Três contos de David Foster Wallace, morto há um ano

por Michel Laub

Para sempre em cima – um garoto de 13 anos e o ritual de passagem mais leve e luminoso da literatura americana pós-Salinger: na fila de um trampolim, muitos metros acima do tanque de mergulho, do cheiro clorado e doce que é “uma flor de pétalas químicas”, das toalhas, do alto-falante e das mulheres de curvas e pele marrom brilhante que compõem o “sistema em movimento” da piscina, ele intui que a perda do mundo que conheceu até aqui é nada diante da promessa refrescante de sua queda.

A pessoa deprimida – mulher obcecada por um episódio de adolescência – a briga dos pais divorciados para decidir quem pagaria seu tratamento dentário – arrasta pessoas próximas numa espiral trágica e ridícula de autocomiseração. Como em várias outras de suas histórias, que frequentemente tratam da cultura americana da vitimização, Wallace prefere destilar ironia não sobre os culpados de praxe – a família, a autoridade, as corporações –, e sim sobre o lado oposto.

B.E. no 46 07-97 Nutley NJ – Num livro quase enciclopédico como Breves entrevistas com homens hediondos (Companhia das Letras, 373 págs.), um apanhado caudaloso de monólogos e relatos escritos num tom que brinca com clichês burocráticos, acadêmicos, psicológicos e metalinguísticos, nenhum trecho atinge a voltagem da fala deste paciente do que parece ser uma instituição psiquiátrica ou policial. É um monólogo dostoievskiano ao contrário: o que era a defesa racional e monstruosa do algoz, em Crime e Castigo, aqui vira uma espécie de elegia subversiva da vítima – a defesa das vantagens existenciais dos sobreviventes de campos de extermínio e das mulheres estupradas.