio o Iauretê, Guimarães Rosa.

            Um artigo – Marcos Nogueira sobre os cozinheiros dos ditadores, na Piauí.

            Um podcast – Michel Gherman sobre antissemitismo, no Afinidades Eletivas.

Fim de semana

Um texto – Arthur Nestrovski sobre a OSESP na Pandemia (aqui).

Uma reportagem – O Humboldt Forum e a arte colonial (aqui).

Um artigo que se desmente – Por que aprender alemão não é tão difícil (aqui)

Um filme médio – Suprema, Mimi Leder.

Uma reprise – Fausto, Alexandr Sokurov.

Fim de semana

Um debate – Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Eduardo Escorel sobre Shoah (aqui).

Outro – Ariella Azoulay e Lilia Schwarcz sobre fotografia (aqui).

Um disco ­– As the Love Continues, Mogwai

Um filme – Nomadland, Chloé Zaho.

Um filme legalzinho – Father, Florian Zeller.

Fim de semana

Um texto – Adam Grant sobre a pré-depressão da pandemia (aqui)

Um vídeo – Triple Chaser, Forensic Architecture (aqui).

Um documentário – Alvorada, Anna Muylaert e Lô Politi

Um livro – Cinema e Política, Paulo Emilio Salles Gomes (Penguin, 152 págs.).

Uma série em podcast – Escritores/as e personagens, Itaú Cultural.

Fim de semana

Um disco – G_d’s Pee AT STATE’S END!, God Speed You! Black Emperor.

Outro – Kids, Noga Erez.

Um documentário ok – Marginal Alado, Felipe Novaes.

Um podcast – Caminhando com Leonardo Fróes, 451.

Um livro – O Ar que me Falta, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras, 200 págs.).

Brasileiros em Berlim

 “Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos jogos Olímpicos não deve viajar (…) no que as companhias aéreas chamam de ‘classe econômica’”. Assim começa Um Brasileiro em Berlim, reunião de crônicas que João Ubaldo Ribeiro publicou em 1990 no jornal Frankfurter Rundschau (Frankfurt/M, 164 págs., edição bilíngue). A frase soa carinhosamente anacrônica: mesmo que os voos internacionais tenham até piorado de lá para cá, reclamar desse tipo de coisa hoje seria um luxo, quase um alento em meio a pandemia, recessão e crise moral sem fim.

O tema do livro é a temporada que o escritor baiano passou como bolsista da DAAD, órgão governamental alemão de apoio às artes, na capital de um país recém unificado depois da queda do Muro. Ubaldo fala de praças, padarias, ciclistas. Do idioma impenetrável que os filhos aprendem sem esforço na escola, dos canibais da Amazônia no estereótipo do Brasil de então. O tom geral é o da frase de abertura, uma ironia hiperbólica e ao mesmo tempo leve, condizente com o “rés-do-chão” que Antonio Candido disse definir o gênero crônica – e que, acrescento eu, sempre paga algum tributo ao anti-intelectualismo. “Gostaria de ser profundo”, escreve João Ubaldo, um autor de formação bastante erudita. “Ou chato, que muitas vezes é sinônimo de profundo. Mas não sou profundo e aspiro a não ser chato.”

É curioso pensar em como um livro com a temática de Um Brasileiro… seria escrito hoje. A par da fluidez e sabor do texto, o que torna a leitura prazerosa no fim das contas, o imaginário de país que emerge dessas páginas –  a cada frase, na comparação constante com a vida da Alemanha – soa ainda mais datado do que se esperaria num conjunto de crônicas. A comédia das contradições da classe média brasileira, tom ao qual Ubaldo acena usando o microcosmo da própria família, foi substituída pela tragédia do ódio entre irmãos, amigos, vizinhos. A bagunça simpática do nosso suposto modo de ser virou uma nada suposta boçalidade. E os estereótipos, bem, esses dão até saudade do tempo dos canibais: a forma como o mundo passou a nos ver – um agrupamento suicida governado por um defensor da morte – é a descrição exata do nosso presente e futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9-4-21, sobre a experiência de morar em Berlim segundo João Ubaldo, Bernardo Carvalho e eu mesmo. Íntegra aqui.

