Brasileiros em Berlim

por Michel Laub

 “Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos jogos Olímpicos não deve viajar (…) no que as companhias aéreas chamam de ‘classe econômica’”. Assim começa Um Brasileiro em Berlim, reunião de crônicas que João Ubaldo Ribeiro publicou em 1990 no jornal Frankfurter Rundschau (Frankfurt/M, 164 págs., edição bilíngue). A frase soa carinhosamente anacrônica: mesmo que os voos internacionais tenham até piorado de lá para cá, reclamar desse tipo de coisa hoje seria um luxo, quase um alento em meio a pandemia, recessão e crise moral sem fim.

O tema do livro é a temporada que o escritor baiano passou como bolsista da DAAD, órgão governamental alemão de apoio às artes, na capital de um país recém unificado depois da queda do Muro. Ubaldo fala de praças, padarias, ciclistas. Do idioma impenetrável que os filhos aprendem sem esforço na escola, dos canibais da Amazônia no estereótipo do Brasil de então. O tom geral é o da frase de abertura, uma ironia hiperbólica e ao mesmo tempo leve, condizente com o “rés-do-chão” que Antonio Candido disse definir o gênero crônica – e que, acrescento eu, sempre paga algum tributo ao anti-intelectualismo. “Gostaria de ser profundo”, escreve João Ubaldo, um autor de formação bastante erudita. “Ou chato, que muitas vezes é sinônimo de profundo. Mas não sou profundo e aspiro a não ser chato.”

É curioso pensar em como um livro com a temática de Um Brasileiro… seria escrito hoje. A par da fluidez e sabor do texto, o que torna a leitura prazerosa no fim das contas, o imaginário de país que emerge dessas páginas –  a cada frase, na comparação constante com a vida da Alemanha – soa ainda mais datado do que se esperaria num conjunto de crônicas. A comédia das contradições da classe média brasileira, tom ao qual Ubaldo acena usando o microcosmo da própria família, foi substituída pela tragédia do ódio entre irmãos, amigos, vizinhos. A bagunça simpática do nosso suposto modo de ser virou uma nada suposta boçalidade. E os estereótipos, bem, esses dão até saudade do tempo dos canibais: a forma como o mundo passou a nos ver – um agrupamento suicida governado por um defensor da morte – é a descrição exata do nosso presente e futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9-4-21, sobre a experiência de morar em Berlim segundo João Ubaldo, Bernardo Carvalho e eu mesmo. Íntegra aqui.