Delicadeza contra o horror

por Michel Laub

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.