Dor e dinamite

Em 1985, a escritora e cartunista norte-americana Alison Bechdel publicou uma tira célebre em sua série Dykes to Watch Out For. Nela, uma personagem diz que só vê filmes que 1) têm pelo menos duas mulheres; 2) elas conversam uma com a outra; 3) sobre alguma coisa que não seja um homem. O que era um pouco piada, um pouco discurso a sério, virou referência em discussões de Internet sobre preconceito de gênero no imaginário contemporâneo. Afinal, a imensa maioria das histórias ficcionais de hoje – e não só as criadas por homens – acabaria reprovada em um dos três requisitos.

Mas há algo de simplificador, claro, nesse tipo de critério. Na arte existe ironia, contraste, incômodo proposital e tantos outros recursos que põem nuances no valor de face de uma narrativa. A denúncia de uma situação opressiva, por exemplo, pode ocorrer quando o opressor é uma figura totalizante, que assombra cada palavra dita ou pensada por sua vítima. É o caso de Vista Chinesa, novo romance de Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.), e do modo mais radical possível em se tratando da temática de gênero: o livro reproduz a elaboração de um estupro – e, logo, a presença irrecorrível do estuprador – na sensibilidade de uma arquiteta carioca.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26-3-21, sobre os novos livros de Tatiana Levy e Natércia Pontes. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Kathryn Schulz sobre animais e orientação (aqui).

Outro – Alvaro Costa e Silva sobre Asfalto Selvagem (aqui).

Um livro curioso – Of Walking in Ice, Werner Herzog (Penguin, 67 págs.).

Uma graphic novel – Guarda Lunar, Tom Gauld (Todavia, 96 págs.).

Uma reprise – Mephisto, István Szabó.

Egopress

Solução de dois Estados teve os direitos audiovisuais vendidos para a RT Features. O livro ganhou também uma reimpressão em fevereiro.

Diário da Queda está fazendo 10 anos em março de 2021. A versão em polonês, 11o idioma em que o romance é publicado, saiu recentemente pela editora Paúza.

– Neste domingo, 21/3, às 17h, estarei com Bruno Paes Manso numa das mesas da Flima Online. Mediação de Marcella Franco. Programação completa aqui.

Quebra-pedra, caipa e charadinhas

Qual é o papel da memória no gosto literário? Andei pensando nisso ao ler três textos publicados por conterrâneos meus em 2020. O primeiro é o poema que abre Canções de Atormentar, coletânea de Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.), cujo sabor remete a antigos verões no litoral gaúcho – passados tanto pela autora, que é de Pelotas/RS, quanto por mim, que nasci em Porto Alegre.

O poema se chama “laranjal” e fala de uma praia de lagoa no sul do estado. Os meus verões foram na beira-mar de Santa Terezinha, no litoral norte, mas não importa: as descrições fragmentadas de Angélica evocam o mesmo cenário de pequenas casas, vegetação árida, dias de calor e tédio preenchidos pela imaginação infantil e adolescente. Ali florescem expressões como “quebra-pedra”, “barba-de-pau” e “velha coroca”, que pontuam a linguagem local da descoberta do sexo (“eu tenho uma coisa para te contar./ e contei. e ela me disse que já sabia.”), da perplexidade com o mundo adulto/masculino (“qual é a de um cara num passat/ que nas ruas de barro da praia/ ultrapassa qualquer fusca?”) e de um certo confronto presente no resto do livro (a primeira das canções do título é a ladainha de um vendedor de “camareu”).

