Beleza e fogos de artifício

por Michel Laub

Em dois filmes que revi há pouco, exemplos opostos de como um cineasta aproveita o próprio virtuosismo estético.

No primeiro, O sol, de Aleksandr Sokúrov, as cores filtradas e os andamentos vagarosos, que realçam cada gesto dos personagens e cada detalhe do cenário, do tique-taque de um relógio aos passos coreografados de um ganso, ajudam a compor uma atmosfera de isolamento, em que os dias anteriores à rendição japonesa na Segunda Guerra são vividos como uma suspensão onírica, quase surreal. Se Hannah Harendt formulou o conceito de banalidade do mal em cima de um funcionário medíocre do nazismo, aqui o imperador Hiroito é mostrado como uma criança alheia ao fato de ter se associado a Hitler, enviando  milhares dos seus soldados para a morte. Uma inocência do mal, se é que dá para dizer assim, ideia que não existiria não fosse o esplêndido aparato cênico montado pelo diretor russo.

Já em Um beijo roubado, de Wong Kar Wai, a atmosfera está presente não para ajudar a contar a história, mas para ser notada e aplaudida como elemento autônomo. Por que uma cena é vista pela câmera de segurança de um café? Por que mostrar uma briga numa resolução de imagem noturna, com as cores saturadas e o efeito da velocidade mais lenta? Em filmes anteriores do diretor, especialmente Amor à flor da pele e o terceiro segmento de Eros, a beleza era ainda mais deslumbrante, mas estava sempre a serviço do roteiro. Em Um beijo roubado, embora as presenças de Norah Jones, Rachel Weisz e Natalie Portman, vira apenas fogo de artifício, a tentativa de nos distrair de uma trama e de personagens que não têm quase nada a dizer.