Novo vocabulário político

por Michel Laub

A linguagem do poder democrático pode ser chata: porcentagens, orações adversativas sem glória. Um governo só consegue ser funcional com alguma reverência aos fatos. Talvez desse para contar a história brasileira dos últimos vinte anos pelo modo como nossos principais partidos sublinharam ou negaram – sem sucesso – tal monotonia.

Em tese, a social democracia petista é a primazia da política sobre a ação econômica. O social liberalismo do PSDB seria o contrário. No primeiro caso, o discurso foi temperado com algum getulismo e retórica grandiloquente setentista; no segundo, com toques de República Velha e jargão tecnocrata noventista.

Apesar das diferenças de sotaque, visão de Estado e visão da sociedade, ambos são partidos reformistas do fim do século 20. Seus governos têm em comum, ao menos, a ênfase na prosperidade como motor de justiça social. O que volta e meia leva a uma abordagem quantitativa: cidadania é igual a renda, educação é igual a número de alunos na escola ou na faculdade.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/10/2014. Íntegra aqui.