Como é praxe nesse tipo de abordagem, tudo é permeado pelo sentimento da perda. Que, no entanto, não conseguiria ser transmitido sem os atributos (sonoridade, subentendidos, ritmo) da forma poética: “em 78 construíram a casa./ isso dava ao meu pai doze anos/ para lavar o carro na rampa.”; “o cara do kung-fu lutava sozinho (…)/ um príncipe das artes marciais./ desapareceu./ hu. iá. hu/ iá. hu. iá”. A ideia da morte, em seu sentido literal ou metafórico, ligado ao que só existe hoje na nossa lembrança, ganha tradução num humor também dúbio, entre a crítica e o carinho, porque podemos ter saudades daquilo que nos dá tristeza: “puro junco, aranha,/ lagartixa, carro atolado./ quer saber o que é/ o fim da civilização?// ‘isto aqui até parece uma praia’/ me diz o rapaz que veio de são paulo/ ao ver as figueiras, a lagoa, a areia grossa// não lhe guardo rancor”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-2-21. Íntegra aqui.

Paus e pedras

Há formas e formas de fazer crítica literária. Quando o escritor norte-americano David Markson morreu, em 2010, um curioso descobriu que sua biblioteca foi parar nas prateleiras da Strand, livraria/sebo de Nova York, e pôde conferir as anotações que ele deixava nas páginas que lia. Sua maior vítima foi o também escritor americano Don DeLillo: numa cópia do romance Ruído Branco (1985), Markson registrou para a eternidade do folclore literário impressões como “que besteira”, “meu deus, a gravidade, a solenidade”, “isso é o recorde da chatice em todos os tempos” e “é para ser uma sátira, mas (…) uma sátira precisa ser divertida”.

À parte as picuinhas entre colegas, há algum sentido nos comentários. Pinçadas individualmente, algumas frases de DeLillo deixam o leitor desconcertado, na dúvida se está diante de sabedoria ou de pompa vazia, no limite da literatice: “Preparação que ele adquiriu num deserto, setecentos anos antes de nascer” (em Cosmópolis, 2003); “A realidade fica em pé, anda, fica de cócoras. Só que às vezes não faz nada disso” (em Ponto ômega, 2010); “Você sabe melhor quem é num dia de claridade forte depois de uma tempestade, quando a menor das folhas caindo é apunhalada pela autoconsciência” (em A artista do corpo, 2001).

E, no entanto, é possível ler esses trechos de modo dúbio, até irônico. DeLillo gosta de usar o discurso indireto livre, ou seja, uma narrativa em terceira pessoa grudada na consciência de cada personagem. Não é o autor, essa entidade supostamente neutra, que está fazendo aquelas reflexões daquele modo, e sim as criaturas por ele definidas nos limites de um texto de ficção – e elas têm direito a imprecisões, até a eventuais tolices, na subjetividade radical de quem só enxerga o próprio entorno (e, logo, a realidade concreta) em fragmentos por vezes contraditórios entre si.

O procedimento formal de DeLillo seria um mero exercício, talvez uma banalidade, se não estivesse a serviço de uma temática mais ampla. As dúvidas dos personagens integram uma grande pergunta que permeia toda a obra do autor. Considerado uma síntese ficcional da paranoia americana, em títulos que tratavam do assassinato de Kennedy (Libra, 1988) às conspirações que firmaram o domínio geopolítico do país em meio século de história (Submundo, 1997), o conjunto de seus romances e contos se tornou também uma reflexão filosófica, às vezes metafísica, que tenta definir o lugar humano numa sociedade pós-industrial, hipertecnológica.

Para tanto, o tom especulativo de sua prosa foi se radicalizando com as décadas, processo que chega ao ápice em The Silence (Scribner, 128 págs.). Trata-se de um romance cujo tamanho é inversamente proporcional à densidade. A história fala de um evento catastrófico ocorrido em 2022, um misterioso apagão que desliga televisores, celulares e sistemas informatizados de transporte, gerando o caos na vida de cinco personagens reunidos num jantar em Nova York.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-3-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um podcast – Wind of Change, Patrick Radden Keefe.

Um documentário simpático – Daguerréotypes, Agnés Varda.

Um disco – Carnage, Nick Cave.

Um artigo – Richard Brody sobre Claude Lanzman (aqui)

Um romance – Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.).

Fim de semana

Uma série – Doutor Castor, Marco Antônio Araújo.

Um documentário – Fassbinder, Annekatrin Hendel.

Um ensaio – Karl Ove Knausgaard sobre editores, na Piauí.

