‘Carnage’, de Roman Planski

por Michel Laub

Publicado na revista Bravo, junho/2012:

Existem vantagens em filmar uma peça de teatro de sucesso como Carnage, de Yasmina Reza. Uma delas é o enredo testado e aprovado. Outra, a produção relativamente barata, que precisa apenas de dois casais discutindo, num único ambiente e sem efeitos visuais, um episódio de violência envolvendo seus filhos.

Na transposição entre linguagens diversas, porém, o que Roman Polanski faz nesta mistura de drama e sátira, é comum que algo se perca. O teatro conta com a presença física do ator, por exemplo, o que ajuda a criar intimidade e pode compensar a monotonia de uma situação reiterada, cujo andamento é estabelecido por viradas às vezes bruscas, ou artificiais sob uma perspectiva realista, nas falas, gestos e atos.

No filme, essa intimidade quase não existe: o cenário é neutro, as atuações ficam entre o estridente (Jodie Foster) e o anódino (John C. Reilly), e as marcações de ritmo que poderíamos aceitar numa peça – como Christoph Waltz e Kate Winslet tentando deixar o apartamento onde se passa a história – na tela soam esquemáticas. Talvez porque esperemos do cinema aquilo que em Carnage aparece de forma tímida: os cortes, a composição de personagens que não se baseia apenas em diálogos, os recursos que os limites de um palco e de uma apresentação ao vivo não possibilitam.

Ainda assim, a versão seria menos decepcionante se houvesse mais consistência no texto que lhe deu origem. Nascida na França, Reza parece inspirada no teatro psicológico americano do Século 20, com suas jornadas de dissolução conjugal e familiar em meio ao conforto burguês. Não falta nem o uísque, elemento obrigatório nessa tradição, mas o estofo de autores como Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Edward Albee passa ao largo desta trama previsível, em que o sentido é revelar a hipocrisia por trás da polidez e dos eufemismos politicamente corretos.

Numa obra que recebeu o Tony Awards, um dos prêmios conceituados do teatro nos Estados Unidos, surpreende a diluição dos assuntos tratados – que vão do bullying à tecnologia, da sordidez da indústria farmacêutica ao massacre de Darfur – numa densidade de noticiário de TV. Ou não surpreende, porque é dali que tudo provavelmente foi tirado. Presa a um imaginário um tanto conhecido, e a par de momentos isolados de humor e inteligência, a dramaturgia da autora acaba aderindo a uma certa banalidade de seu objeto. Como um sintoma involuntário, e nem por isso menos importante, dos enganos da época que pretende denunciar.