Música, amor e a alegria de morrer

por Michel Laub

Cioran em O livro das Ilusões (Rocco, 222 págs., tradução de José Thomaz Brum):

“Só na música e no amor existe a alegria de morrer, o espasmo voluptuoso de sentir que se morre por não poder mais suportar as vibrações internas. E nos regozija o pensamento de uma morte súbita que nos poupasse de sobreviver a esses momentos. A alegria de morrer, que não tem nenhuma relação com a ideia e a obsessiva consciência da morte, nasce nas grandes experiências de unicidade, quando se sente perfeitamente que esse estado não voltará mais. Na música e no amor só há sensações únicas; sentes com todo teu ser que estas não poderão mais voltar e lamentas com toda tua alma a vida cotidiana para a qual regressarás. Que admirável gozo gera a ideia de poder morrer em tais instantes, de que, por esse fato, não se perdeu o instante. Pois o retorno à existência cotidiana depois de tais instantes é uma perda infinitamente maior que a extinção definitiva. O desgosto por não morrer nos momentos culminantes do estado musical ou erótico nos ensina o quanto temos que perder vivendo (…). A música e o amor não podem vencer a morte porque, em sua essência, tendem a aproximar-se da morte à medida que ganham intensidade. Podem ser considerados como armas contra a morte só em suas fases menores. Uma música suave e um amor tranquilo constituem meios de luta contra ela. Não existe parentesco entre o amor e a morte, como tampouco o há entre a música e a morte; ao contrário, sua relação se estabelece através de um salto, que pode tratar-se apenas de uma impressão, mas que, interiormente, não é menos significativa que um salto. O salto erótico e o salto musical  para a morte! O primeiro te arremessa pelo insuportável de sua plenitude; e o segundo, pela soma de suas vibrações, que quebram as resistências da individualidade. O fato de que haja alguns homens que se suicidem ante a impossibilidade de continuar suportando as loucuras do amor reabilita o gênero humano, assim como o reabilitam as loucuras que experimenta o homem na vivência musical. Quem não entende e nem sente a música é tão criminoso quanto aquele que não sente que, em tais momentos, poderia cometer um crime.”