Uma memória – Abandonar um Gato, Haruki Murakami (aqui).

Uma série em podcast – Técnicos, Luciano Potter e Rafael Divério.

Fim de semana

Um documentário – Zappa, Alex Winter.

Um documentário em duas partes – Philip Roth Unleashed, Sarah Aspinall (aqui).

Um debate – Ciro Gomes x André Lara Resende (aqui).

Um romance – Os Tais Caquinhos, Natércia Pontes (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um ensaio – Colin Vanderburg sobre rock e cultura negra (aqui).

O Evangelho da recusa

Em 2009, o sul-africano J.M. Coetzee publicou Verão, último romance de um ciclo autobiográfico que tinha também Infância (1997) e Juventude (2002). É um dos grandes livros deste grande escritor ao mesmo tempo fácil e difícil, moderno e pós-moderno, composto por entrevistas com mulheres que teriam tido relacionamentos com o próprio Coetzee – aqui tornado personagem depois de sua hipotética morte na vida real.

As entrevistas se alternam com o que seriam fragmentos de ideias para romances encontradas no diário do morto. Num deles, o narrador anota, tratando a si mesmo na terceira pessoa: “Evitar pôr ênfase demais no interesse dele por Jesus e transformar isto aqui numa narrativa de conversão”. Em outro: “A desenvolver: sua própria teoria educacional, cultivada em casa, suas raízes em (a) Platão e (b) Freud”.

As duas passagens trazem uma pista para interpretar a estranha trilogia que ocupou Coetzee na década seguinte à de Verão: os romances A Infância de Jesus (2013) e A Vida Escolar de Jesus (2016), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, e o mais recente A Morte de Jesus (The Death of Jesus, Viking, 2019). Lidos em sequência, os três contam a história provavelmente alegórica da formação de um menino (Davíd) junto a pais adotivos (Simón e Inés), num mundo de feição pós-apocalíptica onde não há memória do passado distante.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 11/12/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – Kathleen Meaney sobre arte africana e design (aqui).

Uma história – David Markson x Don DeLillo (a partir de 22:15, aqui).

Um romance curioso – The Silence, Don DeLillo (Scribner, 128 págs.).

Uma entrevista – Brizola, 1980 (aqui).

Um filme – Relatos do Mundo, Paul Greengrass.

A moral do monstro

“O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto. – Qual dos dois cansa primeiro?”. Assim começa 234, de Dalton Trevisan (Record, 128 págs), e poderia começar qualquer livro do autor – até porque muitos deles repetem os mesmos temas, ou tomam de empréstimo frases e tipos humanos usados em coletâneas anteriores, numa interminável variação do que parece ser um único conto desde os anos 1950.

Tudo se passa na província, na ampla acepção do termo, o que não se resume à Curitiba natal de Dalton. Como em tantos escritores que transformaram a geografia em matriz mitológica, o conceito de local aqui é tão “universal” quanto o da Dublin joyceana, do sul americano de Faulkner ou da Escola de Magia de Hogwarts: trata-se de um lugar que só existe na imaginação de quem o cria ou reinventa, e portanto – dado o milagre empático da boa literatura – na cabeça de quem lê.

Voltei a 234 semanas atrás, num desses acasos comuns a quem está procurando uma coisa na estante e acaba embarcando em outra. Fiquei com a impressão de que o livro, lançado em 1997, com o tempo se tornou um corpo ainda mais estranho dentro da cultura brasileira. Numa época tão marcada por uma ideia de ficção utilitária (lemos para aprender algo) ou edificante (exemplos que nos inspiram a enfrentar os problemas da vida), por conceitos como o de “gatilho narrativo” (coisas que não devemos ler porque nos lembram de traumas/medos/pudores), aqui está um autor cuja estética (e a ética) soa como o contrário disso (“o melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado”).

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/1/2020. Íntegra aqui.

