Mao, a bomba, os EUA e Deus

por Michel Laub

Trechos de falas de Mao Zedong em Sobre a China, de Henry Kissinger (Objetiva, 556 págs.):

1954 – “O povo chinês não vai se deixar acovardar pela chantagem atômica norte-americana. Nosso país tem uma população de 600 milhões e uma área de 9.600.000 quilômetros quadrados. Os Estados Unidos não podem aniquilar a nação chinesa com sua pequena pilha de bombas atômicas. Mesmo que as bombas (…) fossem tão poderosas que (…) abrissem um buraco até o centro da Terra, ou explodissem o planeta, isso não significaria praticamente nada para o universo como um todo, embora pudesse ser um evento de magnitude para o sistema solar (…). Se os Estados Unidos com seus aviões, mais a bomba atômica, lançarem uma guerra de agressão contra a China, então a China, com seu painço, mais seus fuzis, sem dúvida emergirá vitoriosa.”

1957 – “Não devemos ter medo de bombas e mísseis atômicos. Não importa o tipo de guerra que possa vir – convencional ou termonuclear –, vamos vencer. Quanto à China, se os imperialistas deflagrarem a guerra contra nós, podemos perder mais de 300 milhões. E daí? Guerra é guerra. Os anos vão passar, e vamos trabalhar para produzir mais bebês do que nunca.”

Para Khruschev, em 1958, referindo-se à visita que fez a Moscou em 1949-1950 – “Stalin não quis concluir um tratado de amizade conosco e não quis anular o antigo tratado com o Kuomitang (partido nacionalista chinês que se opunha aos comunistas). Lembro que (…) me transmitiram o conselho [de Stalin] de empreender uma viagem pelo país para dar uma olhada. Mas eu disse a eles, tenho apenas três tarefas: comer, dormir e cagar. Não vim a Moscou só para dar os parabéns a Stalin por seu aniversário.”

Na primeira conversa com Richard Nixon, em 1972, ao comentar que teria votado nele nas eleições presidenciais norte-americanas – “Gosto de direitistas. As pessoas dizem que vocês são direitistas, que o Partido Republicano é de direita (…) Também dizem que o Partido Democrático Cristão da Alemanha Ocidental é de direita. Fico relativamente feliz quando essas pessoas de direita chegam ao poder.”

1973, para Kissinger – “Só porque vocês ficaram atolados no Vietnã e encontraram tantas dificuldades, vocês acham que eles [os soviéticos] iam se sentir bem se ficassem atolados na China? (…) E então vocês podem deixar que se atolem na China, por meio ano, ou um, ou dois, ou três, ou quatro anos. E depois podem cutucar as costas da União Soviética. E seu slogan então será pela paz, de que precisam derrotar o imperialismo socialista em nome da paz. E talvez comecem a ajudá-los a realizar negócios (…). Seu objetivo em fazer isso seria derrubar a União Soviética.”

1975, para Kissinger – “É melhor que (Taiwan) esteja na mão de vocês. E, se fossem me devovê-la, eu não iria querer, porque não é desejável. Há um bando enorme de contrarrevolucionários por lá. Daqui a cem anos nós vamos querê-la (…) e vamos lutar por ela (…). Cinco anos, dez, vinte, cem anos. É difícil dizer. [Aponta para o teto] E quando eu for para o céu me encontrar com Deus, vou dizer a ele que é melhor deixar Taiwan aos cuidados dos Estados Unidos agora (…). Deus abençoou vocês, não nós. Deus não gosta de nós [acena com as mãos] porque eu sou um militante belicoso, e também um comunista (…) [Apontando para os três americanos] Ele gosta de você, de você e de você.”

Ainda em 1975, para o substituto de Nixon, Gerald Ford – “Seu secretário de Estado [Kissinger] andou interferindo em meus assuntos internos (…). Ele não deixa que eu parta e me encontre com Deus. Diz até mesmo para eu desobedecer à ordem que Deus me deu. Deus me enviou um convite, mas ele diz: não vá (…). Ele [Kissinger] é um ateu. Ele se opõe a Deus. E também está estragando minha relação com Deus. É um homem muito feroz e não me resta outra coisa a não ser obedecer suas ordens.”

E, claro, o diálogo – que não está no livro – em que Mao propõe a Kissinger enviar 10 milhões de chinesas para “inundar com desastres” os Estados Unidos: http://migre.me/77jip