Refugiados: presente e futuro

por Michel Laub

No início deste ano, tendo passado 2021 quase todo em Berlim, remexi documentos de família numa pasta antiga, que eu tinha aberto duas ou três vezes na vida. Nela estão os registros formais da vinda do meu pai ao Brasil, ele com oito anos, junto com a mãe e uma irmã, num dos últimos navios que deixaram o porto de Hamburgo trazendo judeus para a América do Sul em 1939.

É uma experiência curiosa voltar a ter contato com esse material depois de estudar um pouco de alemão. Há uma sensação ambígua, uma familiaridade incômoda, em reconhecer certos detalhes do idioma das autoridades nazistas aplicado a pessoas próximas – cuja sobrevivência determinou, entre tantas outras coisas, o fato de eu ter nascido.

A leitura dos documentos não desmentiu nenhum fato da grande história, claro, nem recontou uma saga de emigração forçada cujos pontos importantes eu já conhecia. Mas é como se os célebres eufemismos administrativos do Terceiro Reich, agora formalizados num vocabulário que não me soa mais tão estranho e repelente, trouxessem uma consciência mais específica de um horror nem sempre fácil de nomear: as vacinas listadas num certificado, o “passaporte estrangeiro” que a minha avó utilizava com um “Sara” acrescentado ao seu nome.

Em meio aos papeis da pasta encontrei algo inusitado, de que eu não sabia ou não lembrava: um processo do fim dos anos 1960, no qual meu pai pede indenização ao Estado alemão por traumas de guerra. A petição, os trâmites e a sentença estão vertidos para o português, e também aí se vê a distância entre a frieza da linguagem traduzida – o modo como burocratas recontam o dia-a-dia sob Hitler, o jargão de médicos chamados a dar pareceres – e o pesadelo que ela foi capaz de justificar tão poucas décadas antes.

Não vou entrar em maiores detalhes do processo. Talvez um dia o faça num texto de outro gênero, se a família não achar indevido. Apenas digo que nessas páginas há um debate sobre a natureza do dano psicológico em crianças refugiadas, o que se estende a adultos. No consenso cultural da época, era muito mais aceito falar em danos materiais, palpáveis segundo uma lógica de soma e subtração. Isso mudou de lá para cá, não há dúvida. Mas em que grau, e devido a quais instrumentos?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/3/2022, sobre meu pai, Stefan Zweig e a Ucrânia. Íntegra aqui.