Ordem à bala

por Michel Laub

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.