Sofrimento e simpatia

por Michel Laub

Primeiro, uma fala do pintor Francis Bacon (1909-1992) no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs., tradução de Maria Theresa de Resende Costa): “O sofrimento das pessoas e a desigualdade entre elas é o que gerou a grande arte (…). Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? (…) É possível (…) que uma sociedade (…) seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”

Depois, um ataque do escritor Aimé Césaire (1913-2008) ao sociólogo Roger Caillois em Discurso sobre o Colonialismo, livro que comentei aqui meses atrás (Veneta, 136 págs., tradução de Rogério de Campos): “Os museus dos quais ele se envaidece, melhor seria, no geral, não precisar abri-los (…). A Europa [faria] melhor em tolerar ao seu lado civilizações vivas, dinâmicas e prósperas, inteiras e não mutiladas (…), em vez de nos permitir admirar, devidamente rotulados, os seus membros esparsos, os membros mortos (…). O próprio museu não é nada; ele não quer dizer nada (…) lá onde a beata satisfação consigo apodrece os olhos (…); onde, confessado ou não, o racismo silencia a simpatia (…). Não: na balança de conhecimento, o peso de todos os museus do mundo nunca será o mesmo de sequer uma centelha de simpatia humana.”

Penso nos dois trechos ao visitar o recém-inaugurado Humboldt Forum, de Berlim. Trata-se um museu que reúne acervos de etnografia, misturando ciência e arte, num antigo palácio prussiano cujo estilo arquitetônico original foi restaurado. A combinação entre forma e conteúdo do projeto, que demorou quase vinte anos para ser concluído, é motivo de polêmica há tempos: além das referências a glórias imperiais e cristãs na fachada do prédio, parte das coleções ali presentes foi montada durante o auge do colonialismo alemão e europeu.

O debate encontra eco num mundo crescentemente atento ao papel das instituições culturais – à não-neutralidade delas naquilo que adquirem, guardam e expõem. Muitas das peças do Forum, que está sendo visto como uma espécie de Museu Britânico berlinense e contemporâneo, têm a legitimidade contestada. Exemplo são cerca de 500 dos chamados Bronzes do Benim, produtos reconhecidos de saques ingleses no Século XIX que a Alemanha prometeu devolver à Nigéria nos próximos anos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13-8-21, sobre o Humboldt Forum e a estátua do Borba Gato. Íntegra aqui.