A palestra matemática perfeita

por Michel Laub

João Moreira Salles sobre o discurso de Artur Avila ao ganhar a Medalha Fields de matemática, maior prêmio já concedido à ciência brasileira (texto publicado na Piauí de setembro):

“Às duas da tarde de sexta-feira (…), Avila subiu ao palco. Na segunda fileira, um senhor se inclinou para a frente. Alto, magro, barba e cabelos imaculadamente brancos, olhos intensos e rosto afilado de zigomas pronunciados, lembrava um místico de novela russa. Era John Milnor. Pense num gigante matemático, salpique gênio a gosto e este será o americano Milnor, de 83 anos, Medalha Fields 1962 (e mais quantos prêmios relevantes existam na matemática). Em 2001, ele viajara ao Rio para integrar a banca de defesa de tese de Avila. Agora, segurava um bloco no qual se avistava uma folha virgem, pronta para receber anotações. Estava pronto para começar e, se tivesse um lápis, o levaria à ponta da língua.

Todo de preto, vestindo jeans e camiseta, Avila se dirigiu ao auditório lotado: ‘Tenho certa dificuldade em falar para tantas pessoas. Já tentei explicar meu trabalho várias vezes, sem muito sucesso, e hoje vou tentar pela última vez.’ Então projetou o primeiro slide. Dez minutos depois, Milnor largou discretamente o bloco na poltrona vazia a seu lado. A folha continuava limpinha, limpinha.

Um matemático russo certa vez descreveu a palestra matemática perfeita: no primeiro terço, palestrante e plateia compreendem o que está sendo dito; no segundo, o palestrante compreende e a plateia não; no terço final, ninguém compreende coisa nenhuma. Avila parecia ter entrado direto no segundo terço e prosseguira assim até o final. Welington de Melo, na condição de uma das raras almas na plateia que o compreendiam, balançou a cabeça. Horas depois, daria seu veredicto: ‘Foi uma porcaria… O Artur não pode fazer isso. Ele tem que ser um embaixador do campo. Precisa ir devagar.’

Avila não ligou. Aparentemente, outras pessoas também não: mal terminou de falar, foi cercado por dezenas e dezenas de jovens, todos querendo uma foto a seu lado.”

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