Dor e dinamite

por Michel Laub

Em 1985, a escritora e cartunista norte-americana Alison Bechdel publicou uma tira célebre em sua série Dykes to Watch Out For. Nela, uma personagem diz que só vê filmes que 1) têm pelo menos duas mulheres; 2) elas conversam uma com a outra; 3) sobre alguma coisa que não seja um homem. O que era um pouco piada, um pouco discurso a sério, virou referência em discussões de Internet sobre preconceito de gênero no imaginário contemporâneo. Afinal, a imensa maioria das histórias ficcionais de hoje – e não só as criadas por homens – acabaria reprovada em um dos três requisitos.

Mas há algo de simplificador, claro, nesse tipo de critério. Na arte existe ironia, contraste, incômodo proposital e tantos outros recursos que põem nuances no valor de face de uma narrativa. A denúncia de uma situação opressiva, por exemplo, pode ocorrer quando o opressor é uma figura totalizante, que assombra cada palavra dita ou pensada por sua vítima. É o caso de Vista Chinesa, novo romance de Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.), e do modo mais radical possível em se tratando da temática de gênero: o livro reproduz a elaboração de um estupro – e, logo, a presença irrecorrível do estuprador – na sensibilidade de uma arquiteta carioca.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26-3-21, sobre os novos livros de Tatiana Levy e Natércia Pontes. Íntegra aqui.