Como falar dos livros que não lemos

por Michel Laub

Se Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard (Objetiva, 207 págs.), tivesse uma tese central, poderia ser a resumida neste trecho: “As pessoas cultas sabem – e, sobretudo, para sua desgraça, as pessoas incultas ignoram – que a cultura é antes de mais nada uma questão de orientação. Ser culto não é ter lido este ou aquele livro, é saber se orientar no conjunto e estar em condições de situar cada elemento em relação aos demais”.

Isso tanto em termos utilitários – o verniz que traz respeito social – quanto em relação à própria leitura: afinal, o que fica de um romance terminado há uma década, ou mesmo há uma semana, senão fragmentos processados de acordo com as idiossincrasias de nossa memória, que se confundem com nossos valores e preconceitos?

Bayard toca num ponto curioso: já que quase toda leitura está destinada a esse limbo relativista, não faria mais sentido desistir de tentar apreender a totalidade de uma obra, aproveitando o tempo para saber menos, mas o suficiente, sobre muitas outras? Faz diferença enfrentar Ulisses, algo que vai nos consumir meses ou anos, se o que “importa” é saber sobre o que o texto trata, qual sua relevância, quais foram suas inovações de linguagem, que lugar ele ocupa na história da literatura?

Se as perguntas fossem realmente a sério, uma crítica inevitável a Como falar… seria a de que o autor esquece aquilo que move a maioria dos leitores. Ou seja, o prazer, o medo, o impacto, o encantamento e todas as sensações que tiramos de um livro em si, concomitantemente à sua fruição, o que é imediato e anterior a qualquer elaboração intelectual. É isso o que ficou para mim, por exemplo, dos romances de mistério da Coleção Amarela que li pelos 12 ou 13 anos, dos quais é difícil lembrar até os títulos. Ou dos gibis de terror da editora Vecchi. Ou de centenas de histórias de Tio Patinhas, Bolinha e Marvel que deixaram a infância gloriosamente autista e colorida.

Mas Bayard está longe de ser tão óbvio. Mais que uma tese, seu livro é um exemplar acabado de prosa irônica, que usa um cinismo falso para, no fundo, fazer uma homenagem ao objeto que parece desconstruir. Argumentando o tempo todo que não é preciso ler, citando o tempo todo obras que supostamente só folheou ou ouviu a respeito – mas que, percebe-se logo, ele conhece em detalhes –, parecendo o tempo todo flertar com uma variante de auto-ajuda para emergentes culturais, o ensaio também pode ser interpretado como uma ode à natureza da leitura. Só que uma natureza nem sempre percebida: a de um conhecimento sempre individual, incomunicável, irredutível a qualquer fórmula, e que por isso mesmo é um dos mistérios mais fascinantes da vida.