A dinâmica das trevas

por Michel Laub

Em janeiro de 1998, num ensaio publicado na revista Bravo, Olavo de Carvalho sintetizou o que passaria as duas décadas seguintes martelando: a ideia de que o regime militar brasileiro havia sido negligente naquilo que ele já chamava de guerra cultural.  Enquanto a direita se preocupara apenas com o poder político e econômico, a esquerda teria lido Antonio Gramsci e buscado uma hegemonia mais efetiva, fixada no “subconsciente popular”.

Para quem acompanhava o articulista, não havia nada de novo no texto. A curiosidade era o último parágrafo: uma ideia atribuída a Roberto Campos, que estimava em trinta anos o tempo para uma guerra cultural se traduzir em ganhos políticos. Os exemplos citados eram os Estados Unidos e a Inglaterra, onde Ronald Reagan e Margaret Thatcher seriam frutos do longo combate intelectual promovido por nomes como Russel Kirk, Roger Scruton e Paul Johnson.

Lida hoje, a passagem tem algo de premonitório. Os tais trinta anos foram abreviados para vinte por atalhos que nem podiam estar no horizonte de Roberto Campos, como o surgimento das redes sociais e dos smartphones. Idem por eventos da economia e da política que misturam razões estruturais, atos individuais e acaso na ascensão do reacionarismo atual – da crise de 2008 aos métodos da Lava Jato, das jornadas de 2013 ao papel de Eduardo Cunha na queda de Dilma, da reação ao discurso das minorias à facada em Jair Bolsonaro.

Ao menos em parte, no entanto, não há como explicar o Brasil que desaguou em 2018 sem voltar a Olavo. A questão é: qual Olavo? A resposta talvez passe pelo ensaio de 1998: prevaleceram as ideias defendidas pelo seu autor ao longo de duas décadas, com a ajuda do atalho tecnológico, ou a barbárie que tomou o país tem menos a ver com conteúdo do que com forma, isto é, com o modo como essas ideias se espalham segundo a dinâmica da Internet?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/2/2022. Íntegra aqui.

Publicidade