Formas de colaborar com o horror

por Michel Laub

O que a história faz com artistas que colaboram com o totalitarismo? Depende. Uma exposição em Berlim lembra que a carreira deles nem sempre termina com o fim dos regimes aos quais servem, como seria esperado. Die Liste der Gottbegnadeten, em cartaz até 5 de dezembro no Deutsches Historisches Museum, reúne pinturas e esculturas produzidas nas décadas seguintes à Segunda Guerra por nomes que, se no geral não fizeram propaganda nazista aberta, silenciaram por conveniência enquanto eram ajudados em encomendas e exposições do Terceiro Reich.

O título da mostra faz referência a uma lista elaborada em 1944 por Hitler e Goebbels, com gente das artes visuais, literatura, música e teatro que foi dispensada dos esforços militares alemães em função de um talento “dado por deus”. Seus trabalhos seriam o contraponto à “degeneração” do cubismo, surrealismo, dodecafonismo e outras correntes modernas, numa ideia que faz sentido dentro da lógica nacional-socialista: como se sabe, essa foi uma ideologia que tentou fundir política e estética, com a última representando simbolicamente os ideais arianos classicistas /regressivos.

Nas décadas posteriores à guerra, uma parte desses artistas se dedicou a justificar suas antigas escolhas. Num vídeo que está no Historisches Museum, por exemplo, o pintor Paul Mathias Padua cita pequenas negativas e divergências com prepostos do regime para se declarar uma espécie de resistente discreto (tão discreto que ninguém ficou sabendo), o que contradiz sua alegação de ignorância quanto aos crimes oficiais do período (no qual ele já tinha mais de 30 anos). A conversa não cola, claro, porque tudo é autoexplicativo num tempo em que alguns faziam sucesso enquanto outros eram perseguidos e mortos, mas isso não impediu que as obras do autor fossem compradas por coleções institucionais e privadas da segunda metade do Século XX.

Do mesmo modo, o conforto material e até um certo prestígio acompanhou as décadas finais de muitos integrantes da lista de Hitler. Josef Wackerle seguiu dando aulas até se aposentar. Joseph Enseling fez trabalhos para indústrias no Vale do Ruhr. Willy Meller teve projetos patrocinados pelo Correio Alemão e concebeu um monumento às vítimas da guerra em Frechen. Josef Wackerle ganhou um prêmio em Munique e novas encomendas, como a colaboração no design de um prédio da Siemens em Erlangen, do mesmo arquiteto com quem atuou na época de ouro do nazismo.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 10-9-21. Integra aqui.