Riso e horror no espelho

por Michel Laub

Um dos melhores romances do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) fala de um sujeito chamado Reger, que há trinta anos cumpre o mesmo ritual: “a cada dois dias, com exceção das segundas”, postar-se por uma hora diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, numa sala de um museu em Viena. A história é hilária não pelo que (não) acontece, e sim pelo modo como é narrada por um amigo do protagonista, Atzbacher: sua voz imita a de Regel xingando os alvos mais diversos da cultura de sua época, num monólogo reiterativo e exuberante tipicamente bernhardiano (Old Masters, The University of Chicago Press, 156 págs., tradução para o inglês de Ewald Osers).

Numa análise rápida, dá para dizer que o livro fala de muitas coisas, mas não do próprio Homem de Barba Branca. A pintura é apenas um nome citado de passagem aqui e ali. A biografia e as questões formais que preocuparam Tintoretto são tópicos ignorados. Em vez disso, a apreciação estética no discurso de Reger/Atzenbacher tem um tom radicalmente generalizante: “Os historiadores da arte são os verdadeiros assassinos da arte”; “O negócio dos historiadores da arte é o mais vil dos negócios”; “Um historiador de arte tagarela, e só há historiadores da arte tagarelas, deve ser expulso do mundo da arte a chicotadas.” Na moral convicta dessa voz, que é a moral irônica de Bernhard, a hipocrisia e obtusidade do mundo moderno desvirtuariam uma espécie de ideal – a verdade que pode estar num livro, numa peça de música, numa tela.

O que Reger vê no museu, contudo, e sem comunicar isso a Atzbacher, que por sua vez não comunica ao leitor, talvez seja a representação possível dessa verdade. A obra de Tintoretto funciona no livro como referência quase subliminar, o ponto na comparação com o qual se degrada a cultura que Bernhard satiriza. Não sei por que Homem de Barba Branca foi usado como mote de Old Masters, mas a razão poderia ser até literal: afinal, o que mais chama a atenção no quadro pintado pelo italiano são os olhos do retratado. Por causa da severidade deles, da assertividade inegociável com que eles conduzem e fixam nossa atenção, esta imagem de 1545 jamais foi nem será passiva. Olhar para ela traz sempre um incômodo: nos tornamos também objeto de escrutínio, assim como a sociedade da qual fazemos parte, do mesmo modo que acontece – bingo – ao lermos romances como os de Thomas Bernhard.

Trecho inicial de texto sobre Bernhard, Gerhard Richter e o nazismo, publicado no Valor Econômico, 18.6.2021. Íntegra aqui.