O jogo do futuro

Numa passagem de O Filho Eterno, romance autobiográfico sobre o pai de um portador da Síndrome de Down (Record, 222 págs.), o narrador de Cristovão Tezza conta como enxergou um ponto de maturidade possível numa criança que parecia viver um presente contínuo e circular. “O menino sente muita dificuldade para aceitar mudanças de rotina”, diz ele, que trata a si mesmo na terceira pessoa. “O pai terá de obrigá-lo a assistir a algo novo (…) até que descubra que a novidade pode ser interessante.”

Nesse universo repetitivo e por vezes árduo, o filho acaba descobrindo um estímulo inusitado no futebol. Torcer pelo Athletico-PR traz vantagens, entre elas a chance de socializar com outros torcedores e um esboço de aprendizado de leitura – ele consegue reconhecer nomes de times, digitá-los para baixar os hinos em mp3. A maior mudança, contudo, vem da relação que o esporte tem com o tempo, uma abstração que para o personagem era inatingível até aquele momento: “As partidas (…) já não são mais eventos avulsos, sem relação entre si; pela noção de torneio, finalmente a ideia de calendário entra na sua cabeça; como na Bíblia, o mundo se divide entre partes que se sucedem até a Batalha Final”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 16/10/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Meu Anjo da Guarda tem Medo do Escuro, Charles Simic (Todavia, 112 págs.).

Um documentário – Professor Polvo, James Reed e Pippa Ehrlich.

Um filme de 2013 – Museum Hours, Jem Cohen.

Uma entrevista – Mayrton Bahia (aqui).

Um disco – Tocar em Flores Pelado, Gabrre.

Algo que não foi feito ainda

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro “Verdade Tropical” (1997). Um de seus capítulos, “Narciso em Férias”, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 13/11/2020. Íntegra aqui.

Ordem à bala

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – The Death of Jesus, JM Coetzee (Vintage, 199 págs.).

Uma releitura – 234, Dalton Trevisan (Record, 128 págs.).

Um artigo – Rebecca Mead sobre Artemisa Gentileschi (aqui)

Um filme – Babenco, Barbara Paz.

Um disco – Vida Amorosa que Segue, Lulina.

Fim de semana

Um livro – A República das Milícias, Bruno Paes Manso (Todavia, 298 págs.).

Uma releitura – Narciso em Férias, Caetano Veloso (Companhia das Letras, 168 págs.).

Um artigo – Casey Cep sobre Faulkner e racismo (aqui).

Uma entrevista – Benjamin Teitelbaum sobre direita e tradicionalismo (aqui).

Um filme datado – On the Rocks, Sofia Coppola.

Fim de semana

Um livro – A Cruzada das Crianças, Marcel Schwob (34, 73 págs.).

Outro – Discurso sobre o Colonialismo, Aimée Césaire (Veneta, 132 págs.).

Uma série média – O Gambito da Rainha.

Uma série divertida – Pretend it’s a City.

Um filme meio ruim – Kung Fu Master, Agnès Varda.

Fim de semana

Um disco – Cleo, Charlotte dos Santos.

Um podcast – Retrato Narrado, Carol Pires.

Um romance – O Avesso da Pele, Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 192 págs.).

Um filme – Mank, David Fischer.

Uma exposição que fechou – Anna Mazzei, Jaqueline Martins.

‘Solução de dois Estados’ – entrevistas, matérias, resenhas

(Atualizado até abril/2021)

– Matéria/entrevista à Folha de S.Paulo, por Walter Porto: http://encurtador.com.br/nzBIR

– Matéria/entrevista ao Valor Econômico, por Cadão Volpato: http://encurtador.com.br/zHIJL

– Entrevista ao Estado de São Paulo, por Guilherme Sabota: http://encurtador.com.br/lmnsX

– Entrevista ao Globo, por Ruan S. Gabriel: http://encurtador.com.br/jpGQT

– Entrevista ao Estado de Minas, por Carlos Marcelo: https://encurtador.com.br/gkwOQ

– Entrevista ao Provocações/TV Cultura, por Marcelo Tas: https://encurtador.com.br/BMQUX

