‘O mapa e o território’, de Michel Houellebecq

por Michel Laub

Publicado na Folha de S.Paulo, 2012:

Há livros que parecem bons, mas não têm alma, e livros que são o contrário. Os de Michel Houellebecq estão mais próximos do segundo grupo, e O mapa e o território – que deu o primeiro Prêmio Goncourt ao autor – não foge à regra.

Por ‘alma’ entende-se uma abordagem que não adere à linguagem, às ideias e ao gosto dominantes em sua época. Houellebecq sempre conseguiu isso de forma paradoxal, com toques de ênfase, sarcasmo e agudez ensaística em meio à mão pesada dos enredos e a uma prosa entre o mecânico e o “informativo”, ambas características dos best-sellers.

Exemplos desse tom não faltam em O mapa e o território. “Seu trabalho nos últimos seis anos resultara em pouco mais de 11 mil fotos”, diz a narração sobre o protagonista, um artista plástico que contracena com celebridades do mundo real, inclusive o próprio Houellebecq, e termina envolvido num crime rocambolesco. “Zipadas em formato TIFF, com uma cópia JPG de baixa resolução, cabiam com facilidade em um disco rígido de 640 Gb, da marca Western Digital.”

À medida que a trama se desenvolve, porém, o que de início soa como pastiche de ficção barata, catálogo de galeria ou verbete da Wikipedia – origem das acusações de plágio que o romance sofreu – ganha um caráter mais ambicioso. O tema é a obsolescência do indivíduo num mundo pós-industrial, saturado de tecnologia e vazio. E que uniformiza o trabalho, o consumo, as relações amorosas, a arte.

Houellebecq não vê o fenômeno sob ótica nostálgica nem apocalíptica. A abordagem é híbrida, ao mesmo tempo melancólica e satírica, contundente sem ser moralista. As digressões sobre pintura, sexo, família, dinheiro, política e costumes, numa história que termina com a frase “o triunfo da vegetação é total”, soam tão irônicas e azedas quanto interessadas, vindas de alguém que gosta suficientemente do objeto para se dar ao trabalho de dissecá-lo.

Criar empatia nessa faixa intermediária, que não conta com muletas sentimentais nem ideológicas, não deixa de ser um feito. É o que dá ao leitor uma sensação incomum: a de estar diante de um texto que, a par de seus excessos e gratuidades,  jamais se deixa domesticar. “Fedia um pouco, embora menos do que um cadáver”, é como o autor descreve a si mesmo em determinada passagem. “As coisas poderiam ser piores, afinal”. Ou melhores, se Houellebecq fosse previsível a ponto de se preocupar com isso.