Nomes do horror

por Michel Laub

Poucas coisas são mais intensas que um pesadelo. E poucas coisas podem ser mais chatas que ouvir alguém contá-lo. Sensações não viram palavras com facilidade: um universo oceânico e abstrato de lembranças, que tem repercussão emocional direta para quem sonhou, só pode ser comunicado por um instrumento, a linguagem, naturalmente mais estreito. Ao acordar, tudo o que temos para evocar nossa angústia e medo são termos genéricos como “angústia” e “medo”.

O mesmo pode ocorrer quando tratamos de um pesadelo histórico. Uma reportagem de Philip Gourevitch na revista New Yorker (http://goo.gl/aGixBw) mostra como, vinte anos depois da guerra de Ruanda, quando hutus assassinaram 800 mil tutsis em cem dias, numa espiral de ódio fermentada pelo colonialismo – e pelo o olhar omisso da ONU –, ainda é difícil chegar a um consenso sobre como chamar o que aconteceu.

Publicado na Folha de S.Paulo, 9/5/2014. Íntegra aqui.