– Entrevista ao Arte 1, por Flavia Gondor: https://encurtador.com.br/tvGO4

– Entrevista à Eldorado FM, por Igor Müller: https://encurtador.com.br/rCHS5

– Entrevista ao podcast da Bravo, por Almir de Freitas: http://encurtador.com.br/UWX09

– Entrevista ao podcast da Companhia das letras, por Paulo Júnior: http://encurtador.com.br/FOYZ6

– Entrevista ao podcast Cinco Minutos de Literatura, por Ieda Oliveira: https://encurtador.com.br/gAHNS

– Entrevista à Fundação do Livro de Ribeirão Preto, por João Borda: http://encurtador.com.br/fpDS9

– Entrevista à Livraria da Vila, por Samuel Seibel: http://encurtador.com.br/dhmIU

– Entrevista ao Correio Braziliense, por Nahima Maciel: http://bit.ly/3nLl0cQ

– Entrevista no Headline, por Mario Camera: https://cutt.ly/XkpWG7Y

– Resenha na Quatro Cinco Um, por Leyla Perrone-Moisés: https://encurtador.com.br/jmpw7

– Resenha na Piauí, por Alejandro Chacoff: https://encurtador.com.br/hmzMN

– Resenha na Folha de S. Paulo, por Adriano Schwartz: http://encurtador.com.br/dsxz7

– Resenha no Estado de Minas, por Sérgio de Sá: https://encurtador.com.br/gkwOQ

– Resenha na Zero Hora, por Cintia Moscovich: https://encurtador.com.br/BJUV7

– Resenha no Farofará/Carta Capital, por Zema Ribeiro: https://encurtador.com.br/bfmnI

– Resenha na Dystopia, por Octávio Reis: https://cutt.ly/Cj1uL0n

– Resenha no Resenha de Bolso, por Mateus Baldi: https://shorturl.at/cpHKY

– Resenha na Coluna do Fefito (UOl), por Fernando Oliveira: cutt.ly/mj1wfzr

– Resenha na Subjetiva, por Thais Campolina: https://shorturl.at/hsP48  

– Resenha no Livros que eu Li, por Aguinaldo Severino:  https://t.co/c6dRBTZLqf?amp=1

– Resenha no Estante do Justo, por Luis Justo: https://cutt.ly/zlfYp9n

– Resenha na Brasil – Brazil, por Maria Bonatto Malka: https://cutt.ly/0xSBMe0

– Resenha no Rascunho, por Luiz Paulo Faccioli: cutt.ly/mlz1tVa

– Resenha no Mundo de K, por Alexandre Kovacs: https://:encurtador.com.br/jmswY

– Resenha no Rizzenhas, por Taize Odelli: https://encurtador.com.br/lGIMQ

– Resenha no Escotilha, por Jonatan Silva: https://encurtador.com.br/ouKS5

– Resenha na Folha de Londrina, por Marcos Losak: https://encurtador.com.br/hptzD

– Resenha no Celula Pop, por Debora Consíglio (https://encurtador.com.br/adoBW)

– Resenha no Psicologia dos Psicólogos, por Felipe Stephan Lisboa: https://encurtador.com.br/crFJ5

– Resenha no Jornalismo Júnior, por Guilherme Gama: https://encurtador.com.br/auzEW

– Resenha no Persona, por Isabella Siqueira: https://cutt.ly/jkpQGQe

– Resenha no Mãe Literatura: http://encurtador.com.br/yBMS3

– Resenha no podcast Leituras.org, por André Aguiar: https://cutt.ly/rkjOMCm

– Resenha no Fala pra Camões, por Ju Palermo (vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=kJWQ-2pSpvY

–  Resenha no Seleção Literária, por Darwin de Oliveira (vídeo): https://cutt.ly/ybHllgj

– Resenha no Livrada!, por Yuri Al’Hanati (vídeo): https://encurtador.com.br/csDS0

– Resenha no Literatura Fora de Caixa (vídeo): https://encurtador.com.br/ajnNY

– Resenha no Livrada!, por Yuri Al’Hanati (vídeo): https://encurtador.com.br/csDS0

