Bloqueios e desbloqueios

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Há muitos tipos de bloqueio literário. Num ensaio publicado na New Yorker em 2004, Joan Acocella associa a noção moderna do problema ao romantismo do século 19: ali se consolidou a figura do artista atormentado pelas forças caprichosas da inspiração, que a qualquer momento e sem motivo aparente poderia abandoná-lo. Ver na criação um trabalho como qualquer outro, dependente apenas da vontade, passou a ser coisa de escritores superficiais. Desconfiança que dura até hoje, apesar de experiências como a descrita pela neurocientista Alice Flaherty ― uma nova técnica de desbloqueio chamada “Estimulação Magnética Transcraniana” ― ou de sites ― vale uma visita, ao menos para ver a foto ― como o www.unblock.org.

Acocella lista os clássicos do tema, tanto em termos de escrita quanto de publicação: de Coleridge, que chamou a própria paralisia de “terror indefinido e indescritível”, a J.D. Salinger, que passou suas últimas cinco décadas considerando a hipótese de lançar livros novos uma “invasão terrível de privacidade”. Os motivos internos, digamos assim, variam: falta de assunto, ansiedade e drogas, ambição inatingível, pudor associado a pessoas próximas ou a si mesmo. Exemplo constante é o do autor asfixiado pelo sucesso do primeiro ou primeiros livros: Ralph Ellison morreu em 1994 deixando 2 mil páginas inéditas do que seria o sucessor de O homem invisível (1952). Já Harper Lee, que publicou To kill a mockinbird em 1960, disse no ano seguinte estar trabalhando num novo manuscrito ― que ainda pode sair, embora hoje ela esteja com 84.

Deixando de lado razões existenciais, o fato é que a escrita sempre opera contra algum tipo de resistência. O primeiro obstáculo é a linguagem: como vencer as camadas de clichês, fórmulas e ideias genéricas para chegar ao que Paul Valéry, que viveu longos períodos de inatividade, chamava de “natureza da experiência”. No meu caso, dois exemplos diferentes entre si: o tempo em que precisei me desintoxicar do vocabulário e da sintaxe ― formal e mental ― do texto jurídico, com o qual lidei durante anos de faculdade hedonista e advocacia desastrosa, e o tempo ― em vigor até hoje ― em que precisei esquecer do jornalismo a cada vez que tento fazer ficção. Tanto a pompa do direito quanto a objetividade da reportagem são inimigos diretos da literatura: mesmo que se aproveite o jargão legal de forma ilustrativa ou irônica, ou que as técnicas de concisão e edição de texto possam servir para dar ritmo a um romance, no momento em que ambos entram no terreno ficcional alteram sua natureza e obedecem a regras diversas de uso.

Profissões são um capítulo à parte na história do bloqueio. Ou na da gestação de livros ruins, que pode ser outra face do mesmo problema. Um publicitário acostumado a agradar e/ou mentir para vender um produto ou comportamento só poderá ser bom escritor se entender que literatura é o contrário disso. É o velho paradoxo: a ficção mente para dizer a verdade, enquanto o jornalismo, por exemplo, muitas vezes diz uma suposta verdade para no fundo mentir. E haveria muito a dizer sobre desdobramentos práticos do trabalho em determinadas obras: Drummond foi funcionário público numa época em que isso era (ainda) mais tranquilo; Borges foi bibliotecário e (ao que parece) tinha tempo e paz para escrever; Faulkner declarou sobre a época em que foi zelador de bordel: “Para um artista, é o melhor lugar. Tem-se liberdade econômica, um teto e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar a polícia local”.

De maneira oposta, Raymond Carver considerava o fato de ter tido filhos cedo, e muita dificuldade de sustentá-los com bicos subalternos, a razão por que se especializou no conto, gênero que exige uma dedicação menos contínua que o romance. Para mim, os anos passados em redação e escritório ajudaram no hábito de aproveitar brechas de tempo, em horários de almoço ou truques um tanto engenhosos durante o expediente, para escrever de forma concentrada: como eu nunca sabia quando teria outra chance daquelas, e até que tivesse era bem provável que esquecesse o que queria dizer, passei a dividir histórias longas em capítulos breves, que pudessem ter ao menos um rascunho concluído numa única sessão de trabalho.

As duas soluções, que a partir de gênero e forma acabaram determinando conteúdos diversos ― inclusive na qualidade, claro ―, são vitórias possíveis contra a tendência universal à procrastinação e auto-sabotagem. Em seu melhor e mais divertido livro, Bartleby e companhia, Enrique Vila-Matas usa o personagem de Melville ― outro bloqueado célebre ― e seu bordão “prefiro não fazê-lo” para discorrer sobre escritores reais e imaginários que tiveram a “elegância de se calar”. Cada um lê essa mistura de romance e ensaio de um jeito, mas para mim Vila-Matas está falando de depressão. Ou, num sentido menos médico e restritivo, de esgotamento. Se precisasse resumir num termo o sentimento para onde convergem a maioria das aparentes causas do bloqueio, seria este. Afinal, na definição de Elizabeth Hardwick, e considerando a preguiça, a melancolia e o pânico que podem surgir quando precisamos começar um livro do zero, ou tirar uma coluna da cartola no último dia de prazo: “Escrever é tão duro por ser o único momento da vida em que você tem de pensar”.