Dez motivos para um escritor iniciante cursar uma (boa) oficina literária

por Michel Laub

(O jornal Zero Hora me pediu e publicou esta lista numa matéria sobre o livro Oficinas Literárias: Fraude ou Negócio Sério?, de  José Hildebrando Dacanal):

1. Para quem está num nível ainda básico de texto, é a chance de queimar rapidamente etapas iniciais e obrigatórias do aprendizado.

2. Para quem nunca estudou letras nem gostou de ler crítica, é a chance de ter contato, mesmo que resumido, com as principais técnicas, discussões e correntes da história da literatura. Parece burocrático, mas evita a tentação de reinventar a roda.

3. Para quem só teve o texto avaliado pela mãe e pela irmã, é a chance de ouvir opiniões de gente com algum distanciamento e alguma afinidade com a literatura.

4. Para quem é indisciplinado ou tem dificuldade de se concentrar, é a chance de passar um tempo escrevendo regularmente, o que é sempre benéfico.

5. Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.

6. A oficina treina e melhora a leitura, o que é condição básica para fazer ficção.

7. Para muita gente esta é a primeira chance de conviver ao vivo com quem gosta de escrever. Isso pode ser importante em muitos aspectos, dos mais solenes – troca de experiências, leituras e opiniões – aos mais dramáticos e divertidos – contatos futuros, informações sobre o meio literário e editorial, observação do comportamento alheio em guerras de ego, etc.

8. Uma oficina decente faz exercícios com diversos estilos, narradores, registros e eventualmente gêneros. Isso pode ajudar a descobrir uma vocação escondida.

9. Ainda no item 8: a oficina não dá talento a ninguém, e sim melhora a técnica, que é o instrumento para levar o talento à página em branco. Não imagino como possa acontecer o contrário, isto é, as aulas castrarem o potencial de alguém.

10. Ainda no item 9: há um momento, depois de terminado o curso e passado algum tempo, em que o aluno precisa se libertar do que aprendeu em aula. Mas até para isso a oficina é útil: ela dá os instrumentos para que este aluno encontre sua própria voz, se ela existir em algum lugar.

Anúncios