– Resenha no Acrópole Visitada, por Luigi Ricciardi (vídeo): http://shorturl.at/cmCJ9

– Resenha no Admirável Mundo Livro, por Carlos André Moreira (vídeo): http://encurtador.com.br/fmVX9

– Resenha no Acontece nos Livros, por Whishner Fraga (vídeo): http://encurtador.com.br/HKNUY

– Resenha no Abstração Coletiva, por Luana Werb (vídeo): http://encurtador.com.br/pxMPR

– Resenha na CBN Recife, por Ney Anderson: http://encurtador.com.br/kyBRY

– Listas de fim de ano na Revista Bula (http://encurtador.com.br/zAHR7), Scream and Yell (https://cutt.ly/1kpEoKI), Época/Mateus Baldi (https://encurtador.com.br/bcgT9) Escotilha/Jonatan Silva (https:// encurtador.com.br/distu), Plural/Cristovão Tezza (https://encurtador.com.br/kG569), Mundo de K/Alexandre Kovacs (http://encurtador.com.br/bdS37) Jardim Bizarro/Santiago Nazarian (https://encurtador.com.br/npSZ0), BuzzFeed/Gaía Passarelli (http://encurtador.com.br/hLMN8), Zero Hora/Alexandre Lucchese (https://encurtador.com.br/uENU6), Livrada!/Yuri Al’Hanati (https://encurtador.com.br/cwKQX), Steel the Look/Giulia Coronato (https://encurtador.com.br/bjv17), São Paulo Review (https://encurtador.com.br/bejqH), CBN Recife/Ney Anderson (https://encurtador.com.br/hrCHR), Julia Stallone/Medium (https://encurtador.com.br/dlDK0)

– Textos nas redes (Instagram, Facebook, Twitter): Rafa Gurgel (https://encurtador.com.br/elBGK), Rosa Amanda Strausz (https://encurtador.com.br/eRT06), Manuela Dávila (https://encurtador.com.br/uzQRU), Literatura Fora da Caixa (https://encurtador.com.br/tY279), Livia Piccolo (https://encurtador.com.br/hlQ12), Celso Rocha de Barros (https://twitter.com/NPTO/status/1377801389682921477), Pedro Pacífico/Bookster (https://encurtador.com.br/ntv01), Alilendounslivros/Aline Teixeira (http://shorturl.at/hsP48), Lucas Verzola (https://encurtador.com.br/gksD2), Daniel Mitidiero (https://encurtador.com.br/oBPQ3), Bruno Seixas (https://encurtador.com.br/jFHY6), Centelha Literária (https://encurtador.com.br/erwzR), Canal Palavrão (https://encurtador.com.br/nuFV8), Vinicius Rangel/Vinil23 (https://encurtador.com.br/nuQZ2), Leitor Um (https://encurtador.com.br/gknpQ), Marcos de Queiroz (https://encurtador.com.br/guKX1), revista Poder (https://encurtador.com.br/pzNQT), Laura Folgueira (https://encurtador.com.br/wFQ25), literatice (https://encurtador.com.br/ituW1), Roger Rocha (https://encurtador.com.br/tuGKR), Ricardo Buso (https://www.instagram.com/p/CJmG9LPB2sG/), Miguel Del Castilho (https://encurtador.com.br/aoBL6), Marcelo da Silva Antunes (https://www.instagram.com/p/CJtNTm7HxPh/), William Dahmer (https://www.instagram.com/p/CJ1e1nalTcN/), Vinicius Rodrigues (http://encurtador.com.br/flpsG), Literatura Prosa Verso (http://encurtador.com.br/giMY2), Livro Bordado (https://www.instagram.com/p/CKZyxvbDZAx/), Minimalivro (https://www.instagram.com/p/CKXF6JUjPHm/), Obibliofago (https://www.instagram.com/p/CKulOkdDgBW/), leiturasorg (https://www.instagram.com/p/CK2RSdJjc4f/), Sommelierliterario (https://www.instagram.com/p/CK5GlshDJ5R/), Cicero Robson (https://www.instagram.com/p/CLaQepFluOy/), Livros a dois (https://www.instagram.com/p/CMF_ASnBI9v/), Leticia Ribeiro Paiva (https://www.instagram.com/p/CJMFoa8h34Q/), Ingrid Leal (https://www.instagram.com/p/CMQQ0ZppXio/), Júlia de Aquino (https://www.instagram.com/p/CMQQ0ZppXio/), Prosa e Proust (https://www.instagram.com/p/CMzXX0RBFaB/), Juliane Durão (https://www.instagram.com/p/CM8F12UMoUI/), Camila Marim (https://www.instagram.com/p/CMXFpB7AbSi/), Aline T.K.M. (https://www.instagram.com/p/CNAmz9WjM_E/), Thais Porto (https://twitter.com/gdpthais/status/1363925043034660871), Leandro Godinho (https://twitter.com/petitgodin/status/1362099184841748480),

