Houellebecq e uma ideia para decorar a sala

por Michel Laub

Trecho de O mapa e o território (Record, 399 págs., tradução de André Telles), que tem um personagem homônimo do autor (resenha do livro aqui):

“Tamborilou durante ao menos dois minutos na porta, fustigado pela chuva, antes que Houellebecq viesse abri-la. O autor de Partículas elementares vestia um pijama cinza listrado que o deixava parecido com um presidiário de novela; seus cabelos estavam desgrenhados e sujos; seu rosto, vermelho, quase um pimentão; e ele fedia um pouco. A incapacidade de cuidar da própria higiene é um dos sintomas mais claros da instalação de um estado depressivo, lembrou-se Jed (…).

– Trouxe uma garrafa de vinho. Uma boa garrafa… – exclamou Jed (…). Era um Château Ausone 1986 que, em todo caso, custara-lhe 400 euros: uma dúzia de voos Paris-Shannon pela Ryanair.

– Uma garrafa só? – perguntou o autor de Em busca da felicidade, espichando o pescoço para o rótulo (…). Então, sem dar uma palavra, deu-lhe as costas (…); Jed interpretou a atitude como um convite.

Ao que se lembrava, da última vez o cômodo principal, o living, estava vazio; agora, contava com uma cama e um televisor.

– É – disse Houellebecq –, depois da sua vinda, me dei conta de que o senhor era o primeiro visitante a voltar a esta casa, e que provavelmente será o último. Então, disse comigo, para que manter uma sala de visitas de fachada? Por que simplesmente não instalar meu quarto no cômodo principal? Afinal, passo a maior parte dos meus dias deitado; quase sempre como na cama, vendo desenhos na Fox TV; não é como se eu organizasse jantares.”