Gatos e guerras

por Michel Laub

Nunca entendi muito o culto a Haruki Murakami. Ou talvez tenha entendido: nos livros dele que li, todos sobre tipos solitários vagando entre referências de música, de cultura japonesa ou de ficção especulativa clássica, frases simples sobre coisas simples parecem querer evocar algo de cool – um toque de mistério existencial, digamos –, o que costuma ter lá seu apelo.

Em Abandonar um gato, publicado agora no Brasil pela Alfaguara (108 págs., tradução de Rita Kohl e ilustrações de Adriana Komura), o procedimento mostra seu poder e seus limites. Por um lado, a banalidade elevada está lá: “descer é muito mais difícil do que subir”; “os resultados engolem rapidamente as causas”; “se eu conseguisse enxergar através da palma das minhas mãos, não me surpreenderia”.

Por outro, a forma com que isso é espalhado no texto muda o efeito do conjunto. A exemplo do que ocorre com um Guimarães Rosa ou uma Clarice Lispector, cujas pílulas destacadas em redes sociais às vezes soam como demagogia ou autoajuda, é preciso olhar para o todo – o lugar-comum grudado à perspectiva de quem narra, o que pode dar sabor próprio e grandeza à soma dos fragmentos dessa voz.

Publicado no Valor Econômico, 20/8/2022. Íntegra aqui.