O Evangelho da recusa

por Michel Laub

Em 2009, o sul-africano J.M. Coetzee publicou Verão, último romance de um ciclo autobiográfico que tinha também Infância (1997) e Juventude (2002). É um dos grandes livros deste grande escritor ao mesmo tempo fácil e difícil, moderno e pós-moderno, composto por entrevistas com mulheres que teriam tido relacionamentos com o próprio Coetzee – aqui tornado personagem depois de sua hipotética morte na vida real.

As entrevistas se alternam com o que seriam fragmentos de ideias para romances encontradas no diário do morto. Num deles, o narrador anota, tratando a si mesmo na terceira pessoa: “Evitar pôr ênfase demais no interesse dele por Jesus e transformar isto aqui numa narrativa de conversão”. Em outro: “A desenvolver: sua própria teoria educacional, cultivada em casa, suas raízes em (a) Platão e (b) Freud”.

As duas passagens trazem uma pista para interpretar a estranha trilogia que ocupou Coetzee na década seguinte à de Verão: os romances A Infância de Jesus (2013) e A Vida Escolar de Jesus (2016), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, e o mais recente A Morte de Jesus (The Death of Jesus, Viking, 2019). Lidos em sequência, os três contam a história provavelmente alegórica da formação de um menino (Davíd) junto a pais adotivos (Simón e Inés), num mundo de feição pós-apocalíptica onde não há memória do passado distante.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 11/12/2020. Íntegra aqui.