A moral do monstro

por Michel Laub

“O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto. – Qual dos dois cansa primeiro?”. Assim começa 234, de Dalton Trevisan (Record, 128 págs), e poderia começar qualquer livro do autor – até porque muitos deles repetem os mesmos temas, ou tomam de empréstimo frases e tipos humanos usados em coletâneas anteriores, numa interminável variação do que parece ser um único conto desde os anos 1950.

Tudo se passa na província, na ampla acepção do termo, o que não se resume à Curitiba natal de Dalton. Como em tantos escritores que transformaram a geografia em matriz mitológica, o conceito de local aqui é tão “universal” quanto o da Dublin joyceana, do sul americano de Faulkner ou da Escola de Magia de Hogwarts: trata-se de um lugar que só existe na imaginação de quem o cria ou reinventa, e portanto – dado o milagre empático da boa literatura – na cabeça de quem lê.

Voltei a 234 semanas atrás, num desses acasos comuns a quem está procurando uma coisa na estante e acaba embarcando em outra. Fiquei com a impressão de que o livro, lançado em 1997, com o tempo se tornou um corpo ainda mais estranho dentro da cultura brasileira. Numa época tão marcada por uma ideia de ficção utilitária (lemos para aprender algo) ou edificante (exemplos que nos inspiram a enfrentar os problemas da vida), por conceitos como o de “gatilho narrativo” (coisas que não devemos ler porque nos lembram de traumas/medos/pudores), aqui está um autor cuja estética (e a ética) soa como o contrário disso (“o melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado”).

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/1/2020. Íntegra aqui.