Um casamento

por Michel Laub

Trecho do diário de John Cheever publicado na Piauí (tradução de Daniel Galera):

“A cachorra de Ben caga três montinhos no chão da biblioteca. Eu a castigo de manhã com uma revista enrolada. Uma hora depois, Ben pergunta: ‘Você reparou que Flora está com dificuldade para andar? Parece que ela sente muita dor quando levanta.’ Concluo, então, que quebrei a espinha do amado bichinho de estimação do meu filho. Sou do tipo de homem que pensa duas vezes antes de esmagar uma mosca e quando piso numa formiga o faço com cuidado, para não lhe causar dor. Machucar um animal me afeta profundamente; machucar um animal que o meu filho ama é devastador. Mary parece aprovar o meu sofrimento. Vem me informar que meu filho está agonizando; que posso ter aleijado a cadela, pois os quadris dela são muito frágeis. Bebo um pouco de scotch, cato um pedaço de pão com queijo, saio de casa e caminho pelo mato. Estou convencido de que matei o cachorro do meu filho. Veja só, esse homem de 51 anos deitado no campo, mastigando um pedaço de pão, com os olhos cheios de lágrimas. Matei o cachorro do meu filho; matei a afeição do meu filho. Foi um acidente, mas isso não é nenhum consolo. Sigo pela trilha até a represa, e esse simples exercício renova o meu bom-senso. Pode ser que também faça o uísque descer da minha cabeça. Quando volto, a cadela está melhor e, quando a levamos ao veterinário, aparentemente não há nada de errado com ela. Uma boa parte da nossa vitalidade é gasta com alarmes falsos; e penso, talvez injustamente, que Mary conseguiu criar um clima de ansiedade mórbida, algo semelhante ao poder que o pai dela tinha de estender um sentimento de condenação e ruína sobre seus domínios. Será uma neurose ou, como pensei certa vez, uma força perceptível das trevas? O correio vespertino traz uma carta dizendo que compraram dois textos meus. Fico feliz da vida, mas quando conto as boas-novas a Mary ela pergunta, da forma mais mesquinha: ‘Eles se deram ao trabalho de incluir um cheque?’ Para mim isso é sacanagem, pura sacanagem, e grito: ‘Que diabo você quer? Em três semanas eu ganho 5 mil, reviso um romance, limpo a casa, cozinho e cuido do jardim, e quando tudo dá certo você vem e me diz: ‘Eles se deram ao trabalho de incluir um cheque?’’ Quando responde, a voz dela soa mais aguda do que nunca: ‘Parece que eu nunca consigo dizer a coisa certa, não é?’ Ela desaparece pelo acesso da garagem. Não entendo essas viradas de maré, embora as estude há 25 anos. Tivemos três semanas de paixão, amor e bom humor transcendentes. Agora essa mesquinharia. Está além do meu controle – um telefonema ao acaso ou um sonho podem ser o estopim. E assim ela se afasta não apenas de mim, mas de todos nós.”

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