– Live de lançamento do livro, no canal da Companhia das Letras, com Luiz Schwarcz e Emilio Fraia: http://encurtador.com.br/arLV8

– Páginas do livro + resenhas na Amazon (https://encurtador.com.br/HOPS4), Goodreads (https://encurtador.com.br/jKV15), Skoob (https://encurtador.com.br/byO03)

Solução de dois Estados – orelha, trecho, pré-venda

Uma cineasta alemã marcada por um trauma prepara um documentário sobre a violência brasileira. Os principais entrevistados são dois irmãos: Raquel, artista de cento e trinta quilos cujo trabalho se baseia em episódios que a levaram a detestar o próprio corpo, e Alexandre, empresário que atua no ramo fitness na periferia de São Paulo. Ambos foram escolhidos por causa da repercussão mundial de uma agressão que Raquel sofreu, no início de 2018, durante um debate sobre arte e política num hotel da capital paulista.

Diante das câmeras, os segredos dessa história íntima que envolve bullying de adolescência, uma disputa por herança e diferentes visões sobre temas como sexo, religião e responsabilidade individual são pontuadas por flashes da história recente do país – do Plano Collor, que iniciou a ruína da família dos protagonistas, às vésperas de uma eleição que mobilizou o ódio de uma sociedade profundamente dividida.

Confrontadas por uma entrevistadora próxima e distante do ressentimento exposto, as versões dos irmãos reproduzem a linguagem e a dinâmica de um impasse moral do nosso tempo – aquele causado pelo fim das fronteiras entre público e privado, aparência e essência. É a partir daí que surge a pergunta central do livro, elaborada no tom provocativo da obra recente de Michel Laub: a ideia de conciliação – ou de perdão – é inimiga ou aliada da barbárie em que nos metemos?

Trecho de Solução de dois Estados.

Links para pré-venda: Amazon, Livraria da Vila, Livrarias Curitiba, Americanas. Em breve o romance estará também nas livrarias de bairro (prestigie).

Fim de semana + quarentena (36)

Uma série – História da Alimentação no Brasil, Eugênio Puppo.

Um podcast – Praia dos Ossos, Branca Vianna e Flora Thomson-Deveaux.

Um disco – Every Bad, Porridge Radio.

Um texto – Paulo Scott sobre André Penteado e a Revolução Farroupilha (aqui).

Um posfácio – Thomas Pynchon na nova edição de 1984 (Companhia das Letras, 408 págs.).

Fim de semana + quarentena (35)

Uma reprise – Heat, Michael Mann.

Outra – Wag the dog, Barry Levinson.

Um vídeo – Sordid Scandal, Amalia Ulman (aqui).

Um texto – JP Cuenca sobre a nostalgia dos blogs (aqui).

Um livro – Canções de Atormentar, Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.).

Fim de semana + quarentena (34)

Uma coletânea – [para o meu coração num domingo], Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 338 págs.).

Um texto de 1906 – Mario de Lima Barbosa sobre Machado de Assis (aqui).

Uma entrevista – Newton Bignotto sobre ideias, facções e o Brasil (aqui).

Um filme – Dark Waters, Todd Haynes.

Um documentário com uns problemas – O Dilema das Redes, Jeff Orlowski.

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