Algo que não foi feito ainda

por Michel Laub

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro Verdade Tropical (1997). Um de seus capítulos, Narciso em Férias, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Texto e filme falam do célebre episódio da prisão de Caetano em 1968, logo depois do AI-5, e dos 54 dias que ele passou na cadeia. Se Verdade Tropical é um panorama do que seria a originalidade brasileira então proposta por sua obra, Narciso em Férias é o ponto do livro em que a ideia de civilização é descrita como que em negativo, numa espécie de grau zero onde a princípio não há nem tristeza –  apenas a brutalidade dos militares, da elite que os apoiou e ajudou a moldar as trevas que vemos até hoje por aqui.

O país que emerge daqueles 54 dias é uma distopia tanto no nível institucional –um périplo kafkiano num não-lugar jurídico e político, onde ninguém conseguia explicar o motivo, o objetivo e o prazo da prisão – quanto no do indivíduo. A cadeia inicia como experiência de aniquilação do corpo: no livro há trechos sobre como a violência do regime interfere no sono, na alimentação, na libido. A vitalidade emocional e a riqueza no modo de ser se desidratam junto com a máquina biológica “reduzida ao imediato”, incapaz até de chorar e de se masturbar nos primeiros dias numa solitária da Polícia do Exército do Rio – como se a humanidade presente nas secreções produzidas pelos dois atos tivesse sido abortada literal e simbolicamente.

E, no entanto, há um percurso curioso em Narciso…. Com a transferência do cantor para um quartel da brigada paraquedista, onde já havia uma comunicação melhor com outros presos e com a vida exterior, personificada em visitas íntimas da então companheira Dedé, o livro se torna (mais) uma reinvenção de Caetano: não dos dados universais da civilização, e sim do horror oferecido pela barbárie. A história é contada décadas depois, claro, mas o seu presente continua existindo sob o registro inimitável de quem a fixa na página. É um feito artístico, antes de tudo: existem muitos relatos bons sobre cadeia, e nenhum oferece o sabor específico deste – a atenção a estes detalhes, a evocação desta paisagem afetiva e linguística. Nela, um pão duro é “um pão um tanto duro e sem manteiga”; uma voz calma é também “compreensiva, humaníssima, doce mesmo”; um devaneio amoroso é um “enternecimento” a desequilibrar a “letargia que era a minha proteção”.

Nessa literatura entre a digressão proustiana e a retórica barroca, a glória da frase é ser a um só tempo derramada e aguda, intuitiva e observacional. É assim que o autor narra como cantou sob a mira de uma metralhadora, como criou superstições envolvendo baratas e velhas joias do cancioneiro nacional. Ou então como, muitos anos depois de liberto, passou a ter uma estranha saudade dos dias de melhora física e mental no quartel dos paraquedistas: “Acho que naqueles momentos rememorados eu estava ganhando peso, lentamente salvando minha vida, como na infância (…). Entendi por que tantas vezes somos nostálgicos de fases da meninice que foram vividas na infelicidade: o som fanhoso de uma música sem interesse ouvida entre pessoas desprezíveis num crepúsculo sem cor pode, na lembrança, nos remeter a sensações (…) indizivelmente prazerosas (…), portas abertas para o sentimento perene dentro de mim da doçura de ser.”

Um dos efeitos da prosa de Narciso… é o de nos fazer enxergar de outra forma o que já tínhamos visto tantas vezes: o modo como esse calor humano, a aceitação do corpo como filtro principal e generoso da vida, se faz presente na poesia do autor. Um episódio contado no livro é exemplar nesse sentido. Um dia, ao folhear uma revista Manchete, Caetano encontrou entre fotos de mulheres seminuas as primeiras imagens da Terra vista do espaço – ou seja, da grandeza de um mundo que também era o seu naquela cela de poucos metros quadrados. A expressão disso numa letra escrita anos depois, pontuada pelo que o livro define como “traço baiano” de “deslumbramento respeitoso pelo sexo”, nunca deixa a beleza da metáfora se descolar de uma carnalidade palpável, ambas a serviço do gozo que contrasta com a melancolia do confinamento: “As tais fotografias/ Em que apareces inteira/ Porém lá não estavas nua/ E sim coberta de nuvens (…)/ Eu estou apaixonado por uma menina, Terra (…)/ Terra para o pé, firmeza/ Terra para a mão, carícia”.

Ainda na proposta de Gianetti, daria para enxergar a grande dialética civilização versus alegria no aspecto mais epidérmico da visão de mundo de Caetano: as relações entre a subjetividade física, reduzida ao nível básico dos sentidos (e às vezes da fisiologia), nada disso ainda constrangido pelas restrições e exigências da norma social, e os mitos culturais criados a partir daí. Nas décadas seguintes à prisão, e quem sabe sob influência dela, foi o que essa poesia não cansou de mostrar. Em imagens que depois de Narciso… talvez possamos ver como mais literais do que pareciam, aí estão a fala, o ouvido e o tato em Língua; a fome e a sede em Podres Poderes; a cegueira de tanto ver em O estrangeiro; o cuspe e o mijo no Leblon de Fora da Ordem e de Haiti.

Salvo engano, foi nos mesmos anos 1990 do Roda Viva e de Verdade Tropical que o compositor cunhou uma de suas frases célebres: “O Brasil vai dar certo porque eu quero que dê certo”. Isso pode ser um programa político ou uma voz do corpo – daquilo que sempre podemos fazer individualmente, com o otimismo da ação que nos cabe, para que melhore a nossa sensação de estar no mundo (e, logo, o mundo). É assim que se sobrevive a um regime autoritário. Que se reedita um livro numa época que parece perdida para a leitura. Que se canta ao lado dos filhos numa live cheia de beleza e esperança, como fez Caetano em julho último, em plena quarentena e durante um dos governos mais infames de nossa história.

Talvez não faça mais sentido discutir o que o Brasil fará ao se tornar civilizado, porque esse dia pode nunca vir. Mais ainda podemos celebrar nossa autonomia, a alegria de ter um corpo que deseja e sonha. Narciso… é um modo de nos lembrar a respeito: na chave pequena e imensa da literatura, aí está algo que não tinha sido feito ainda.

Publicado no Valor Econômico, 13/11/2020 (original aqui).

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