Alemão aos oitoequarenta

por Michel Laub

Meu pai era de Berlim. Nasceu em 1930 e saiu pouco antes da Segunda Guerra, num daqueles últimos navios que serviram de fuga aos judeus. Durante uns bons 30 anos, ele manteve com a Alemanha uma relação desconfiada por motivos óbvios, e só foi se reconciliar com as próprias origens em algum ponto dos anos 1970 – quando a situação financeira lhe permitiu fazer a primeira das muitas viagens que faria à terra natal até morrer, em 2010.

Conto essa história porque em 1994 apresentei meu pai a um amigo de Hamburgo, e os dois conversaram no idioma que acabei não aprendendo na infância (um pouco, quem sabe, por causa dessa desconfiança familiar) e nem mais tarde (aí por preguiça mesmo). Esse amigo comentou depois: “Seu pai fala um alemão que não existe mais”. De fato: a exemplo da Berlim e do mundo dos anos 1930, certos detalhes do vocabulário e da prosódia usada na época viraram ruínas – persistindo apenas na memória de quem não teve contato com as mudanças na expressão oral corrente do país ao longo das décadas.

Gosto de pensar na língua como uma espécie de museu. Transportando o exemplo para o português, é nele que ainda estão gírias de época, antigos bordões de novelas, apelidos usados por casais que deixaram de se ver. No meu caso, e em vários sentidos, a Porto Alegre onde fui criado e de onde saí há quase vinte e cinco anos – a evocação de suas pessoas, lugares, fatos – sobrevive em determinadas expressões, determinadas sílabas de um sotaque que só à distância aprendi a identificar com clareza.

A imagem do museu, contudo, refere-se ao que essa instituição passou a ser em décadas recentes: não apenas um guardião do passado, mas um instrumento capaz de reinventar a história sobre a qual se debruça, discutindo suas repercussões na vida dos que foram e serão tocados por ela. É uma operação que também aponta para o futuro: é na língua que começam debates sobre certas heranças da barbárie – em termos como “mulato” ou “judiação” –, sobre vieses políticos – chamar alguém de “manifestante” ou “vândalo”, de “combatente” ou “terrorista” – a serem ou não reproduzidos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 4.6.2021. Íntegra aqui.